Alguns pintavam o cenário como os últimos quatro dias de Roberto Martínez na Seleção, outros apontavam para uma derradeira oportunidade para o espanhol mostrar que poderia ainda continuar o ciclo até à fase final do Mundial, outros ainda consideravam que tudo não passava de um ruído desnecessário em torno da equipa portuguesa (entre os quais se incluía o próprio selecionador). No entanto, e no final desse quarto dia, aquilo que estava em causa era a possibilidade de Portugal conquistar o seu terceiro grande título principal, depois do Europeu de 2016 e da Liga das Nações de 2019. E isso, mesmo que apenas por duas horas, deveria ser o foco num contexto onde todos percebiam o que estava a ser pensado fora das quatro linhas.

Portugal-Espanha. Golo anulado a Bruno Fernandes por fora de jogo (1-2, 49′)

“Se é justo ser avaliado pelos resultados? Faz sentido, estamos no futebol para ganhar. Nas seleções ainda há o ranking mas… Há os golos, os número de pontos e os detalhes como a gestão do grupo. Há muitos aspetos para avaliar um treinador mas tenho orgulho por ser o terceiro a preparar uma final em Portugal e espero que os nossos adeptos fiquem felizes depois deste jogo”, resumia Martínez, que nos últimos tempos foi adotando uma postura bem mais analítica e com “recados” que ficavam nas entrelinhas. “Estou a encarar tudo com naturalidade. Há um aspeto sentimental, sou espanhol, mas isso é para uma futura conversa com os netos. O foco é ganhar a final. Adorei a atitude durante estes treinos. Precisávamos de encarar olhos nos olhos equipas como a Alemanha e conseguimos, depois de 25 anos ganhámos. Agora se usarmos a mesma personalidade, a mesma resiliência, entrega e esforço estaremos preparados para ganhar a final”, frisara.

A ameaça de saída era uma não questão, até pelo reforço de confiança que Ronaldo tinha deixado minutos antes na mesma conferência de imprensa, a ameaça da Espanha já era algo mais sério. “A Espanha é a melhor seleção do Mundo em certos aspetos. Equipa perfeita não existe, o que temos é uma equipa que é campeã da Europa, ganhou a Liga das Nações, com um selecionador que criou um ambiente de clube. Não vejo aspetos negativos, vejo que no futebol todas as equipas têm pontos fortes e fracos”, dizia. Era à luz dessa ideia que entroncava a curiosidade na equipa inicial que Martínez iria apresentar. Contas feitas, duas mudanças, com o regresso natural de Vitinha ao lugar de 6 e com a troca entre Francisco Trincão e Francisco Conceição na ala direita do ataque. Ou seja, Bernardo Silva continua no meio e João Neves como lateral.

“Jogar com o João ali sempre foi uma questão tática. Acreditamos em todos os jogadores, estamos há dois anos a trabalhar conceitos. Podemos escolher jogadores para começar o encontro e jogadores para terminá-lo. Vitinha e Chico? Estamos a trabalhar há muitos estágios e jogos os conceitos que temos. Isso é o que hoje precisamos de fazer, ter controlo de bola, do jogo, chegar à frente da baliza com muitas opções mas também defender bem os ataques rápidos e os contra-ataques. Os jogadores trabalharam muito bem durante os treinos. Como já disse muitas vezes, o onze inicial é importante, mas os jogadores que ficam no banco também são essenciais, preparados para fazer a diferença como contra a Alemanha”, explicou antes do jogo.

Houve momentos melhores ou piores, houve fases por cima e por baixo, no final caiu para Portugal porque Diogo Costa travou a grande penalidade de Álvaro Morata e Rúben Neves imitou Gonçalo Ramos, Vitinha, Bruno Fernandes e Nuno Mendes e rematou sem hipóteses para o 5-3. Nuno Mendes fez um jogo gigante a colocar Lamine Yamal no “bolso”, Rúben Dias teve um espírito de liderança fundamental para segurar a Seleção quando mais precisava, Bruno Fernandes voltou a oferecer-se ao jogo como se não conhecesse essa palavra chamada cansaço. No entanto, e apesar de tudo, aquilo que mais ficou na retina foi a capacidade que Portugal teve em nunca ir abaixo, reagir à adversidade e estar sempre no jogo. Aí, Roberto Martínez teve o seu mérito. Este pode ter sido ou não o seu último encontro mas esta Seleção recuperou a “estrelinha”.

Ficha de jogo

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Portugal-Espanha, 2-2 (5-3, g.p.)

