Em Portugal, 28,8% do emprego está exposto ao risco da automação e menos de um quarto (22,5%) tem potencial para usufruir dos ganhos de produtividade gerados pela inteligência artificial (IA). A conclusão é de um estudo divulgado esta sexta-feira pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que se centrou nos potenciais efeitos da digitalização no mercado de trabalho português.

A análise é o quarto policy paper publicado pela FFMS. O estudo, coordenado pelo professor do Instituto Superior Técnico Rui Baptista e com os autores Pablo Casas, Hugo Castro Silva e António Sérgio Ribeiro, analisou 120 profissões. Foi usada informação dos Quadros de Pessoal de 2021 — os dados mais recentes quando foi feito o estudo —, que cobre um universo de 3,2 milhões de trabalhadores em 280 mil empresas. Essencialmente, foram analisadas duas dimensões: os efeitos de substituição do trabalho humano, ou seja, o lado destrutivo da digitalização, e a complementaridade ao trabalho humano — o lado transformativo da digitalização.

Cada uma das profissões foi enquadrada numa matriz de “terrenos de digitalização”, consoante a exposição aos efeitos destrutivos da automação e aos efeitos transformativos da IA. É assim que surge um quadro composto por quatro grandes categorias:

  • “Profissões em ascensão”, com alta exposição aos efeitos transformativos e baixa a efeitos destrutivos. São também as profissões posicionadas para “impulsionar o crescimento económico futuro”;
  • “Profissões em colapso”, com baixa exposição aos efeitos transformativos da IA e alta exposição à automação. Correm “sérios riscos de extinção, dada a sua vulnerabilidade à disrupção tecnológica”, nota o estudo;
  • “Terreno dos humanos”, que correm baixo risco de automação, mas também têm um potencial baixo para serem alavancadas pela IA;
  •  “Terreno das máquinas”, em que há relativamente poucos trabalhadores e com tendência a ver os números diminuir. São ameaçados pela automação, mas podem beneficiar da complementaridade com a IA.

Em Portugal, a larga maioria do emprego não está posicionada para desfrutar dos efeitos positivos que podem surgir com a IA a complementar o trabalho humano, nota o estudo. O mercado de trabalho nacional tem o maior número de profissões no “terreno dos humanos” (35,7%). Segundo os responsáveis pelo estudo, nesta categoria há uma baixa exposição tanto aos efeitos transformativos como aos efeitos destrutivos da tecnologia, o que resulta numa “mensagem positiva” de que “a elevada proporção dos trabalhos portugueses está previsivelmente protegida de uma potencial destruição com origem na automação”. Profissões como técnicos de atividade física e de desporto, trabalhadores de limpeza em casas particulares, hotéis e escritórios ou agricultores e trabalhadores qualificados de culturas agrícolas de mercado são alguns dos exemplos desta categoria.

Menos de um quarto do emprego (22,5%) enquadra-se na categoria das “profissões em ascensão”, que podem usufruir dos efeitos positivos da IA e resguardar-se da automação. “Estas são as profissões mais promissoras para o futuro, de elevado valor acrescentado e essenciais para alavancar o crescimento económico”, refere o estudo. Os exemplos de profissões em ascensão incluem especialistas em vendas, marketing e relações públicas e especialistas em finanças e contabilidade, arquitetos, designers ou professores dos ensinos básico e secundário.

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O “terreno das máquinas” representa a percentagem mais baixa de empregos (12,9%). São trabalhos em número limitado, uma vez que já houve algum efeito da digitalização, notam os autores. Empregado de escritório em geral, operadores de máquinas do fabrico de produtos alimentares e similares, empregados de aprovisionamento, armazém, de serviços de apoio à produção e transportes enquadram-se nesta categoria.

Por fim, as “profissões em colapso”, como empregados de mesa e bar, operadores de equipamentos móveis ou cozinheiros, representam 28,8% do emprego em Portugal. É o segundo grupo de maior dimensão e, defendem os autores, precisa de “possibilidades de mobilidade para profissões menos expostas” à automação. É de realçar que a profissão de trabalhadores em vendas, aquela onde há mais pessoas empregadas (mais de 169 mil empregos), faz parte da categoria “profissões em colapso”.

