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Morreu Miguel Macedo, ex-ministro da Administração Interna. Tinha 65 anos

Este artigo tem mais de 1 ano

O ex-ministro da Administração Interna de Passos Coelho tinha 65 anos. Amigo de longa data de Marques Mendes, era também muito próximo de Montenegro e de figuras da atual direção do partido.

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MÁRIO CRUZ/LUSA

MÁRIO CRUZ/LUSA

Morreu Miguel Macedo. O antigo ministro da Administração Interna tinha 65 anos e terá sido vítima de ataque cardíaco fulminante em casa, apurou o Observador.

Natural de Braga, licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Tornou-se militante da JSD, aderiu depois ao PSD e foi deputado à Assembleia da República em várias legislaturas. Ainda na política, foi secretário de Estado da Juventude no governo de Aníbal Cavaco Silva e secretário de Estado da Justiça nos governos de Durão Barroso e depois de Pedro Santana Lopes.

Tornou-se secretário-geral do PSD de Luís Marques Mendes, de quem era muito próximo, e líder da bancada parlamentar social-democrata durante esse período. Com Pedro Passos Coelho como líder do PSD e primeiro-ministro, chegaria ao cargo de ministro da Administração Interna do XIX Governo Constitucional.

Numa nota enviada à comunicação social, o PSD diz ter recebido com “profundo pesar” a notícia da morte de Miguel Macedo. “Hoje deixou-nos um homem bom“, escrevem os sociais-democratas. “Nesta hora, em que o país e a família social-democrata ficam mais pobres, a direção nacional do PSD manifesta as mais sentidas condolências à família e amigos.”

À chegada ao Palácio de Belém, onde vai participar na reunião do Conselho de Estado, Luís Montenegro lamentou a morte de Miguel Macedo. “É com grande tristeza que vemos partir um homem bom, um homem sério, determinado. Um amigo, um homem de pensamento e ação, e que serviu o país em várias circunstâncias. Alguém a quem o povo o português e o PSD muito devem”, disse o primeiro-ministro.

O mesmo fez Luís Marques Mendes, um dos amigos mais antigos de Miguel Macedo. “Estou em estado de choque. Falei com Miguel Macedo há dois dias. Não foi apenas um político componente. Foi alguém que deu tudo ao país. E era um dos meus maiores amigos. Éramos amigos desde os 20 anos. Fizemos uma vida pessoal e política muito juntos. É uma perda irreparável”, lamentou o candidato presidencial do PSD, visivelmente emocionado.

Ainda a 6 de fevereiro, Miguel Macedo fez questão de estar ao lado de Luís Marques Mendes, em Fafe, para a apresentação da candidatura do antigo líder social-democrata à Presidência da República, numa sessão mais exclusiva e sem a presença de outras figuras nacionais do PSD.

Também Marcelo Rebelo de Sousa já reagiu à morte de Miguel Macedo. “Foi com muita consternação que o Presidente da República tomou conhecimento do falecimento repentino de Miguel Macedo. Com profundas raízes minhotas, Miguel Macedo revelou uma preocupação permanente com a realidade nacional e internacional e granjeou o respeito e a consideração nos mais variados setores da vida portuguesa”, começa por escrever o Presidente da República.

“Quer nos momentos mais felizes de uma longa atividade, quer naqueles em que enfrentou situações adversas, sempre com resistência e afabilidade raras. O Presidente da República apresenta à Família os seus sentidos pêsames, inseparável de uma antiga amizade”, acrescenta Marcelo Rebelo de Sousa.

Miguel Macedo acabaria por se afastar do cargo de ministro da Administração Interna e da vida política na sequência do caso “Vistos Gold”. Chegou mesmo a ser acusado de prevaricação e tráfico de influências, mas acabou absolvido de todos os crimes.

Não voltaria mais à política ativa, ainda que tenha aberto uma exceção para manifestar o apoio a Luís Montenegro nas últimas eleições legislativas. Aceitou também voltar ao comentário político e juntar-se ao programa “Princípio de Incerteza”, na CNN Portugal, onde debatia todos os domingos com José Pacheco Pereira e Alexandra Leitão.

Na rede social X, Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, diz estar “devastado” pela morte do antigo ministro. Escreve que conviveu “muito” com o colega, que considera “competente, íntegro e legal”. “Sofreu as agruras de injusta acusação, quebrando uma carreira irrepreensível. Todas as palavras são vãs”, escreve o social-democrata.

Também na rede social X, Alexandra Leitão, que partilhava o espaço de comentário na CNN Portugal com Miguel Macedo, lamentou a morte do antigo ministro, dizendo ter recebido a notícia com “profunda consternação“.

