Há cinco anos, quando se candidatou pela primeira vez à presidência do Benfica, João Noronha Lopes concentrou o quartel-general na zona de Belém: apresentou a candidatura no Centro Cultural de Belém, em julho, e inaugurou a sede de campanha na Ajuda, em setembro, em locais muito próximos da Rua de Belém onde ficava a Farmácia Franco que serviu de berço ao Sport Lisboa e Benfica. Cinco anos depois, João Noronha Lopes virou o azimute para uma referência mais literal.

Na atual Junta de Freguesia de Benfica, onde ficava o Campo de Sete Rios na Quinta de Marrocos que serviu de casa ao Benfica durante alguns anos no início do século XX, numa insuspeita quinta-feira entre o final da temporada nacional e o início do Mundial de Clubes, o gestor de 58 anos apresentou uma candidatura que só ficou formalizada há poucas semanas e que há muito alimentava a esperança dos opositores a Rui Costa. Apesar de ter garantido em 2020 que dificilmente voltaria a candidatar-se à presidência dos encarnados, João Noronha Lopes mudou de ideias e decidiu assumir a principal via alternativa ao incumbente — que ainda não anunciou se vai ou não procurar a reeleição em outubro.

Em 2020, João Noronha Lopes foi o grande adversário de Luís Filipe Vieira na eleição mais disputada que o antigo presidente do Benfica teve de enfrentar durante as quase duas décadas que passou na liderança encarnada. Na altura, o ex-CEO da McDonald’s em Portugal reuniu 34,71% de votação, mais de 250 mil votos — e Vieira acabou por ser demitir menos de um ano depois, abrindo a porta à gestão interina de Rui Costa que culminou na eleição do atual presidente em outubro de 2021, num sufrágio em que Noronha Lopes não participou e onde Francisco Benítez foi a voz da oposição.

Ora, bem ao centro da Avenida Gomes Pereira, João Noronha Lopes repetia o que já tinha acontecido em 2020 e reunia o apoio e a presença de várias figuras sonantes do universo do Benfica: Nuno Gomes, Bagão Félix, Ricardo Araújo Pereira, Pedro Ribeiro, Vítor Paneira, Pedro Adão e Silva, Álvaro Magalhães, Manuel Fúria e Raquel Vaz-Pinto estavam na Junta de Freguesia de Benfica, num momento que assinalava um dia em que o candidato já tinha marcado a agenda com entrevistas longas e profundas aos jornais A Bola e Record e tinha outra preparada para a noite na CNN Portugal.

O Complexo Desportivo António Livramento encheu para a apresentação da candidatura de João Noronha Lopes, com o lema “Benfica acima de tudo” a nortear toda a decoração do espaço. Entre as bancadas e as cadeiras espalhadas pelo ringue, faltaram lugares para os mais de 2.500 sócios, adeptos e simpatizantes encarnados que apoiam o antigo vice-presidente: que saiu do recinto, antes do discurso, para agradecer a todos os que não conseguiram entrar por questões de segurança.

João Noronha Lopes vai candidatar-se à presidência do Benfica

A apresentação da candidatura começou mais de 40 minutos depois da hora marcada, muito porque a tomada de posse do novo Governo decorria quase em simultâneo no Palácio da Ajuda, e arrancou com o hino do Benfica entoado em uníssono. “Hoje começa a mudança”, ouviu-se, ainda pela voz do speaker, antes de Nuno Gomes, Ricardo Araújo Pereira, Vítor Paneira, Manuel Cardoso, Pedro Ribeiro e Raquel Vaz-Pinto subirem ao palco para contar algumas histórias pessoais relacionadas com o clube.

Já perto das 20h, surgiu em palco Manuel Vilarinho — de quem João Noronha Lopes foi vice-presidente e cujo respaldo tinha sido confirmado durante o dia por Vasco Mendonça, diretor de campanha, em entrevista à Rádio Renascença. “Sempre houve e haverá momentos como este, momentos únicos que reclamam coragem para avançar em rotura com o passado. Chegou o momento de repor o Benfica no caminho do seu futuro. 25 anos depois, mal me ficaria não estar aqui ao lado do meu amigo João. Posso garantir-vos que reúne todos os requisitos para ser o presidente de que o Benfica precisa neste momento da sua história. É um de nós, um benfiquista desde o berço”, sublinhou, recordando a altura em que foi desafiado para se candidatar contra João Vale e Azevedo, em 2000.

De seguida, o momento que todos esperavam. Apresentado como “o próximo presidente do Sport Lisboa e Benfica”, João Noronha Lopes dirigiu-se à multidão com um “boa tarde, Benfica”, de Águia de Ouro na lapela e com um primeiro agradecimento a Manuel Vilarinho. “Há 25 anos, quando o nosso clube estava ameaçado, estive entre aqueles que te desafiaram. Integrar a tua direção foi uma das honras da minha vida. Aprendi que, nos momentos difíceis, o Benfica pode contar contigo”, começou por dizer.

