O antigo Presidente do Uruguai José Mujica morreu, esta terça-feira, aos 89 anos. A informação foi confirmada pelo atual Presidente uruguaio, Yamandú Orsi, um dia depois da mulher de “Pepe” ter revelado que o ex-Chefe de Estado estava internado nos cuidados paliativos após suspender o tratamento contra um cancro no esófago, que se espalhou por todo o corpo. Na última entrevista que deu tinha anunciado o desejo de ser enterrado no seu quintal, junto de Manuela – cadela da família falecida em 2018.

Nascido em Montevideu, em 1935, numa família de ascendência italiana e basca, José Alberto Mujica Cordano inclinou-se inicialmente para a ala conservadora do Partido Nacional, mas cedo se separou para se juntar ao Movimento de Libertação Nacional (MLN), o grupo guerrilheiro Tupamaro de esquerda radical, na década de 1960. Durante a ditadura civil-militar uruguaia (1973-1985), participou com os Tupamaro em assaltos e sequestros. Ferido a tiro e preso quatro vezes, esteve 15 anos na prisão, embora tenha escapado em duas ocasiões da cadeia de Punta Carretas.

A chegada da democracia ao Uruguai em 1985 significou a sua libertação, após ter sofrido tortura e ameaça de execução, beneficiando de uma amnistia que o fez reentrar na política. Fê-lo dentro do partido no qual serviria para o resto da vida, a Frente Ampla, e em 1994 ganhou um lugar na Câmara dos Representantes. A sua popularidade cresceu e, uma década depois, em 2004, foi o senador mais votado na história do Uruguai. Após ter exercido o cargo de ministro da Agricultura e Pescas, a Frente Ampla designou-o como candidato presidencial nas eleições de 2009, que venceu à segunda volta e esteve em funções até 2015.

Mujica recebeu a presidência em 2005 do seu colega Tabaré Vázquez, mas rapidamente deixou claro que o seu estilo discursivo e político estava longe do padrão, mesmo num país em que parte da esquerda via o venezuelano Hugo Chávez e a sua “Revolução Bolivariana” como um modelo a seguir. Incluiu antigos guerrilheiros Tupamaro e sociais-democratas no seu gabinete e sua animosidade em relação ao consumismo e aos protocolos tradicionais foi particularmente discutida e tornou-se palpável na sua vida diária.

Foi muitas vezes apelidado de “Presidente do Povo” ou de “Presidente mais pobre do mundo”. Viveu numa pequena “chacra” (quinta) perto de Montevideu, sem luxos, com pouco dinheiro — aliás, doava 85% do ordenado que recebia para liderar o Uruguai. Nem a casa era propriedade sua, mas sim da mulher Lucía  também ela uma fervorosa ativista de esquerda. Humilde, terra a terra, informal, polémico e adorado pelas camadas populares, quando chegou ao poder, vendeu a residência presidencial de verão para financiar programas sociais.

Em 2014, rejeitou uma oferta multimilionária de um xeque árabe pelo seu antigo Volkswagen “Carocha” de 1987, alegando que iria ofender os amigos que lho deram, e em 2019 doou vários hectares da sua propriedade para construir habitações para ex-presidiários. “Somos todos iguais. Sou Presidente, não Deus ou um monarca”, disse “Pepe, quando lhe perguntaram porque vivia numa quinta rodeado de cães e galinhas e porque desprezava a pompa e circunstância presidencial. “Não é uma apologia da miséria. É uma apologia da simplicidade”, defendia.

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Na arena política, promulgou a lei de despenalização do aborto vetada pelo seu antecessor, promoveu a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e assinou uma reforma inovadora que autorizava a produção e a venda de canábis. Os seus críticos, no entanto, atacaram-no por não aproveitar os benefícios de um país em crescimento para consolidar melhorias nos serviços básicos, como a educação e a saúde, ou para empreender reformas significativas num estado que permanecia marcado pela desigualdade.

Também não foi um símbolo de consenso político para a esquerda regional, como ficou evidente quando, na reta final do seu mandato, assinou um polémico acordo com os Estados Unidos para acolher prisioneiros da Baía de Guantánamo, no âmbito da tentativa do então Presidente norte-americano, Barack Obama, de encerrar a prisão de suspeitos de terrorismo. Nos últimos anos, não poupou críticas ao rumo tomado por países como a Venezuela e o Governo de Nicolás Maduro que considerava autoritário.

