Dias depois do anúncio dos nomeados aos Prémios Sophia 2025, entregues anualmente pela Academia Portuguesa de Cinema ao que considera ser o melhor da produção nacional na área, o ator Edgar Morais veio a público criticar o não reconhecimento do seu trabalho num filme que co-protagoniza com o irmão gémeo, Rafael Morais, e que mereceu apenas a este último a nomeação de Melhor Ator. Edgar denuncia o que diz ser falta de “transparência” da Academia que acusa de “grave cumplicidade” em situações “vulneráveis à manipulação, ao favoritismo e ao abuso de poder por parte da própria organização”.
Em causa está a interpretação em Um Café e um Par de Sapatos Novos, filme do realizador albanês Gentian Koçi com os irmãos Edgar e Rafael Morais nos papéis principais. O filme, rodado integralmente na Albânia, é uma co-produção de minoria portuguesa, assegurada pela Maria & Mayer, e estreou-se em Portugal em outubro.
A dupla de atores interpreta Agim e Gëzim, irmãos gémeos surdos de nascença que descobrem que, graças a uma doença degenerativa rara que ambos possuem, em breve ficarão cegos de forma progressiva e irreversível. A decisão da Academia Portuguesa de Cinema, conhecida na passada sexta-feira, foi a de nomear apenas um dos protagonistas ao prémio de Melhor Ator Principal: Rafael Morais, que competirá pelo galardão com Albano Jerónimo (O Pior Homem de Londres), Gonçalo Waddington (Grand Tour) e João Pedro Vaz (Os Papéis do Inglês).
“Foi uma surpresa tremenda”, reagiu Edgar Morais ao Observador, a partir dos Estados Unidos, onde está atualmente a preparar um filme. “É uma situação delicada porque estamos neste filme indistinguíveis, parece-me impossível [perceber quem é quem].” O ator diz que a Academia Portuguesa de Cinema não nomeou com base no mérito. “Ao publicamente anunciar a nomeação a um dos atores está a tomar partido ou então não conhece os filmes”, sugere. “Senti-me desrespeitado pela Academia que pensei representar-me.”
Ao Observador, a Academia Portuguesa de Cinema diz rejeitar “veementemente todas as insinuações e acusações feitas pelo ator Edgar Morais”. “Encontramo-nos atualmente a analisar a situação e as eventuais medidas a tomar face a estas acusações, que, além de infundadas, são graves e atentam contra a idoneidade da Academia. No momento e local próprios, será dada uma resposta adequada”, acrescenta a entidade que organiza e atribui os prémios Sophia.
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“Como foi esta nomeação possível?”
Num primeiro comunicado partilhado esta segunda-feira nas redes sociais, Edgar Morais dizia-se obrigado a distanciar-se da Academia Portuguesa de Cinema por não se terem mantido “os ideais de mérito, justiça e integridade”. “Rescindo por isso, com efeito imediato, a minha filiação à Academia Portuguesa de Cinema (…) juntamente com todas as suas respetivas funções e quotas, assim como a nomeação para Melhor Curta-Metragem de Ficção em 2022 pelo meu filme We Won’t Forget“, partilhou. Não estando explícita a mensagem, alguns comentários questionavam: “o que se passa?”.
▲ Edgar e Rafael Morais como Agim e Gëzim, irmãos gémeos surdos de nascença que descobrem que, graças a uma doença degenerativa rara que ambos possuem em breve ficarão cegos
A carta aberta, que além de ter sido divulgada foi enviada à Academia, mereceu uma resposta imediata da entidade visada, por e-mail. “Perguntaram-me a razão”, confirma Morais ao Observador, destacando a simpatia do interlocutor. A pergunta surpreendeu-o: “Achei que sabiam de imediato”.
