A primeira audiência do julgamento de Sean “Diddy” Combs, já com o júri escolhido, está a ter lugar esta segunda-feira, no Tribunal de Nova Iorque. Emily A. Johnson, uma das procuradoras do caso, realizou as alegações iniciais do lado da acusação. “Durante este julgamento, vão ouvir falar de 20 anos de crimes cometidos pelo arguido. Mas ele não o fez sozinho. Tinha um círculo íntimo de guarda-costas e empregados de alto nível que o ajudaram a cometer crimes e o ajudaram a encobri-los”, afirmou, citada pelo New York Times.

A procuradora começou a detalhar os “freak-offs” no centro do caso, que também eram chamados de “noites do rei selvagem” ou “noites de hotel”. Segundo ela, as empresas de Combs pagavam frequentemente as despesas associadas a estes eventos. Johnson diz que duas mulheres – Casandra Ventura e outra mulher, referida pelo pseudónimo “Jane” – eram orientadas sobre o que vestir, que drogas tomar e depois sobre “todos os passos da atividade sexual” que deviam executar.

Johnson conta ainda que Combs esperava ainda que o seu círculo íntimo satisfizesse os seus desejos sexuais. “Por vezes, chamava a si próprio o rei e esperava ser tratado como tal”, afirmou. A procuradora não mostrou dúvidas de que os recursos da empresa foram utilizados para ajudar o rapper a explorar sexualmente várias mulheres, nomeadamente intimidando algumas delas a terem relações sexuais com prostitutos para que pudesse assistir e gravar os atos.

Teny Geragos, uma das advogadas do rapper, abriu as alegações da defesa a argumentar que este é um “caso sobre a vida sexual privada e pessoal de Sean Combs”. Começou por admitir que “Diddy” é violento, que consome drogas e que tem problemas de raiva. Apesar de tudo isto, defende que ele não é culpado dos crimes relativos à criação de uma rede de tráfico sexual que utilizava para servir os seus interesses pessoais.

Também foram assumidos, logo à partida, pela própria defesa, os crimes de violência doméstica cometidos pelo produtor musical contra Cassie Ventura, em 2016. Em maio do ano passado, imagens de videovigilância divulgadas pelos meios de comunicação norte-americanos mostravam o rapper a agredir a então namorada, com quem manteve uma relação romântica intermitente por mais de dez anos. “Assumimos total responsabilidade pelo facto de ter havido violência doméstica neste caso”, afirmou a advogada.

A equipa de defesa de Combs sublinha que muitas das relações que o cantor teve no passado foram de longa duração e que as mulheres no caso estavam envolvidas com ele de livre e espontânea vontade. “Essas mulheres eram fortes, capazes e estavam apaixonadas por ele”, garante Geragos.

Geragos acrescentou ainda: “As provas vão mostrar-nos um indivíduo muito imperfeito, mas não vão mostrar-nos um chantagista, um traficante sexual ou alguém que transporta para a prostituição.”

Segurança do hotel em que Combs agrediu Cassie Ventura é a primeira testemunha da acusação

Depois de uma pausa para almoço, a primeira testemunha da acusação foi ouvida no julgamento de P. Diddy. Israel Florez, que atualmente é agente da polícia de Los Angeles, era segurança no Hotel Inter Continental, em 2016, e estava na unidade hoteleira no dia em que Sean Combs foi visto, e gravado em vídeo, a agredir Casandra Ventura num corredor.

A acusação afirmou que Combs comprou as imagens de vigilância ao hotel por 100.000 dólares, mas estas acabaram por não desaparecer como ele pretendia. Acabaram por ser reveladas pela CNN em maio do ano passado.

O agente recordou depois o dia em que foi chamado por causa de uma “mulher em perigo no sexto andar” do hotel. Diz ter visto o músico sentado, embrulhado apenas numa toalha, imóvel, mas com “um olhar diabólico”.

Citado pelo New York Times, testemunhou que viu depois Casandra Ventura a um canto, a usar uma camisola de capuz, mas com um olho visivelmente “roxo”. O jornal norte-americano destaca que o pormenor da marca física de violência é uma novidade, tendo em conta o que se sabia até ao momento.

O agora polícia diz ter visto cacos de um vaso partido espalhados pelo chão e que Ventura lhe disse que queria a mala e que depois só se queria ir embora. Diz não ter chamado a polícia perante as evidências de violência doméstica porque a mulher não respondia às suas perguntas e insistia que só queria deixar o hotel para trás.

Florez disse ainda que Combs lhe ofereceu um maço de dinheiro, grande o suficiente para caber entre o seu polegar e o mindinho. Entendeu a oferta como um suborno para que mantivesse o silêncio.

A segunda testemunha apresentada pela acusação foi Daniel Phillip, que se apresentou como um homem que, em 2012, foi pago por Casandra Ventura para fazer sexo com ela na presença de Sean Combs.