A Constituição proíbe a reeleição imediata do presidente e do vice-presidente, mas Mujica não abandonou completamente a política quando devolveu a liderança a Tabaré Vázquez em 2015. Com grande popularidade dentro e fora do Uruguai, regressou ao poder legislativo como senador. Foi eleito para o Senado em duas eleições consecutivas, mas em 2020, aos 85 anos, demitiu-se prematuramente, motivado pela pandemia da covid-19 e pela sua saúde cada vez mais debilitada.

Em janeiro deste ano, anunciou que estava “a morrer”, que o seu estado de saúde estava a degradar-se e o seu corpo “não aguentava” os tratamentos. Numa última entrevista marcada pela emoção, Mujica fez questão de se despedir e “dar um abraço” aos seus “compatriotas”, mesmo os que “pensam diferente”. “Quero dizer adeus aos meus compatriotas. É fácil respeitar quem pensa como tu, mas é preciso aprender que a base da democracia é o respeito por quem pensa diferente”, considera — e acrescenta que “não há nada como a democracia […] Não é a sociedade perfeita, mas é a melhor possível”.

Dizendo que a sua vida foi “como um romance”, Mujica defendeu que a presidência foi “apenas mais um capítulo”, acrescentando que “nem tinha intenção de ser Presidente”.E pediu ainda aos políticos “mais veteranos” que respeitem a “necessidade de renovação” e “se afastem a tempo”. “Num momento, temos que abrir a porta para outras gerações e não atrapalhar”.

No plano pessoal, agradeceu mulher. “Lucía é um ser superior e ainda estou vivo graças a ela”, afirmou o homem, esta terça-feira apelidade pelo Brasil como “um dos mais importantes humanistas” dos tempos atuais.

“Até sempre, Pepe”. Partido de Lula despede-se de Mujica. Rui Tavares destaca “exemplo mundial de humanismo”

O Partido dos Trabalhadores, de Lula da Silva, recebeu “com profunda tristeza” a notícia do falecimento de José “Pepe” Mujica. “Líder humilde, coerente e incansável na luta por justiça social, Mujica foi um exemplo de integridade e compromisso com os valores da esquerda latino-americana. A sua história permanecerá viva na memória dos povos que sonham com um mundo mais justo, solidário e igualitário”, destaca o PT através do X.

Claudia Sheinbaum Pardo, atual Presidente do México, utilizou a mesma rede social para apresentar as condolências pela morte do histórico político. “Lamentamos profundamente a morte do nosso querido Pepe Mujica, um exemplo para a América Latina e para todo o mundo pela sabedoria, reflexão e simplicidade que o caracterizavam. Expressamos a nossa tristeza e as nossas condolências à sua família, aos seus amigos e ao povo do Uruguai”, escreveu a Presidente mexicana.

Guterres recorda um Mujica que governou com humildade “em vez do privilégio”

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lamentou a morte de Mujica, de quem destacou a forma de governar “com humildade, escolhendo a simplicidade em vez do privilégio”.

“Será recordado não só pelo seu compromisso inabalável com a justiça social, a igualdade e a solidariedade, mas também pela forma profundamente humana como encarnou esses valores”, afirmou Guterres através de um comunicado.

Pepe Mujica “governou com humildade, preferindo a simplicidade ao privilégio, e recordou-nos – pelas suas palavras e pelo seu exemplo – que o poder deve ser exercido com responsabilidade e compaixão”, acrescentou.

Guterres referiu ainda que, enquanto líder latino-americano, “defendeu o diálogo e o multilateralismo, encarnando os valores que estão no cerne da Carta das Nações Unidas e trazendo a sua autoridade moral para a causa da paz e dos direitos humanos”.

Rui Tavares, porta-voz do Livre, manifestou no X, em espanhol e português, o “profundo pesar pela perda deste exemplo mundial de humanismo, simplicidade e dedicação ao bem comum”. Apresenta-se como “admirador de Pepe Mujica e presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Uruguai” e pede que a memória do antigo Presidente do Uruguai “nos inspire sempre”.

“Adeus, meu amigo”, escreveu Gustavo Petro, Presidente da Colômbia, na rede social X. “Pepe Mujica, o grande revolucionário, o presidente do Uruguai, morreu. Espero que um dia a América Latina tenha um hino, espero que um dia a América do Sul se chame: Amazonia”, apelou ainda.