“Era tão direitinho que até chateia!” As décadas vão passando, mas a professora Lucinda lembra-se bem de Rui Rocha, o melhor aluno da turma, que até ajudava a pôr os colegas “nos eixos”. É com ele que se encontra, como planeado, numa pastelaria de Braga, de onde partirão de braço dado para a escola onde Rocha estudou durante a adolescência. Provoca de imediato o “Ruizinho” — “vens saber o preço dos ovos?”, atira, depois de André Ventura lhe ter lançado essa pergunta num debate — mas desfaz-se em elogios. O próprio Rocha confirma que não dava “trabalho nenhum”: saltava o portão da escola de vez em quando, mas apenas para garantir que chegava a horas às aulas.

É quarta-feira, o dia é de campanha e Rui Rocha anda a mostrar o seu lado mais “emocional”, percorrendo os cantos à casa que o acolheu durante parte da adolescência (lembra o campo de basquetebol ou as salas dos “trabalhos oficinais” enquanto percorre o espaço grande da escola secundária Dona Maria II, uma escola pública no centro de Braga onde a sua mulher também estudou). Mas a emoção puxa pela política e vice versa — e é por isso que a professora Lucinda confirma que espera que Rocha também ponha a política “nos eixos”: “É o único que eu consigo ouvir!”.

O dia de Rocha é dedicado às áreas da Educação e da Saúde, sempre tentando desmistificar o “perigo” que a esquerda assegura que as propostas da IL trarão aos serviços públicos e aos mais desfavorecidos. Fora da escola, Rocha defende que “não pode ser o código postal a determinar as oportunidades que os alunos têm”, argumentando que se deve garantir a “liberdade de escolha” e rejeitar o “determinismo social” do atual sistema de colocações na escola pública. Mesmo assumindo que esta é importante: “É muitas vezes o único sítio onde muitas crianças e jovens têm um ambiente social adequado e fazem a única refeição quente do dia”.

Aos jornalistas, Rocha defende as propostas mais concretas da IL para o ensino — mais literacia financeira, mais literacia digital e com foco na inteligência artificial — e, questionado sobre se também acha que há ideologia de género (como dizem AD e Chega) a mais nos programas escolares, fala de forma mais genérica: “A ideologia não deve estar presente nos programas educativos”. Mas está? “Nalguns momentos e conteúdos parece-me que tem estado. Não estamos aqui para doutrinar”, defende, assegurando que nas “visões da história recente portuguesa” os programas escolares passam uma “visão política”, sem “isenção”.

“Ministério da Saúde está tomado por clientelas políticas”

Já de manhã Rocha tinha estado numa visita ao hospital da Santa Casa da Misericórdia de Vila Verde, também no distrito de Braga, no caso a defender as propostas da IL para a Saúde e o papel dos privados. Teve no provedor, Bento Morais, um fervoroso guia (explicou que acolhe 700 crianças e 250 idosos, que abriu várias creches e tem todas as especialidades, que recebe 350 mil euros mensais do Estado e entrega 450 mil) e apoiante (desejando que a IL chegue aos 7 ou 8 por cento). E Rocha acabou com uma consulta de dermatologia prometida, para tratar a sua dermatite atópica.

Mas voltando à política: “Encontramos aqui uma das razões fundamentais para votar IL”, começou por defender Rocha, falando aos jornalistas. “Encontramos muitos portugueses que esperaram no SNS meses ou anos e só ao fim de anos de sofrimento tiveram oportunidade de recorrer a estes serviços”, frisou, contando que encontrou utentes naturais de Olhão ou de Ovar, entre idosos e crianças. “Não quero que crianças e idosos estejam à espera até o SNS falhar”.

A alternativa da IL passa pela criação de vários subsistemas de Saúde que funcionariam em concorrência com o SNS e teriam financiamento do Orçamento do Estado. Rocha não diz quanto é que isto custaria, mas continua a tocar no ponto de tornar o utente “o centro do sistema de Saúde: “Temos de usar toda a capacidade instalada e queremos que as pessoas possam olhar para a capacidade instalada e decidir onde querem ser tratadas”.