▲ O comunicado do ator Edgar Morais nas redes sociais
Num segundo comunicado, já esta terça-feira, o ator assumiu publicamente os motivos da crítica. “Ao ter tomado a decisão de nomear e anunciar publicamente a nomeação para apenas uma das interpretações no filme Um Café e Um Par de Sapatos Novos onde ambos os protagonistas são gémeos, e que partilham o mesmo tempo de ecrã e onde foram intencionalmente caracterizados pela produção de forma a ficarem fisicamente indistinguíveis, a Academia não só revelou e admitiu sem reserva alguma que os seus prémios e nomeações são ilegítimos e não se baseiam em mérito, como também não se preocupa com essa questão”, escreveu. Para o ator, a associação mostra “assim a todos os seus membros, publicamente e em voz alta, não só que a própria associação não está certamente de forma alguma familiarizada com os filmes que nomeia, mas que, assumindo que os votos são de facto contados, a maioria dos seus membros também não está familiarizada ou nem sequer assiste aos filmes nos quais votam e que são por isso, naturalmente, tendenciosos nas suas escolhas”.
“Como poderia este reconhecimento ser uma honra ou ter qualquer valor para mim, tivesse sido eu o único nomeado, sabendo que a natureza única deste filme faz com que seja, como quem viu o filme pode atestar, objetivamente impossível para o seu público diferenciar e, portanto preferir uma performance em detrimento da outra? Onde está a honra em ser reconhecido em grande parte pela atuação de outro ator? Como foi esta nomeação possível?”, questionou no mesmo texto.
“Ao recusar-se a reconhecer a situação ou a implementar medidas a fim de tentar corrigir um sistema que está agora provado como sendo, de forma irrefutável, uma farsa, a Academia mostra também a sua grave cumplicidade nestas ocorrências muito vulneráveis à manipulação, ao favoritismo e ao abuso de poder por parte da própria organização, dos seus organizadores e daqueles que a favorecem.”
No mesmo comunicado, Edgar Morais vai mais longe e levanta questões sobre a imparcialidade do processo de nomeação e votação dos Sophia e alerta que a Academia “requer um alto nível de escrutínio e transparência em todas as suas ações, sejam elas financeiras ou relacionadas com o processo de seleção e votação para os seus prémios”, sugerindo mesmo medidas como a “reestruturação dos organizadores e órgãos sociais” para espelhar “diversidade”, uma “revisão e reestruturação completa da plataforma de votação” dos prémios, a contratação de uma “empresa independente para contar e verificar os votos” e a criação de uma canal de denúncia de “abusos, corrupção, subornos e favoritismos dentro da Academia”.
▲ 24 horas depois, o ator veio esclarecer o assunto num longo texto publicado também no Instagram
Questionado pelo Observador, o ator diz não ter “prova direta” das situações que menciona e esclarece que não está a “acusar de manipulação ou corrupção, mas sim a dizer que estas condições estabelecidas pela Academia criam um ambiente que proporciona a possibilidade de isso acontecer, e que precisa de escrutínio.” Para Edgar Morais, “as condições deveriam ser tais para que essa mesma possibilidade não exista de forma clara”.
Rafael Morais, nomeado, não se revê “nesta postura” do irmão
A trabalhar atualmente nos Estados Unidos, Edgar Morais, ator de 35 anos, diz-se espantado com a “quantidade de mensagens” que recebeu após as publicações nas redes sociais. “Nem toda a gente se sente confortável em falar publicamente. É um meio muito pequeno”, sublinha, dizendo que a “coragem para falar” advém do seu contexto. “Para ser honesto sinto que estou numa situação de privilégio, no sentido em que como sou realizador não estou tão dependente do trabalho como ator”, justifica-se. “Além disso, queria deixar claro que a razão pela qual estou a falar é porque me importo com a Academia. Isto magoa-me. Gosto das pessoas que trabalham na Academia, mas por essa mesma razão consigo dizer que há dinâmicas de poder que não fazem sentido e que têm potencial para abuso”.
Sobre a expectativa de ser nomeado, garante não ter nenhuma. “Não escrevi a carta à Academia para pedir a nomeação de forma alguma. No momento em que anunciaram os nomeados da forma como o fizeram, nesta situação, o valor do prémio para mim desapareceu porque revelou todos os problemas que expliquei na carta”, responde.
Um Café e um Par de Sapatos Novos (A Cup of Coffee and New Shoes On, no título original) representou a Albânia na corrida ao Óscar de melhor filme estrangeiro e fez carreira em alguns festivais internacionais de pequena dimensão. Em setembro de 2023, o filme venceu o prémio de Melhor Ator no PriFest — Prishtina International Film Festival, um festival no Kosovo. O prémio foi atribuído a ambos os atores.
