A partir do extenso arquivo fotográfico do Palace Hotel (hoje Hotel Palácio) — 3236 provas em papel e 2005 negativos de gelatina em vidro, devidamente restaurados —, o Arquivo Histórico Municipal de Cascais construiu a exposição patente na Casa Sommer até 19 de Outubro e este álbum bilingue que pela primeira vez a representa, e constituirá por largos anos um portefólio inestimável acerca do projeto e dos anos dourados da “estação marítima, climatérica, termal e desportiva” nascida em 1913-14 do espírito e da ambição de Fausto de Figueiredo (1880-1950) e de Augusto Carreira de Sousa, os fundadores da Sociedade Estoril em 1918 (na p. 77 está 1915), aproveitando as delícias litorâneas do lugar e o facto de a vila piscatória de Cascais se ter tornado, com a presença da Família Real, até ao desastre de 1910, um ponto de vilegiatura para a alta sociedade. Trata-se duma operação de resgate patrimonial feita com pés e cabeça, pois todo o arquivo foi digitalizado e está disponível para consulta online, e ao mesmo tempo este livro pode ser obtido gratuitamente em PDF na página do Arquivo Municipal de Cascais. Constitui, por isso, uma excelente ajuda para quem, em geral, queira conhecer melhor a história da região em que vive, e em particular para historiadores e sociólogos, que nelas se apoiem para os seus trabalhos, ao mesmo tempo que seja desejável que uns e outros — além de caturras e cocabichinhos anónimos, que felizmente nunca faltam — possam ajudar o Arquivo a identificar protagonistas, datar eventos e esclarecer tudo o mais que estas imagens não dizem por si mesmas.

De alguma forma, importa sublinhá-lo, este é um momento inaugural que o Município de Cascais celebra com aceitável garbo político, mas é sobretudo o ponto de partida de uma campanha que ainda importa fazer para a completa identificação deste arquivo de fotografias e a sua plena integração na historiografia local. Logo na fotografia da p. 17, por exemplo, temos um grupo de figuras em que apenas foi identificado o popularíssimo ator Vasco Santana, mas um olhar cuidado e conhecedor reconhecerá também, facilmente, Amélia Reis-Colaço (sentada, ao centro), o seu marido Robles Monteiro (de pé, à esquerda, com o seu inseparável monóculo) e o ator Agostinho Fernandes, sendo de admitir tratar-se do elenco da famosa companhia teatral dos dois primeiros, tão marcante naquelas primeiras décadas do século passado. Na p. 32, ficou claramente por identificar a casa mantida nos “trabalhos de demolições e terraplanagem para a construção do novo Estoril” (que surge noutra perspetiva, numa fotografia da Ilustração Portuguesa da página seguinte), como na p. 44 faltou dizer o autor do grande quadro etnográfico que encima a atuação de coristas no Casino Estoril. Também se estranha que o retrato a óleo de Fausto de Figueiredo exibido na p. 98, feito ao estilo de Eduardo Malta, nos seja apresentado com a legenda lacónica e evasiva “Como Fausto de Figueiredo quis ser retratado para a posteridade”. E não se entende por que a celebrada piscina do Tamariz, de 1954 (foto p. 155), não é dada como obra do arquiteto Manuel Tainha (1922-2012).


Título: “A Invenção do Estoril. História em fotografia (1914-55)”
Coordenação: José Miguel Henriques
Prefácio: Carlos Carreiras 
Editor: Câmara Municipal de Cascais 
Páginas: 176

Depois de terem adquirido a Quinta do Viana, em Santo António do Estoril, em 1913, Figueiredo e Sousa contrataram o arquiteto paisagista francês Henry Martinet (1867-1836), ligado à Companhia Internacional Wagons-Lits e fundador em 1906 de Hendaye-Plage, para conceber o plano do complexo do Estoril a norte da estação da linha de caminho-de-ferro para Cascais. Em menos de um ano, o plano estava feito e foi apresentado, contudo desentendimentos rapidamente abreviaram essa colaboração, que chegou ao fim no início de 1916. A guerra na Europa e a instabilidade política e social da República portuguesa tão-pouco ajudaram à desejada rapidez das construções, pelo que as termas abriram em 1918 (foram demolidas em 1961), o Hotel do Parque em 1929 e o Palace Hotel em 1930, já sob risco do português António Rodrigues da Silva Júnior (1868-1937), com muito evidentes diferenças e melhorias de estilo. Ainda assim, o Casino Estoril acabaria por ser desenhado em modo modernista por Raoul Jourde (1888-1959), arquiteto muito ativo em anos recentes em várias estâncias francesas de veraneio, depois de rejeitados sucessivos projetos de Silva Júnior.

A exploração dos edifícios do hotel e do estabelecimento termal seria contratada em 1926 com o conhecido empresário Alexandre de Almeida, dono os Palaces da Cúria e do Bussaco, e em 1930, quando foi inaugurado o Palace, o Estoril tornou-se o término do Sud-Express vindo de Paris. No ano anterior, inaugurara-se o primeiro campo de golfe, com 9 buracos, ampliado em 1937 para 18. Em 1933, foi criada a Estoril Parque Tennis, com 7 courts (seriam 17 em 1939), e o Estoril passou a fazer parte de torneios internacionais da modalidade. Outros desportos emergentes, como o automobilismo e o ciclismo, levariam multidões ao Estoril, além dos torneios de esgrima, xadrez, remo e tiro aos pombos, polo aquático na piscina interior das termas ou boxe ao ar livre, como na fotografia sem data da p. 142. Uma escola de equitação existia na Estrada de Bicesse em 1936. O Estoril Praia seria fundado em 1939, com futebol, andebol, basquetebol, voleibol e outras modalidades. Inaugurada em 1942, a Estrada Marginal facilitou enormemente o acesso ao Estoril, “acelerando a [sua] ascensão à condição de principal destino turístico do país” (p. 151), edénico lugar de exílio para uns e fatal destino para outros, como o famoso xadrezista franco-russo Alexander Alekhine, falecido no Estoril em janeiro de 1946. Celebridades de todo o tipo foram clientes do Palace Hotel, pelo que as páginas finais deste livro reproduzem alguns dos boletins individuais da sua inscrição, entre os quais o do economista e jornalista John Maynard Keynes, em junho de 1941, ou da cantora e atriz espanhola Conchita Piquer, em julho de 1942. Mas uma das peças mais interessantes é, seguramente, a série de quatro fotografias — uma vez mais, sem autor ainda determinado — tiradas no alpendre da Casa Schröter sobre a praia do Tamariz, que serviriam de estudo ou base para o famoso cartaz de 1951 “Estoril: the Sunny Coast” (pp. 106-7).