Desde que a distinção esquerda e direita ganhou força de moeda corrente no discurso político, isto é, com a IIIª República francesa, que foi sendo criticada como uma simplificação estúpida. Nunca foi pacificamente aceite e, no entanto, ainda hoje sobrevive nas bocas do mundo.

É verdade que ainda somos um produto de contextos históricos que favoreceram esse triunfo diante das admoestações que lhe foram dirigidas. Esquerda-direita foi uma referência hegemónica no pós-IIª Guerra Mundial. Nessa época, a bipolarização geopolítica, e a clivagem partidária no seio das democracias ocidentais muitas vezes dominada pelo conflito do comunismo e do anti-comunismo, pareciam ficar convenientemente reflectidas no dualismo geométrico da esquerda-direita. Foi uma evolução natural, portanto, que, com a queda do muro de Berlim e a consequente expulsão da proposta comunista para franjas insignificantes da sociedade, as vozes críticas da distinção subissem de tom.

O tempo histórico parecia exigir que se acabasse de vez com a divisão esquerda e direita. A relativa despolitização que esses tempos trouxeram às populações das democracias ocidentais reforçava a mesma exigência. Haveria em sua substituição uma espécie de consenso liberal. Mas, como esse consenso nunca se consumou verdadeiramente, embora os fundamentos do liberalismo passassem a ser aceites por (quase) todos, a esquerda-direita lá se intrometeu porque a aparência de consenso liberal não dispensava o reconhecimento de diferenças reais. Até os liberais tinham de ser, por fidelidade à realidade, classificados como liberais de esquerda ou liberais de direita.

Seja esta uma boa descrição dos anos 90, ou não, o facto é que, ainda que continuasse a ser chique nalguns círculos abominar a distinção esquerda-direita como um primitivismo ignorante, o seu uso universal continua o seu percurso sem fim à vista. Quando assim é, deve-se ceder o lugar à humildade intelectual e procurar as bases de tamanha resistência apesar das desconfianças de alguns bem-pensantes. Uma das bases da resistência da distinção esquerda-direita está na sua neutralidade proporcionada pela referência geométrica horizontal, ao passo que o que se tem proposto em sua substituição invariavelmente comunica preferências partidárias óbvias.

A esquerda nunca se inibiu de dizer que “é de esquerda” e sempre repreendeu os seus camaradas desviantes com o opróbrio de não serem “de esquerda”. A tal ponto foi assim que foi um homem de esquerda quem há quase 100 anos inventou a bon mot “quem põe em questão a separação entre esquerda e direita não é certamente um homem de esquerda”. Se Alain fazia a repreensão, um seu contemporâneo de quem hoje já ninguém se lembra, Léon Bourgeois, acrescentava uma outra divisa que era, como é costume dizer, todo um programa: “não há inimigos à esquerda”. Isto não visava negar a heterogeneidade evidente das esquerdas. Confirmava antes uma visão essencialmente conflituosa da política. No contexto desse conflito inexorável, desenhava a linha de trincheira que punha do lado de lá todas as direitas e do lado de cá todas as esquerdas. Para muitos à esquerda esse facto era mais importante do que tudo o resto, e devia nortear a acção política (das esquerdas). E foi assim que a exortação se estabeleceu desde o Bloc des Gauches, e ressoou por décadas até ao nosso tempo – no Cartel das Esquerdas (em França), na Frente Popular (em França e também em Espanha) até às indigentes justificações da recente Geringonça portuguesa.

Desde que temos reflexão sobre a política na civilização europeia que sempre houve duas visões em confronto da vida colectiva. Uma defendia que uma comunidade política atingia o seu ponto natural e desejável de repouso na harmonia e na concórdia. O conflito era uma espécie de doença que era preciso curar ou extirpar. A outra, pelo contrário, defendia que o conflito era essencial à política. Que a alternativa ao conflito era a paz dos cemitérios. Daí que o conflito político fosse visto como um sintoma, ou uma consequência, da liberdade. A tarefa primordial da política era, não anular o conflito rumo a uma mirífica harmonia do consenso, mas tornar seguro e não-violento esse conflito, ao mesmo tempo que se canalizava o ardor da competição para bons resultados da governação geral. Esquecemos com frequência que foi esta última concepção da política que fundou a democracia moderna e o regime de liberdades, institucionalizado num parlamento constituído por representantes partidários.

Não surpreende, portanto, que o refúgio no “centro” geométrico como lugar de virtude política entre dois extremos – à esquerda e à direita – viciosos, tão tentador para tantas consciências, pode ser um recurso retórico conveniente, mas é outra tentativa de escapar à essência conflituosa (não-violenta) da democracia moderna. Assim como é sedutora a divisa segundo a qual devemos emancipar-nos de “agendas ideológicas” e concentrarmo-nos na resolução dos “problemas das pessoas”. Sucede que esta também é uma tentativa desesperada de exibir virtude no meio dos degenerados que discutem divergências essenciais de valores, bens humanos, concepções de justiça e da sociedade boa. Porém, a deriva tecnocrática nunca passou de uma ilusão no governo dos povos. Sobretudo quando admitimos a possibilidade de que o período de despolitização dos anos 90 foi subitamente interrompido algures nos primeiros anos deste século XXI.

Fustigada pela experiência desagradável e cansativa da violência inerente mesmo nas divergências pacíficas em democracia; reprovada por quem se quer apresentar como uma vanguarda da história liberta de arcaísmos; ou repudiada por quem se recusa a aceitar que a democracia moderna se funda na aceitação do conflito e na divergência razoável relativamente a diferentes entendimentos de valores fundamentais como a liberdade, a igualdade e sobretudo a justiça – a mal-amada distinção entre esquerda e direita persevera sempre e ainda no nosso vocabulário político. Vamos precisar de uma imaginação que aparentemente as gerações dos vivos não têm, ou de transformações radicais na existência humana como só a revolução da inteligência artificial em toda a sua indeterminação futura pode trazer, para prescindirmos dela tão cedo.