Quando em 2022 a Ucrânia afundou o imponente navio de guerra russo Moskva, que na altura comandava a frota no Mar Negro, o mundo foi apanhado de surpresa. Foi também esta a reação das autoridades norte-americanas, com uma mistura de “fúria” e “pânico.” Já a incursão ucraniana na região russa de Kursk, que teve início em agosto do ano passado, marcou uma uma “quebra de confiança” na relação entre Washington e Kiev. Estas são algumas das revelações de uma investigação do New York Times publicada este domingo.
O artigo traça uma evolução do apoio militar Estados Unidos da América à Ucrânia durante a administração de Joe Biden e os vários pontos de stress que marcaram os mais de três anos de guerra. Um exemplo é a relação tensa entre Valery Zaluzhny, o general ucraniano que até fevereiro de 2024 foi responsável por chefiar as Forças Armadas do país, e Mark Milley, chefe do Estado-maior das Forças Armadas dos EUA. O jornal descreve uma rede de pelo menos quatro intermediários usada para pôr os dois em contacto simplesmente devido ao desagrado de Zaluzhny para com Milley. “Sei que estás zangado com o Milley, mas tens de lhe ligar”, dizia o ministro da Defesa Oleksii Reznikov a Zaluzhny que era um dos elos da cadeia.
O NYT escreve também que a incursão ucraniana na região russa de Kursk marcou uma uma quebra de confiança na relação com os norte-americanos. Refere que, em março de 2024, Washington descobriu que Kiev planeava em segredo uma operação terrestre em território russo. O líder da CIA confrontou o responsável das secretas ucranianas e avisou que se os ucranianos quisessem avançar teriam de fazê-lo sem as armas e informações dos EUA.
O jornal americano relata que em muitos casos o exército ucraniano considerava que a política “don’t ask, don’t tell” [em tradução livre, “não perguntes, não digas”] era “melhor do que parar para perguntar.” Foi o caso no ataque que levou à destruição do Moskva, um dos maiores navios de guerra russos. O ataque causou “fúria, porque os americanos não tinham sequer avisado; surpresa, perante o facto de a Ucrânia possuir mísseis capazes de atingir o navio; e pânico, porque o governo de Biden não queria que os ucranianos atacassem um símbolo tão poderoso do poder russo”, lê-se.
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Já a operação militar ucraniana em Kursk marcou uma quebra de confiança significativa entre os dois países. “Não foi só o facto de os ucranianos terem-nos mantido novamente no escuro; eles cruzaram secretamente uma linha mutuamente acordada, levando equipamento fornecido pela coligação para o território russo”, diz o NYT.
A investigação descreve ainda em detalhe alguns segredos da parceria militar secreta entre Washington e Kiev. Menciona, por exemplo, a criação de uma task force — “Dragon” — que a partir de uma base militar dos EUA em Wiesbaden, na Alemanha, fornecia aos ucranianos coordenadas para atingir as forças russas em pontos específicos do seu território. Esta equipa foi também responsável por supervisionar praticamente todos os ataques ucranianos com os poderosos HIMARS norte-americanos. Os HIMARS são um sistema de lançamento de foguetes.
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Além disso, o NYT traça uma evolução das linhas vermelhas impostas pela administração de Joe Biden ao longos dos mais de três anos de guerra. Na primavera de 2024, para proteger Kharkiv de um ataque russo, o governo autorizou a criação de uma chamada “caixa de operações”. Trata-se de uma zona em território russo na qual os responsáveis norte-americanos podiam fornecer aos ucranianos coordenadas precisas para ofensivas.