Dois em cada três professores recorreram à ajuda da inteligência artificial neste ano letivo com o objetivo de ter alguma ajuda na preparação das aulas. Além disto, a classe docente — que diz sentir-se desvalorizada pela sociedade — aponta como uma das principais dificuldades da sua profissão as faltas “sucessivas” dadas pelos alunos. Estas são algumas das conclusões da versão preliminar do inquérito “A Voz dos Professores”, desenvolvido pela Fundação Semapa – Pedro Queiroz Pereira em parceria com o Centro de Economia da Educação da Nova SBE e a Universidade do Minho, e apresentadas esta sexta-feira.
“Estamos muito satisfeitos porque os professores disseram que dois em cada três usaram inteligência artificial e isto mostra que, apesar de todas as limitações, os professores têm vontade de integrar as tecnologias no sistema de ensino“, diz ao Observador o co-autor do estudo Miguel Herdade. E acrescenta que este resultado “desmistifica a ideia de que os professores são uma classe envelhecida e pouco avançada. A realidade é o oposto: os professores fazem milagres com os pouco recursos que têm.”
Foram questionados cerca de 2.000 professores de norte a sul do país, espalhados por mais de 300 escolas públicas e privadas, e foi-lhes perguntado “se este ano tinham usado ferramentas destas, como o ChatGPT ou o Copilot”. “A maior fatia [de inquiridos] dizia que usava IA para preparar as aulas e a seguir para preparar relatórios e trabalhos de casa“, diz.
Um dos motivos pelo qual este estudo foi realizado, explica o investigador Miguel Herdade, é porque “o professor é um meio para melhorar os resultados dos alunos”, uma vez que acaba por ter um impacto na futura “vida adulta” dos atuais estudantes, já que “influencia as notas e entrada no Ensino Superior” e pode abrir portas a um trabalho mais bem remunerado. Assim, esta fundação recém-criada que diz querer “ser parte da solução e não do problema”, começou por perguntar aos professores o que é que eles próprios “pensam” sobre o ensino.
De acordo com uma das conclusões preliminares, metade dos professores inquiridos consideram que uma das principais dificuldades que têm de ultrapassar tem que ver com o facto de “os alunos faltarem sucessivamente às aulas”. Além disto, “um em cada três professores diz que sabe que há violência entre alunos”, confirmando a tendência de aumento destes comportamentos que se tem registado. “É interessante fazer esta pergunta aos professores, porque mostra o quão difícil é o seu trabalho, em que lidam com a falta dos alunos e a violência”, sendo cada vez mais necessário complementar as suas atividades com as de outros profissionais, como psicólogos, sublinha Miguel Herdade.
No que toca a reconhecimento laboral, os professores consideram que o seu trabalho só é reconhecido por aqueles que lhes são mais próximos: alunos e colegas. “E sentem-se menos conhecidos pelos Encarregados de Educação e pela sociedade em geral. Seis em cada 10 diz que é a sociedade quem menos os valoriza”, diz Miguel Herdade.
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Confirmando, uma vez mais, a tendência que se tem vindo a registar, os professores dizem que, quando não estão a lecionar, as tarefas em que perdem mais tempo são “a preparação das aulas e a correção de exames”. E logo atrás surge o trabalho administrativo, como justificação de faltas e emails e relatórios individuais sobre os alunos. De acordo com o estudo preliminar, os professores passam cerca de quatro horas semanais a fazer este tipo de trabalho. Os docentes dizem também que sentem uma maior necessidade de formação na sua própria área científica e também na área tecnológica.
No estudo realizado houve também interesse em “perceber como é feita a integração dos novos professores”, já que “durante esta década cerca de 40% dos professores se vão reformar e é importante que o conhecimento dos mais velhos seja passado para os mais novos”, aponta Miguel Herdade. Este estudo mostra que “apenas dois em cada 10 professores conhece o programa de integração na sua escola. Os restantes professores dizem que não existe [programa de integração] ou que não sabem se existe”.
Questionado se seria possível estabelecer comparações entre as respostas dadas por professores do ensino público e privado e diferenças entre regiões, Miguel Herdade detalha que isto só será possível em setembro, uma vez que será nessa altura apresentado o resultado final do estudo.