Uma empregada põe em ordem os artigos à venda de uma das dezenas de lojas de "souvenirs" que existem na baixa pombalina de Lisboa, 20 de novembro de 2020. A falta de turismo na cidade de Lisboa devido à pandemia de Covid 19 levou a que muitos estabelecimentos comerciais, alguns deles emblemáticos e de familias há gerações estejam em risco de fechar. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DE 22 DE NOVEMBRO DE 2020) TIAGO PETINGA/LUSA Tiago Petinga/LUSA

A profissão com maior número de postos de trabalho em Portugal está ligada às vendas — insere-se na categoria de “profissões em colapso”

O estudo deixa uma mensagem aos decisores políticos sobre esta categoria: “deverão desde já acautelar um cenário de pressão adicional sobre o sistema de Segurança Social e considerar a implementação de políticas ativas”, como a requalificação de trabalhadores e desempregados. “A nossa análise revela que os esforços de requalificação de alguns destes trabalhadores podem não ser especialmente exigentes, já que muitos exercem profissões com competências relacionadas com ajudar e cuidar de pessoas (família de competências de prestação de assistência e cuidados) e com competências de comunicação e colaboração”, é referido.

Os autores do estudo contextualizam que os cenários previstos só poderão concretizar-se se houver adoção alargada da tecnologia. No caso da IA, “nas suas diferentes vertentes”, é preciso que a adoção “se faça a um ritmo acelerado, existindo, por isso, espaço para a criação de incentivos à sua adoção por parte das empresas, que devem ir além dos tradicionais incentivos económicos, e englobar os apoios à aquisição de competências”.

“Profissões em ascensão” com salários mais altos. Nos trabalhos “em colapso” há menos qualificações

É nas “profissões em ascensão”, ou seja, aquelas que podem usufruir dos ganhos da IA e também estão resguardadas dos efeitos destrutivos da automação, que é possível encontrar os salários mais elevados. De acordo com o estudo, o rendimento mensal médio destas profissões é de 1.987 euros.

É também nesta categoria que é possível encontrar a maior percentagem de trabalhadores com o Ensino Superior (63,4%) e os mais qualificados (79%). Os autores do estudo sugerem que um maior investimento na aquisição de competências de comunicação, colaboração e criatividade pode facilitar o acesso a algumas destas profissões, possibilitando a tal mobilidade entre categorias.

Os segundos salários mais elevados estão na categoria das profissões que se enquadram no “terreno das máquinas”, com um rendimento mensal médio de 1.063,9 euros. Neste caso, um quarto dos trabalhadores tem o Ensino Superior e 22,5% têm qualificações.

As profissões do “terreno dos humanos”, ou seja, com resiliência à disrupção digital e menor probabilidade de serem afetadas, têm um rendimento mensal médio de 927,6 euros. Têm apenas 15,4% de trabalhadores qualificados e 10,8% com Ensino Superior.

É nas “profissões em colapso” que estão os salários mais baixos: 827,6 euros. É também aqui que se encontram as qualificações mais baixas — 5,4% dos trabalhadores tem o Ensino Superior e 6,3% é qualificado.

Várias notas de euros, dinheiro do sistema europeu, 25 de março de 2024. ANTÓNIO COTRIM/LUSA ANTÓNIO COTRIM/LUSA

As “profissões em ascensão” têm salários mais altos

Lisboa concentra emprego das “profissões em ascensão”, Braga e Aveiro das “profissões em colapso”

O estudo da FFMS faz uma distribuição geográfica destas profissões. O distrito de Lisboa destaca-se pela maior proporção de emprego em “profissões em ascensão” (32,8%). Em simultâneo, apresenta a proporção mais baixa de “profissões em colapso” (27%). O facto de Lisboa ser o distrito com a maior densidade de emprego no setor dos serviços, particularmente em áreas como tecnologias de informação, consultoria, serviços financeiros, educação superior e investigação científica, ajudam a explicar esta diferença.

