A BYD desembarcou no Brasil 5.500 automóveis novos vindos da China, que viajaram a bordo de um dos seus navios Ro-Ro (de roll-in/roll-off). No caso, o BYD Explorer 1 que, com 200 metros de comprimento, 38 metros de largura e a navegar sob a bandeira da Libéria, pode deslocar até 7.117 veículos. O construtor chinês recorreu aos navios que também fabrica para aumentar o stock de veículos para venda no Brasil, antes de mais um aumento nas tarifas, o que fintou as medidas do Governo brasileiro e irritou particularmente a Anfavea, a associação dos construtores de veículos já instalados naquele mercado da América do Sul, que acusa a BYD de estar a viciar o jogo, tendo já solicitado ao Presidente Lula da Silva que tome medidas.

Como acontece com a generalidade dos países de grande dimensão, também o Brasil incentiva os construtores de automóveis que querem comercializar os seus veículos no país a produzi-los localmente, em vez de os importar. Isto cria riqueza, gera empregos e melhora a balança comercial do país, sendo que, neste momento, são os fabricantes de automóveis chineses que estão a crescer mais rapidamente, o que faz deles os alvos mais interessantes para investir no país.

Para levar os construtores chineses a instalarem no Brasil as suas fábricas, o Governo de Lula da Silva anunciou uma subida gradual de impostos à importação, que eram de 10% até Janeiro de 2024, mas que devem atingir 35% em Julho de 2026. Esta evolução de tarifas teve alguns “saltos” pelo caminho, o primeiro no início do ano transacto, quando as taxas passaram para 18% para os eléctricos, 25% para os híbridos (HEV) e 20% para os híbridos plug-in (PHEV). Em Junho de 2025 haverá nova subida, desta feita para 25% nos EV, 30% nos HEV e 28% nos PHEV, para ficarem todos em regime de igualdade nos 35% em Julho de 2026.

Em sintonia com a Anfavea, as marcas que já produzem no Brasil queixam-se que a BYD reforça o envio de navios Ro-Ro sempre que se aproxima mais um agravamento de impostos, acção “de que resultam óbvias vantagens financeiras que ajudam a marca a conseguir vender os seus carros mais baratos do que a concorrência”. Acusam mesmo o construtor chinês de já ter em stock cerca de 40.000 veículos em solo brasileiro, obviamente em situação vantajosa em matéria fiscal, o que representa mais de seis meses de vendas (a BYD comercializou cerca de 76 mil unidades no Brasil em 2024).

Tudo isto deixa a concorrência à beira de um ataque de nervos, pelo que a associação dos fabricantes locais exige ao Governo a antecipação imediata do imposto máximo (35%), para impedir que a BYD continue a importar carros com a taxa antiga imediatamente antes dos aumentos, uma vez que o imposto é determinado à chegada ao país e não no momento da venda. Contudo e de acordo com a imprensa brasileira, um consultor da Bright Consulting não tem dúvidas que, apesar da irritação da Anfavea, “a BYD está a trabalhar dentro das regras”. Cassio Pagliarini acrescentou ainda que, caso fosse o gestor da marca chinesa no Brasil, “faria exactamente o mesmo”.

A BYD está a poucos meses de engrossar a lista dos construtores com capacidade de produção no Brasil, estando actualmente a terminar as obras de remodelação na antiga fábrica da Ford, em Camaçari, que os chineses, apesar de alguns atrasos, esperam ter em funcionamento ainda em 2025. Só que a nova linha de produção não irá fabricar todos os modelos que a marca pretende vender aos brasileiros e todos os modelos que forem importados da China continuarão a ter de suportar 35% de tarifas aduaneiras, o que significa que os navios da BYD vão continuar numa roda viva. De recordar que a BYD vende hoje o seu modelo eléctrico mais popular no Brasil, o Dolphin Mini, por 99.000 reais, cerca de 14.800€.