A União Europeia (UE) levou a cabo uma investigação sobre a reciclagem de veículos em fins de vida, o que permite ter acesso a matéria-prima para fabricar novos modelos, especialmente ao nível das baterias, como as existentes nas versões 100% eléctricas e híbridas plug-in (PHEV). No processo, os investigadores europeus concluíram que existia um grupo de construtores que funcionavam em cartel, o que conduziu à aplicação de multas pesadas que ascenderam a 458 milhões de euros. Mas, entre as marcas envolvidas, houve uma que negociou com a UE para admitir o crime, denunciando os parceiros como forma de evitar a multa. Foi a Mercedes quem assumiu este papel de “bufo da sucata”, mas esteve longe de estar só.

O cartel da reciclagem europeia funcionava há mais de 15 anos e envolvia 16 construtores, tendo como “chefe da máfia” a própria Associação dos Construtores Europeus de Automóveis (ACEA), que agilizavam contactos entre os seus associados para fazer funcionar o cartel. De acordo com a UE, entre 2002 e 2017, os 16 construtores e a ACEA dedicaram-se a práticas concertadas que visavam contornar a directiva 2000/53/EC, que determinou que o último utilizador do veículo poderia dá-lo para abate sem qualquer encargo. Caso existisse algum custo adicional para o sucateiro que procedesse ao desmantelamento e reciclagem do automóvel, esse custo deveria ser suportado pelo fabricante, que entretanto anunciava a percentagem de peças recicláveis nos seus modelos como prova da responsabilidade social da empresa.

Apurou a UE que o cartel da sucata acordou em não pagar a sua parte no abate e reciclagem dos veículos que venderam, acusando os sucateiros de já “terem um negócio muito lucrativo”, enquanto escondiam informações sobre o potencial de reciclagem dos respectivos modelos. De acordo com as informações reunidas pela UE, as marcas envolvidas na fraude foram a BMW, Ford, Hyundai/Kia, Jaguar Land Rover, Mazda, Mercedes, Mitsubishi, Opel, Renault/Nissan, Stellantis, Suzuki, Toyota, Volkswagen e Volvo, com a Tata, GM e Geely a serem contabilizadas junto às marcas a que estão associadas.

As penalizações aplicadas às diferentes marcas e grupos industriais variam consoante o volume de veículos fabricados, pelo que não é de estranhar que seja mais penalizado quem mais vende na Europa. Isto explica que o Grupo Volkswagen tenha sido multado em cerca de 128 milhões de euros, à frente da Renault/Nissan, com aproximadamente 81 milhões, e da Stellantis com 75 milhões, a que é necessário adicionar os 25 milhões da Opel, que hoje integra do grupo. Pode ver abaixo o ranking do cartel da sucata, com os construtores mais e menos multados, bem como o valor atribuído às informações que forneceram à UE.

Entre os construtores que denunciaram os seus pares, a Mercedes liderou destacada, sendo por isso a única que beneficiou de um desconto a 100% sobre as penalizações que deveria ter pago e que a UE estimou em 35 milhões de euros. Aparentemente, este construtor germânico ajudou sobretudo a “enterrar” os conterrâneos da VW e BMW, fornecendo dados e provas contra estes e todos os restantes co-conspiradores, o que deverá tornar particularmente “animadas” as próximas reuniões na ACEA. E aqui nem pode existir qualquer surpresa, uma vez que a Mercedes fez exactamente o mesmo em 2021, quando se dispôs a denunciar os outros à UE para, em troca, ver a sua penalização reduzida num caso relativo às emissões poluentes de NOx — não confundir com o Dieselgate, em que também esteve envolvida. Nessa ocasião, a marca da estrela denunciou os acordos secretos que tinha realizado com os grupo VW e BMW.

Apesar de ter conquistado destacadamente o protagonismo na arte da delação, a Mercedes não foi a única que deu com a língua nos dentes. Entre os denunciantes sobressaiu também a Stellantis (e a Opel), que partilhou informações sobre a fraude em que participou para reduzir a multa em 50%, o mesmo acontecendo com a Mitsubishi e a Ford, mas em menor monta. Como a denúncia foi menos rica em informações, usufruíram apenas de uma redução de 30% e 20%, respectivamente.