“Hoje começamos uma caminhada nova. Neste edifício que foi durante décadas a sede do Glorioso, um lugar inspirador para um futuro que todos ambicionamos. Começamos hoje uma caminhada que não é o prolongar da campanha de 2020 e muito menos um acerto de contas com alguém. Sou um benfiquista livre, não sou empurrado por ninguém, não aguardo que outros decidam para decidir. Sou senhor do meu destino”, continuou.

“Apresento-me a eleições com uma enorme alegria e a vontade inabalável de ajudar a construir, com a minha própria alma, a catedral rubra da alma do Benfica. Sim, sou o sócio 5.001 e sou candidato à presidência do Sport Lisboa e Benfica. Quero ser o vosso 25.º presidente”, acrescentou João Noronha Lopes, antes de abordar o momento atual dos encarnados.

“As circunstâncias do Benfica de Rui Costa em 2025 não são as do Benfica de Luís Filipe Vieira em 2020. Mas, tal como o Benfica de Vieira já não servia ao Benfica que desejávamos, este Benfica de Rui Costa também não serve ao Benfica que desejamos. Nós, os adeptos, estivemos juntos em Arouca, nas Aves, em Faro, no Estoril. Abraçámos o autocarro quando chegou e embalámos os jogadores até ao fim. Não foi por falta de apoio dos adeptos que o Benfica não ganhou. Seria bom que Rui Costa reconhecesse isso. Os sócios deram as condições ideais para fazer o melhor possível e essa oportunidade foi desperdiçada”, sublinhou.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

Ao longo do longo discurso, como seria de esperar, João Noronha Lopes não poupou as críticas à atual direção liderada por Rui Costa. “Infelizmente, o melhor possível deste mandato foi muito pouco. Digo-o com pena, mas não gostamos de quando se instala uma cultura de derrota e, perante adversários enfraquecidos, apresentamos os piores resultados desportivos da nossa história. Não podemos aceitar uma gestão desportiva errática e desastrosa. Ganhamos menos do que os nossos rivais gastando mais e pior. Perdemos identidade e referências. Somos bons a formar, rápidos a vender e maus a contratar”, defendeu.

“Não nos conformamos com ver os nossos rapazes apenas a festejar títulos com a camisola de outros clubes. Vivemos acima das nossas possibilidades. A única estratégia da direção é tentar esconder a ausência de estratégia. Não podemos tolerar que, com o apoio inaceitável da direção do Benfica, se tenha instalado um regime no futebol português em que o Benfica é o alvo a abater. Não podemos compreender que, em vez de centralizar no Benfica a liderança do futebol português, a direção do Benfica prefira uma centralização dos direitos televisivos potencialmente lesiva dos nossos interesses”, atirou, claramente numa crítica do apoio dos encarnados à candidatura de Pedro Proença à presidência da Federação Portuguesa de Futebol.

Mais à frente, tal como João Diogo Manteigas tem feito nos últimos meses, João Noronha Lopes defendeu que as eleições agendadas para outubro sejam antecipadas. “Falhámos desportivamente, financeiramente, institucionalmente. Os últimos quatro anos adiaram o Benfica. Tenho esperança de ver em Rui Costa, antes de que termine o mandato, um movimento de grandeza como aqueles que demonstrava em campo, convocando eleições antecipadas. A hora da mudança está a chegar e passa por aqui. Não sou nem nunca serei um candidato de protesto, sou um candidato de futuro. Se tivermos de disputar eleições amanhã, estou preparado para vencer e começar a liderar o Benfica no dia seguinte”, garantiu.

“Chegámos ao fim de um ciclo, de um modelo de liderança. O que prometo? Ambição, credibilidade e transparência”, diz Noronha Lopes

“Tenho as ideias e a equipa, mas principalmente tenho muita vontade. Tenho muita vontade de ser presidente do Benfica. Precisamos de uma liderança mais preocupada em defender o Benfica do que preocupada em defender-se a si própria. O dinheiro que gerimos não é nosso, é vosso. A melhor formação do mundo foi feita para vencer e não para vender. Não podemos ter equipas para competir, temos de ter equipas para vencer. O Benfica é a maior instituição deste país e não pode ser gerida com amadorismos ou amiguismos. Precisa de uma liderança experiente, que defina um rumo. O presidente do Sport Lisboa e Benfica tem de ser uma voz ativa e respeita, não recebe lições de ninguém. Se para defender os interesses do Benfica for preciso ir contra a corrente, eu vou”, terminou, abrindo a porta à possibilidade de negociar e conversar com “potenciais parceiros e investidores da SAD”.

Para além de João Noronha Lopes, também os advogados João Diogo Manteigas e Cristóvão Carvalho já anunciaram oficialmente a candidatura à presidência do Benfica. Nas últimas semanas, o nome de Martim Mayer, empresário que é neto do ex-presidente Duarte Borges Coutinho, também foi veiculado como possível futuro candidato, enquanto que Marco Galinha permanece um hipotético candidato.