Quando se pede a um ator uma self-tape, o senso comum pode levar a pensar que basta gravar um vídeo informal, com o telemóvel, interpretando uma cena e enviá-lo ao diretor de casting. Mas a realidade é um pouco mais complexa, como explica João Pedro Vaz, ator que protagonizou recentemente Os Papéis do Inglês, de Sérgio Graciano.
“Já recebi instruções para self-tapes com vários planos: plano médio, plano fechado, plano assim… Na altura até brinquei com a minha agente: ‘Estou a ter mais indicações agora do que aquelas que vou ter para o papel’”, conta o ator. Gonçalo Waddington, protagonista de Grand Tour, filme de Miguel Gomes que foi o candidato português à possível nomeação aos Óscares, confirma a tendência: “Chegam a dar indicações de realização”, diz, acrescentando que é em Portugal que, curiosamente, se fazem os pedidos “mais absurdos”. Em 2025, ser ator tem novos desafios.
Vaz e Waddington juntaram-se a Albano Jerónimo (O Pior Homem de Londres) e Rafael Morais no mês passado para uma conversa com o Observador sobre os filmes que protagonizaram no último ano — produções que os colocaram entre os nomeados dos Sophia, os prémios atribuídos anualmente pela Academia Portuguesa de Cinema e cuja cerimónia acontece já este domingo à noite, com transmissão na RTP.
Com o Cine-teatro Turim como cenário, os quatro atores portugueses refletiram sobre os bastidores do ofício: os processos de casting, a exigência crescente das self-tapes, os métodos de preparação, o desafio de representar personagens moralmente ambíguas (Ainda há anti-heróis?, perguntam) e a forma como o medo e a cultura atual influenciam o cinema contemporâneo.
“Parece que agora tudo é feito para crianças, não há espaço para filmes destinados a adultos”, diz a dada altura Rafael Morais, estrela de Um Café e um Par de Sapatos Novos — que a Academia escolheu nomear em detrimento de uma nomeação conjunta com o irmão gémeo, também protagonista do filme. “Há obras que seriam impensáveis de serem feitas hoje”, crê Rafael. “Filmes de há 15 ou 20 anos que hoje não conseguiriam financiamento porque há medo: medo do tema, de serem cancelados, da woke culture.”
Mesmo com interpretações que lhes valeram críticas favoráveis e o reconhecimento dos pares, a conversa entre os quatro atores deixa claro que os receios e as dúvidas permanecem. E que, num mundo cada vez mais atento às questões da moralidade, ser ator se tornou também um exercício de resistência emocional.
“Importa-se de representar alguém que tenha princípios muito contrários aos seus?”, perguntaram a João Pedro Vaz, que recorda o episódio com preocupação. “Não sei se as redes sociais não têm alguma influência nisso, mas as pessoas têm de se mostrar como tendo valores sempre certos e do lado certo”, lamenta. “Há um medo qualquer de introduzir ambiguidade no processo — e o nosso trabalho também é feito à volta da ambiguidade emotiva.”
O Observador agradece ao Cine Teatro Turim, em Benfica. Lançámos o repto também às atrizes nomeadas ao Prémio de Melhor Atriz e aos realizadores nomeados ao Prémio de Melhor Filme e Melhor Realização, mas por motivos de agenda não foi possível concretizar as duas conversas.