Ao Observador, Rafael Morais, irmão gémeo de Edgar, que com este contracena no filme Um Café e um Par de Sapatos Novos, confessa que foi “apanhado de surpresa pela reação pública do meu irmão quando os nomeados foram anunciados, pois não me revejo nesta postura”. Assegura ainda que “houve uma aceitação, promoção e divulgação feita por ele [Edgar Morais] na altura, tendo demonstrando entusiasmo e reconhecimento pela distinção individual durante todo o processo de candidatura apresentado pela Academia Portuguesa de Cinema”.
Rafel Morais salienta ainda que “as personagens no filme são distintas, com arcos narrativos diferentes e interpretadas por dois actores que apesar de gémeos, são diferentes”. No entanto, reconhece que o trabalho individual de cada ator “está profundamente interligado pelas características e essência muito especifica desta história e deste filme, que obviamente não seria o mesmo sem o seu contributo”, referindo à interpretação de Edgar Morais.
Academia sobre o caso “Diamantino”: “São completamente distintos, não comparáveis”
A situação pode parecer excecional, mas não é inédita nos Sophia, os prémios instituídos desde 2012, um ano após a criação da Academia Portuguesa de Cinema. Em 2020, a Academia foi alvo de críticas em tudo semelhantes por ter nomeado apenas uma das atrizes de Diamantino (2018) ao prémio de Melhor Atriz Secundária.
O filme de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt tem como personagens secundárias as gémeas Anabela e Margarida Moreira, mas apenas a primeira atriz — colaboradora regular do realizador João Canijo (Sangue do Meu Sangue, Mal Viver) e detentora de dois Globos de Ouro — mereceu uma nomeação aos prémios.
▲ As atrizes Anabela e Margarida Moreira em "Diamantino" (2018)
Edgar Morais evoca o caso e compara: “Nestes dois casos há um padrão da Academia de Cinema em preferir celebrar e dar nomeações a pessoas que não são só ligadas ao cinema, que fazem televisão também, como o meu irmão”, apontando.
Em 2020, perante as críticas, a Academia Portuguesa de Cinema acabaria por decidir retificar as nomeações e a gémea Margarida Moreira também foi a concurso em conjunto com a irmã, constituindo apenas uma nomeação, mas com duas atrizes. De acordo com uma nota divulgada no Facebook, a Academia explicava que “o resultado da primeira volta de votações” tinha colocado a entidade “perante uma situação atípica”. “Todos os que viram o filme lembrar-se-ão de que a participação de ambas é indissociável uma da outra, visto que atuam como se de uma personagem só se tratasse, a todos os níveis”, reconheciam.
Por isso, “atendendo às circunstâncias particulares desta nomeação, a direção da Academia Portuguesa de Cinema decidiu retificar a lista de nomeadas à categoria de Melhor Atriz Secundária, e ambas as atrizes Anabela Moreira e Margarida Moreira partilharão o lugar na nomeação, mantendo-se assim as 4 nomeações previstas”.
Sobre esta comparação com o filme Diamantino e a “retificação” nas nomeações, diz a Academia ao Observador: “São casos completamente distintos e não comparáveis. O único denominador comum é ambos terem uma dupla de atores gémeos no elenco. No caso do filme Diamantino, ambas as atrizes desempenham uma dupla de antagonistas que, ao longo de praticamente todo o filme, surgiam juntas. Citando o comunicado emitido na altura, ‘a participação de ambas é indissociável uma da outra, visto que atuam como se de uma personagem só se tratasse, a todos os níveis’. No caso do filme Um Café e Um Par de Sapatos Novos, a situação não é de todo comparável. Cada um dos atores tem uma personagem claramente definida.”
Os Prémios Sophia são uma iniciativa da Academia Portuguesa de Cinema que tem por objetivo reconhecer a melhor produção nacional e existem desde 2012, um ano após a criação da Academia Portuguesa de Cinema. O nome é uma homenagem à poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen. A Academia é presidida pelo produtor Paulo Trancoso desde a sua fundação. É esta entidade a quem compete, entre outras coisas, escolher anualmente o filme português candidato ao Óscar de Melhor Filme.