O exército turco continuou a atacar o grupo militante curdo P.K.K. (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) durante as duas semanas que decorreram desde que foi anunciado o cessar-fogo unilateral, motivado pelo apelo do fundador do movimento, Abdullah Öcalan, à dissolução do mesmo e à deposição das armas pelos militantes, segundo o jornal The New Arab.
A 27 de fevereiro, o criador do confederalismo democrático defendeu que o conflito armado devia dar lugar a ações políticas pacíficas para tentar conquistar mais direitos para o povo curdo. “Estou a fazer um apelo à deposição de armas e assumo a responsabilidade histórica desse apelo”, disse Öcalan, numa carta tornada pública por membros do Partido da Igualdade e Democracia (DEM), considerado pró-curdo.
A liderança do P.K.K. anunciou então um cessar-fogo unilateral a 1 de março, exigindo a libertação de Öcalan para que este pudesse supervisionar o desarmamento do grupo. A Turquia descartou essa possibilidade.
De acordo com o The New York Times, na semana passada, o porta-voz do Ministério da Defesa turco disse que o exército iria “continuar a sua luta contra o terrorismo com determinação e resolução até que não sobre um único terrorista”. O contra-almirante Zeki Akturk afirmou ainda que a Turquia neutralizou 26 “terroristas” na Síria e no Iraque durante esse período, e perto de 1.500 desde janeiro.
O P.K.K. não confirmou estes números, mas afirmou que, nos últimos dias, a Turquia levou a cabo mais de 800 ataques ao grupo curdo no norte do Iraque, fazendo uso de aviões militares, helicópteros e artilharia.
Ancara tem mantido sigilo em relação ao estado das negociações com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, mas o processo aparenta estar em curso, de acordo com o The New York Times. Até agora, estas não culminaram num cessar-fogo bilateral.
O jornal norte-americano afirma que o Presidente Recep Tayyip Erdogan disse este mês que priorizava o diálogo e a reconciliação na resolução de problemas, mas que “se a mão que estendemos for deixada no ar ou mordida, manteremos o nosso punho de ferro”.
Abdullah Öcalan, de 75 anos, foi capturado pelos serviços secretos turcos no Quénia, em 1999, e inicialmente condenado à morte. Três anos depois, a Turquia aboliu a pena de morte e a sua sentença foi atenuada para prisão perpétua. Atualmente, encontra-se a cumpri-la na ilha-prisão de Imrali, no mar de Mármora, a sul de Istambul.
O P.K.K. é um grupo insurgente armado que defende o reforço dos direitos da minoria curda (a maior minoria étnica da Turquia, compondo 15% da população). O grupo iniciou a sua luta contra o Estado turco no início dos anos 80, originalmente com o objetivo de conquistar a independência curda. O conflito originou nas montanhas do este e oeste da Turquia, mas rapidamente se alastrou a outras partes do país.
Atualmente, a luta passa pela expansão dos direitos dos curdos na Turquia, cuja língua e cultura tem sido suprimida desde a formação do país, após a I Guerra Mundial. Apesar de algumas escolas turcas já oferecerem formação em língua curda, os curdos consideram que não é suficiente.
Os esforços para negociar o fim do conflito entre a Turquia e o P.K.K., que dura há cerca de 40 anos e já tirou a vida a mais de 40.000 pessoas, não têm produzido resultados. O exército turco tem vindo a derrotar as forças do P.K.K. em várias cidades curdas no sudeste da Turquia, aniquilando os seus líderes e combatentes.