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Homem pago para ter relações sexuais com Cassie na presença de Combs diz ter assistido a  agressões

Phillip disse ter sido convidado a entrar num quarto de hotel, no primeiro encontro, para manter relações sexuais com Cassie Ventura. A um canto, revelou, estava Combs sentado a masturbar-se. Nos dois anos seguintes os encontros repetiram-se, tanto em hóteis como em várias casas dos dois membros do casal.

O homem recordou as “instruções específicas” que recebia do rapper de como devia ter relações sexuais com a namorada. As notas incluíam a aplicação de óleo de bebé nos corpos e encenações que incluíam cenários de como os dois se tinham acabado de conhecer num aeroporto.

Daniel Phillip recordou em tribunal um incidente em que Ventura estava ao computador e Combs lhe gritou: “Babe, vem cá”. Ela não foi imediatamente e Phillip disse que Combs lhe atirou uma garrafa de licor.

Depois, Combs arrastou Ventura para outra divisão e Phillip disse ter ouvido o que parecia ser uma bofetada. Ele testemunhou que ouviu “Diddy” dizer: “Cabra, quando eu te disser para vires aqui, vens agora, não mais tarde”.

A testemunha foi depois contra interrogada pela defesa do músico, que tentou realçar os momentos em que Ventura participou e iniciou o sexo de livre vontade. “Parece que ela está a divertir-se, seria justo dizer isso?” perguntou o advogado. Phillip acabou por responder afirmativamente.

Ainda a meio do testemunho, o Tribunal de Nova Iorque suspendeu a sessão desta segunda-feira. Daniel Phillip voltará a depor amanhã de manhã.

Escolha do júri foi adiada para que membros escolhidos não desistissem durante o fim de semana

Foi escolhido na manhã desta segunda-feira o júri de 12 pessoas, composto por oito homens e quatro mulheres, que vai decidir a condenação, ou absolvição, de  Sean “Diddy” Combs. O rapper e produtor musical é acusado de agredir, drogar, violar, traficar, intimidar e subornar dezenas de pessoas no seio da indústria da música por anos a fio.

O painel de jurados foi escolhido de um total de quarenta e três potenciais elementos que foram convocados para marcar presença no Tribunal de Nova Iorque, esta segunda-feira. O grupo de pessoas, todas elas residentes em Manhattan, no Bronx e nos subúrbios a norte da cidade de Nova Iorque, deveriam ter sido selecionadas na sexta-feira passada, mas o juiz encarregue do caso receou que os jurados pudessem reconsiderar a sua participação durante o fim de semana e alegassem algum tipo de impedimento, explica a ABC News, a cobrir o julgamento na sala de audiências. Não foi, até agora, autorizada a captação de imagem ou vídeo das sessões do julgamento.

Para a primeira sessão de audiência com júri escolhido, “Diddy” chegou a tribunal vestido com uma camisa branca, calças caqui e sapatos sem atacadores. Cumprimentou os seus oito advogados e mandou um beijo à sua família, reunida na segunda fila da galeria dos espetadores, descreve o New York Times. Segundo o mesmo jornal, o músico não estava algemado, depois de os seus advogados terem contestado, em audiências anteriores, a utilização destes objetos de constrangimento do movimento, já que, segundo alegam, prejudica a imagem do acusado perante o júri.

Seis das mulheres que estão a acusar Combs estão sentadas na fila da frente da sala do tribunal, todas com casacos escuros.

“Governo afastou sete pessoas de raça negra, o que, na nossa opinião, constitui um padrão”, alega defesa de Combs

A defesa do rapper já acusou os procuradores federais de parcialidade, uma vez que a maior parte dos nove ataques perentórios da procuradoria norte-americana para determinar a formação do painel de jurados foram feitos contra pessoas negras.

“Segundo as nossas contas, o governo afastou sete pessoas de raça negra, o que, na nossa opinião, constitui um padrão”, afirmou o advogado de defesa Marc Agnifilo, que tem sido o porta-voz da equipa de defesa de Combs.

“O Governo tem-se comportado de forma completamente neutra durante a seleção do júri”, respondeu a procuradora Maureen Comey. “O próprio júri é composto por um grupo muito diversificado”, acrescentou.

Em seguida, Comey enumerou as razões “neutras” para o exercício de cada um dos ataques perentórios, destacando o caso de uma mulher que reconheceu 17 nomes na lista de pessoas que poderiam potencialmente surgir no julgamento e um homem que, segundo ela, deu “respostas sinuosas e sem sentido” e chegou a chamar “idiotas” a agentes da polícia.

“O governo apresentou razões neutras do ponto de vista racial”, confirmou depois o juiz Arun Subramanian.

Como recorda a ABC News, Combs argumentou no início deste ano que as acusações de tráfico sexual e violação que enfrenta deveriam ser rejeitadas porque, segundo ele, os procuradores federais demonstraram animosidade racial. O argumento foi tido como infundado pela procuradoria norte-americana.