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Isto significaria, na prática, o desaparecimento do SNS como o conhecemos? Para a IL, sim: “O SNS no modelo atual tinha de ser dotado de condições para tratar 10 milhões. É impossível”, admitiu, defendendo que o Estado “entre em negociações” com os privados e “angarie recursos”. “Não vai acontecer que o SNS tenha capacidade para tratar dez milhões”.

Defendendo que se faça uma “alocação correta de recursos” e não um aumento de investimento no SNS — como tem acontecido nos últimos anos — assim como incentivos à produtividade dos profissionais, Rocha defendeu que “é preciso mudar imediatamente a gestão do SNS”, mas “não acabar com a direção executiva, que tem um papel muito importante”.

“O Ministério da Saúde esta tomado por clientelas políticas e é muito importante tirar as decisões de gestão para a direção. Com a AD já vamos no terceiro diretor executivo”, lamentou. “Vi a AD com muitas dúvidas sobre a direção executiva” e a fazer o caminho errado, retirando poderes e devolvendo-os a “uma máquina política partidária instalada no ministério”.

As promessas de Rocha: PPP em Braga e contratos de associação

À noite, no comício em que chegou ao som de “We will rock you”, sempre bom pretexto para uns minutos de aplausos coordenados, Rocha falou dos temas da Educação e da Saúde e juntou-lhes outro — o aeroporto — para fazer promessas de futuro. Neste caso, em assuntos em que o alinhamento com a AD não será difícil ou em que o Governo até já fez as mesmas promessas.

“É um distrito espetacular e tivemos até candidatos que não sendo de cá quiseram concorrer por Braga. Eu não, sou mesmo daqui!”, começou por provocar, lembrando que estava a poucos quilómetros de casa ou dos sítios onde estudou e os filhos cresceram. “A minha mãe terá sido responsável por ensinar matemática a metade da população graceja — peço desculpa por isso”, gracejou (a mãe é professora). Ainda acrescentou que os filhos foram pela primeira vez à praia em Esposende.

Depois, passou a dizer que o distrito “sofreu com as políticas de esquerda” e a decisão por “pura ideologia” de acabar com a PPP no Hospital de Braga. “Quero assumir o compromisso: com a IL, a PPP vai voltar para servir as populações” — uma decisão que a AD já tomou. Falou também nas escolas com contratos de associação, que “tinham a porta aberta a todos, sobretudo aos mais desfavorecidos”.

“Pois a esquerda não descansou enquanto não asfixiou as escolas com contratos de associação. Os alunos com menos recursos, que tinham um ensino de qualidade, tiveram de sair para escolas piores”. Por isso, essa decisão “que teve tanto impacto nesta região” foi “contra os que mais precisavam do elevador social”. “Essas decisões da esquerda prejudicaram sobretudo os mais desfavorecidos”. Conclusão: prometeu também que com a IL esses contratos vão ser reativados.

E prosseguiu falando sobre a nacionalização da TAP, que diz ter “prejudicado todos” mas ser ainda mais “sentida como injusto” na área circundante do aeroporto do Porto. “Pagamos do nosso bolso a nacionalização para não termos transporte”. “Com a IL, a TAP será mesmo privatizada” (decisão que a AD também assume).

“Estamos a falar de Pedro Nuno Santos, Paulo Raimundo e Mariana Mortágua. São os grandes responsáveis por essas decisões que limitaram o crescimento da região”, argumentou Rocha. “O único voto verdadeiramente reformista, que assegura que essas más decisões são finalmente revertidas, e que trilhamos o caminho do crescimento económico, é na IL”.

“Não pedimos o voto para fazer as mesmas coisas, deixar passar o tempo ou empurrar a barriga”, prossegue Rui Rocha em Braga. “Somos o único partido que pede o voto para mudarmos Portugal”. Para rematar, assegurou que muitos, em 2024, deixaram-se enganar pelo voto útil — mas agora, na rua, dizem-lhe que “desta vez é liberal”. Dia 18 se verá.