Aliado de Mendes, patrono de Montenegro

Como secretário-geral de Luís Marques Mendes, amigo de longa data, travou uma das batalhas internas mais duras da história do PSD. Luís Filipe Menezes, que desafiara o atual candidato à Presidência da República, acabou por sair vencedor desse combate fratricida e que culminou no afastamento de Marques Mendes. Miguel Macedo desempenharia depois um papel muito importante no sarar das feridas internas.

Era uma figura muito próxima de Luís Montenegro e de Hugo Soares, líder e secretário-geral do PSD, e muito querida por várias figuras do partido. Em 2010, quando era líder parlamentar do PSD (por escolha de Marques Mendes) promoveu a primeiro vice-presidente da bancada Luís Montenegro. O atual primeiro-ministro deu assim, com o apoio de Macedo, mais um passo no seu processo de afirmação política.

▲ Reação de Luís Montenegro e Luís Marques Mendes à morte de Miguel Macedo à chegada ao Conselho de Estado desta quinta-feira

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na direção da bancada parlamentar, a relação entre os dois — Macedo e Montenegro — evoluiu para algo entre a profunda cumplicidade e a admiração mútua. Montenegro aprendeu a apreciar o apurado faro político e o especial feitio de Miguel Macedo, cuja primeira resposta a qualquer ideia que fugisse da norma era quase invariavelmente «não».

Foi muitas vezes Miguel Macedo a dar palco parlamentar a Luís Montenegro, que aprendeu com ele a importância de fazer uma boa gestão de recursos humanos numa casa com egos particularmente insuflados.  Quando foi convidado para integrar o governo de Pedro Passos Coelho, como ministro da Administração Interna, foi sucedido no cargo de líder parlamentar precisamente por Luís Montenegro.

Além de ter sido uma espécie de patrono de Montenegro no Parlamento, foi também o responsável por promover a amizade entre o atual primeiro-ministro e Hugo Soares, conterrâneo e também ele afilhado político de Miguel Macedo. Depois de o antigo ministro ter feito a ponte entre ambos, Montenegro, então já como líder parlamentar do PSD, promoveria Hugo Soares, de quem entretanto se tornara amigo, a primeiro vice-presidente da bancada parlamentar do partido.

Plenário na Assembleia da República começa com evocação a Miguel Macedo

O plenário desta quinta-feira no Parlamento começou com uma ronda de homenagens a Miguel Macedo. Antes do arranque da sessão, o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, foi cumprimentado pelos líderes parlamentares dos restantes partidos. Hugo Soares era muito próximo de Miguel Macedo, até por serem ambos de Braga.

Na intervenção dos sociais democratas, Hugo Soares admitiu estar a fazer “das intervenções mais difíceis” para referir que Portugal “perdeu um príncipe da política. [Miguel Macedo] era alguém com uma integridade à prova de bola e lealdade rara no combate político” e que “nunca se escondeu atrás das opções que tomou”, referindo ainda que “foi alguém que sofreu muito” por causa do desempenho de funções publicas. Já visivelmente emocionado, Hugo Soares, disse que “o país perdeu um dos melhores, o PSD um dos seus grandes” e a titulo pessoal “um amigo”, recebendo aplausos de pé de todas as bancadas.

Também o PS, pela líder parlamentar Alexandra Leitão — com quem partilhava painel no programa da CNN Portugal “O Principio da Incerteza” –, referiu “a amabilidade, simpatia e correção com que se dirigia a todos”, deixando uma nota de “consternação e sentimentos”. Já o Bloco de Esquerda deu conta “dos combates políticos leais” desejando que existam “mais adversários como o Miguel Macedo”.

Um dos mais emocionados foi também João Almeida, do CDS, que foi secretário de Estado da Administração Interna no Ministério liderado por Miguel Macedo, e que lembrou “alguém que prestigiou muito o serviço público” e para quem “a política e o país foram muito ingratos”, mas destacando “o que diziam polícias, guardas e bombeiros sobre ter tido um ministro como Miguel Macedo, apesar de muitos deles nunca terem votado no PSD ou no CDS”.

A líder parlamentar da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, também endereçou uma nota de pesar aos partidos que trabalharam de perto com Miguel Macedo, o PSD e o CDS, lembrando a “forma muito irrepreensível e com respeito por todos” com que desempenhou funções públicas.

Pelo PCP, António Filipe recordou o inicio da vida parlamentar em que ambos integravam a comissão de juventude e em que trabalharam para “resolver o problema dos objetores de consciência relativamente ao serviço militar”, destacando a “correção e cordialidade” com que protagonizaram combates políticos. Pelo Livre, Rui Tavares, também frisou Miguel Macedo como “alguém que participou sempre no debate público com elevação” que “serviu o país com respeito pela causa pública”, destacando que “adversários leais é o que a democracia precisa”.

Já Pedro Pinto, do Chega, deu conta de que se perdeu “um bom quadro da política portuguesa” e que por isso “é a democracia que está de luto”, recordando o percurso político de Miguel Macedo, não só a nível nacional mas também autárquico.

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