“Tipicamente, o emprego nos serviços está menos exposto à automação destrutiva, já que depende mais das relações interpessoais e de competências difíceis de automatizar”, contextualiza o estudo. Além de Lisboa, destacam-se ainda Vila Real (25,8%), Porto e Coimbra (ambos com 25,6%) e Bragança (24,7%).

Em sentido contrário, os distritos com maior proporção de “profissões em colapso”, ou emprego que enfrenta os efeitos negativos da automação, são Braga (45,6%), Aveiro (44,8%), Viana do Castelo (44,1%) e Viseu (41,2%). Nos três primeiros, há uma importância considerável do setor da manufatura, com os autores a notarem que os trabalhadores desempenham tarefas “muitas vezes repetitivas e rotineiras”. Como há baixos custos de adoção de tecnologia e “pressões da concorrência internacional” neste setor, gera-se uma “grande exposição dos trabalhadores à automação, ameaçando os seus empregos”.

Nesta análise, é ainda concluído que as competências que correm maior risco de desaparecer a longo prazo estão “associadas ao trabalho físico e manual e ao trabalho com máquinas”.

47% dos trabalhadores em Portugal altamente expostos ao uso de LLM

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O estudo contém ainda uma análise ao uso de grandes modelos de linguagem (LLM, em inglês). Concluiu-se que 47% dos trabalhadores em Portugal continental têm profissões altamente expostas ao uso de LLM (ou seja, com níveis de exposição acima da média).

É um valor superior à proporção de trabalhadores altamente expostos à IA em geral (cerca de 35%, tendo em conta as “profissões em ascensão” e as profissões no “terreno das máquinas”).

Na análise de rendimento mensal médio, quem tem alta exposição aufere rendimentos mensais médios mais altos do que a baixa exposição (1471,01 euros contra 873,86 euros).

Reformulação de currículos ou reforço da proteção social entre as recomendações de medidas

O policy paper remata com um conjunto de recomendações a decisores políticos e também às empresas para promover as profissões onde é possível tirar ganhos com a IA e proteger os empregos expostos à mudança tecnológica.

Assim, é destacada a necessidade de apostar na inovação, empreendedorismo e tecnologias digitais como catalisadores regionais para “maximizar os benefícios da digitalização”. É também recomendada a requalificação focada nas “profissões em colapso”, com programas que facilitem a transição para profissões mais resilientes e de menor exposição à automação. A requalificação também passa por gestores e empregadores, notam os autores do estudo.

A inteligência artificial generativa irá reduzir o número de empregos disponíveis no futuro NurPhoto via Getty Images

O estudo analisa a exposição de diferentes profissões à inteligência artificial

Também há trabalho a fazer nos currículos das escolas, que têm de ser preparados para a era digital. “Este alinhamento deve ser apoiado por colaborações estreitas entre as instituições de ensino e a indústria, de modo a garantir que a formação oferecida corresponde às necessidades reais do mercado de trabalho, presente e futuro”, destaca-se. É ainda recomendada a aprendizagem ao longo da vida, dando ênfase às capacidades de comunicação, resolução de problemas e criatividade.

Como há disparidades regionais, fica a recomendação de estratégias específicas para responder a cada um dos desafios. Em distritos mais vulneráveis, como Braga, Aveiro e Viana do Castelo, são sugeridas “iniciativas para a diversidade económica e a criação de pólos tecnológicos”.

Por fim, a adoção de tecnologias emergentes deve ser estimulada “com incentivos financeiros e apoio técnico às empresas”, em particular às de pequena e média dimensão para que possam integrar ferramentas de IA nos processos produtivos. Além disso, é recomendada a monitorização e o uso ético de tecnologias emergentes. “É fundamental monitorizar o impacto dessas tecnologias no mercado de trabalho e promover o seu uso de forma ética e socialmente responsável, garantindo que os trabalhadores também beneficiam significativamente dos ganhos de produtividade associados”, conclui o estudo.