O cenário é espelhado e ocupado por corpos diversos, que reverberam numa época marcada por um intenso debate sobre identidade e género. Odile e Odette, figuras centrais da narrativa, representam um amor que não é aceite socialmente, mas que é sinónimo de uma transformação imparável. As palavras que trocam, quase em segredo, são de questionamento – mas também de uma vontade de revolucionar as normas existentes. Estamos em O Lago dos Cisnes, a peça de Daniel Gorjão, com texto do poeta André Tecedeiro, que reinterpreta livremente o bailado dramático com música de Tchaikovsky e coreografia de Julius Reisinger, estreado em 1877. Na distância que separa as duas criações está ainda a narrativa de um amor controverso, mas os conceitos pelos quais se definiu a peça original dão agora lugar a uma história de metamorfose e libertação dos corpos.
Num tempo marcado pela releitura de clássicos, a peça, que se estreia no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de 28 a 30 de maio, assume um olhar crítico sobre os ideais de perfeição dos corpos e propõe-se a desconstruir os mitos associados ao universo do ballet. Numa linguagem híbrida, apurada pelo teatro, a narrativa centra-se em temas como a fluidez, o género, a família, bem como o amor e o desejo. Mais do que o conto original, importa analisar o simbolismo da história que, ao longo dos anos, conheceu várias interpretações, variando entre finais mais ou menos trágicos. Como sustenta o encenador: “Tive vontade de trazer uma história da dança para dentro do universo teatral e dar-lhe palavras que espelhassem a diversidade de corpos que existe. Há um lado de subversão, que é intencional; a ideia não é contar a história original, mas sim uma história de 2025 e pôr-nos em diálogo com estes temas.”
Fotos: João Costa
Ao fazer o inverso da linha de criação de bailados inspirados em peças de teatro, como é o caso de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, ou Peer Gynt, de Henrik Ibsen, a peça de Daniel Gorjão assenta num dispositivo teatral, amparado em diálogos, no qual os movimentos lentos e delicados sugerem uma suspensão temporal do universo ficcional que se apresenta diante dos nossos olhos. A peça — que já estava no radar do encenador há cerca de dez anos — começou por um processo de audição que lhe permitiu quebrar o padrão do corpo usado no ballet clássico e ressignificar a importância que a obra adquiriu como ícone do romantismo. “Interessava-me procurar outros tipos de beleza, que não uma beleza padronizada, e todos estes corpos fogem a esse cânone. É também uma forma de afirmação dessa beleza que está em toda a parte, e não apenas naquilo que foi convencionado.”
O lago dos corpos políticos
Com interpretação de Batata, Duarte Melo, Inês Cóias, Rita Carolina Silva e Zé Couteiro, e música composta por Máximo, o espetáculo aproxima-se igualmente de outras referências artísticas desse universo da mutação, nomeadamente através do mito de Orfeu e Eurídice. O lago é simultaneamente o lugar da transformação, mas também de transposição para um universo onde o amor se desprende das amarras e dos preconceitos. Seguindo essa linha de pensamento, ancorada no conceito de devir (uma transformação de fluxo contínuo), André Tecedeiro, responsável pelo texto, explica que não lhe interessava tanto a conceção de bem e mal presente no conto original — na forma do cisne branco e do cisne negro, respetivamente — mas, sobretudo, a ideia dessa transformação que, mais do que nunca, tem ecos no momento atual.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
“Senti que era interessante pegar nessa ideia de metamorfose no sentido do género, mas também das ideias, porque as mudanças estão sempre a acontecer, mesmo que nem todas as pessoas consigam lidar com elas”, sublinha. A troca de género às diversas personagens, bem como o papel que as mesmas assumem na narrativa, são exemplos dessa desconstrução necessária para um diálogo transgeracional sobre inclusividade e representatividade. “As pessoas ainda se espantam com alguns casos verdadeiros de mães e pais de pessoas trans ou queer que maltratam e rejeitam os filhos, mas vemos isso a toda a hora. Escrevi este texto, nesse sentido, também como uma crítica, e que, se calhar, vai fazer com que certas pessoas não gostem do espetáculo que vão ver — mas é o retrato do mundo em que vivemos.”
Fotos: João Costa
Chegados ao século XXI, os corpos são políticos e o contexto atual explica a necessidade de relembrar que tem de existir espaço para todo o tipo de identidades, acrescenta o encenador. “Todas as pessoas cabem neste lago e todas as pessoas são válidas. Neste momento, é preciso repetir que toda a gente tem direitos e toda a gente pode conquistar o seu espaço.” O lago é, por isso mesmo, um espelho onde se revelam os contornos da diferença, da aceitação e da liberdade. Nesse espaço suspenso entre o real e o simbólico, o que antes era considerado desvio torna-se caminho. Tal como sugere uma das personagens, é preciso mergulhar para se entrar num processo de descoberta — e talvez seja nesse mergulho que cada um de nós reencontre a sua própria dança.
Depois da estreia em Lisboa, O Lago dos Cisnes será apresentado no Centro de Arte de Ovar, a 6 de junho, no Ponto C, em Penafiel, a 21 de junho, e no Cineteatro Louletano, em Loulé, a 5 de outubro.