O Conselho de Estado chegou a um consenso de que as eleições não são uma boa solução, mas que se tornaram inevitáveis, segundo contaram fontes presentes ao Observador. Marcelo Rebelo de Sousa disse aos conselheiros que não viu com “bons olhos” a apresentação de uma moção de confiança e que fez questão de o dizer ao primeiro-ministro antes desta ter sido votada. Já o antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva defendeu a posição de Montenegro ao dizer que compreendia a moção de confiança, argumentando que a partir do momento em que se gerou todo este “ruído” na opinião pública era importante “clarificar” a situação.
O Observador sabe que Luís Montenegro conhecia esta posição de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a moção de confiança. Aliás, o Presidente do República terá feito chegar ao primeiro-ministro esta sua posição antes mesmo de Montenegro se dirigir ao país a 1 de março. Recorde-se que, como o próprio Presidente da República viria assumir publicamente, o primeiro-ministro e líder do PSD não telefonou a Marcelo antes de fazer a sua declaração. Nessa declaração, Montenegro não anunciou a moção de confiança, mas sugeriu que a apresentaria se os partidos da oposição não recuassem nos ataques que estavam a fazer. O facto novo é este: o Presidente da República terá enviado um sinal preventivo ao primeiro-ministro para que não desse esse passo.
Dias depois, no entanto, Luís Montenegro apresentaria de facto a moção de confiança. Chegados aqui, Cavaco Silva, sabe o Observador, fez uma intervenção curta onde não fez qualquer paralelo com 1987, quando o seu próprio Governo foi derrubado por uma moção de censura no Parlamento (acabando por conseguir obter uma maioria absoluta). E mesmo defendendo Luís Montenegro, o antigo Presidente da República mostrou-se ainda preocupado com o futuro do país, em particular com as condições de governabilidade. Ter consensos entre os partidos para garantir estabilidade.
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Este Conselho de Estado não teve a ordem de intervenções habitual. O Presidente da República decidiu dar primeiro a palavra ao primeiro-ministro e depois aos líderes dos maiores partidos da oposição, Pedro Nuno Santos e André Ventura. Pedro Nuno Santos fez uma intervenção curta, lembrando que o PS sempre disse, desde o início, que não viabilizava moções de confiança e apenas se manteve coerente. O líder socialista defendeu, por isso, que quem não devia ter avançado com a moção de confiança era o Governo. Apesar de destacar que eleições não são uma solução brilhante, Pedro Nuno Santos consentiu que era uma saída democrática.
Tal como Pedro Nuno Santos, André Ventura não fez um ataque pessoal à figura do primeiro-ministro. Os dois disseram o que têm dito publicamente, mas num tom menos agressivo e menos corrosivo. No caso do líder do Chega, Ventura disse que o Governo é “responsável pela crise” e que era “óbvio” que Montenegro queria ir para eleições. Criticou ainda o facto de o primeiro-ministro se estar a “fazer de vítima” quando, na verdade, sempre quis ir a votos. A data consensualizada para as eleições foi o dia 18 de maio.