Final da Liga das Nações

Allianz Arena, em Munique

Árbitro: Sandro Schärer (Suíça)

Portugal: Diogo Costa; João Neves (Nelson Semedo, 46′), Rúben Dias, Gonçalo Inácio (Renato Veiga, 74′), Nuno Mendes; Vitinha, Bernardo Silva (Rafael Leão, 74′), Bruno Fernandes; Francisco Conceição (Rúben Neves, 46′), Pedro Neto (Diogo Jota, 106′) e Ronaldo (Gonçalo Ramos, 88′)

Suplentes não utilizados: José Sá, Rui Silva, António Silva, Diogo Dalot, João Palhinha, João Félix, Francisco Trincão, Pedro Gonçalves e Rodrigo Mora

Treinador: Roberto Martínez

Espanha: Unai Simón; Mingueza (Porro, 92′), Le Normand, Huijsen, Cucurella; Zubimendi, Fabián Ruiz (Mikel Merino, 75′), Pedri (Isco, 75′); Lamine Yamal (Yeremy Pino, 106′), Nico Williams (Álex Baena, 92′) e Oyarzabal (Morata, 111′)

Suplentes não utilizados: David Raya, Álex Remiro, Pau Cubarsí, Vivian, Gavi, Dani Olmo, Grimaldo, Fermín López e Samu

Treinador: Luis de la Fuente

Golos: Zubimendi (21′), Nuno Mendes (26′), Oyarzabal (45′) e Ronaldo (61′)

Penáltis: 1-0 por Gonçalo Ramos; 1-1 por Mikel Merino; 2-1 por Vitinha; 2-2 por Álex Baena; 3-2 por Bruno Fernandes; 3-3 por Isco; 4-3 por Nuno Mendes; Álvaro Morata falhou; 5-3 por Rúben Neves

Ação disciplinar: cartão amarelo a Gonçalo Inácio (19′), Fábian Ruíz (33′), Pedro Neto (82′), Le Normand (90+1′), Nuno Mendes (100′), Álex Baena (100′) e Porro (110′)

Portugal aproveitou a onda nacional que enchia a Allianz Arena para ter um início interessante de jogo, com a “ajuda” nas bancadas dos adeptos germânicos que não esqueceram a grande penalidade não assinalada de Cucurella frente à Alemanha nos quartos do Euro-2024 para brindarem o lateral com constantes assobios a seguir a uma entrada a “marcar” sobre Francisco Conceição. João Neves, na sequência de uma bola parada trabalhada com chamada ao segundo poste, ainda teve um primeiro remate enrolado ao lado (5′) mas seria um sol de pouca dura perante o paulatino crescimento da Espanha no encontro a controlar ritmos, a ter mais posse e circulação e a conseguir chamar a linha defensiva nacional para depois começar a encontrar espaços do meio-campo para a frente para ativar as subidas dos médios ou as jogadas 1×1 dos dois extremos.

Pedri, numa jogada com muitas parecenças com aquela que deu o 4-0 frente à França, combinou bem com Nico Williams num lance rubricado pela esquerda do ataque e teve uma primeira ameaça ao lado (15′). Pouco depois, o próprio Nico Williams arriscou o lance individual tendo apenas João Neves pela frente, ganhou a bola numa diagonal para dentro de forma clara e rematou em arco a rasar a trave da baliza de Diogo Costa (17′). À terceira, foi de vez: Zubimendi conseguiu lançar uma transição rápida pelo trabalho de Oyarzabal como falso 9 a puxar os centrais consigo, Lamine Yamal fez um cruzamento em arco para o corte possível de Rúben Dias de calcanhar, João Neves desviou depois a bola de Oyarzabal na área mas Zubimendi apareceu sozinho para fazer o 1-0 (21′). De uma forma natural, a Espanha estava na frente do encontro.

Portugal, que além de não ter a posse necessária para colocar mais Vitinha no jogo também não fazia ligações necessárias ao ataque para ganhar metros, encontrava-se na situação mais perigosa para estar frente a esta Roja mas bastou um lance com mais paciência e a circular melhor a bola no último terço para tudo voltar à estaca inicial: Ronaldo recebeu na profundidade, combinou bem com Pedro Neto e deram margem para a subida de Nuno Mendes, que recebeu de forma orientada e rematou cruzado na área descaído sobre o lado esquerdo para o empate (26′). Era o primeiro golo do lateral na Seleção, com essa particularidade de marcar na partida onde todos estavam atentos à parte defensiva por ter pela frente um tal de Lamine Yamal.

Só a partir daí a partida acalmou. Nico Williams ainda apareceu num lance meio confuso na área em que desviou a bola de Diogo Costa mas o ritmo estava mais morno, com a Espanha a perceber o que falhara no lance do empate para a partir daí projetar-se em busca de mais golos e com Portugal a tentar gerir a partida como não conseguira depois do bom início para a seguir procurar algo mais. O 1-1 parecia destinado a ficar até ao intervalo mas um lance com alguma polémica à mistura acabou por colocar a Roja na frente próximo do descanso: Bernardo Silva caiu numa disputa de bola com Le Normand, a bola entrou em Pedri para lançar a transição pelo corredor central e Oyarzabal fez a diagonal nas costas de Gonçalo Inácio para receber mais descaído sobre a direita na área e rematar cruzado para o 2-1 (45′). Muitos protestos, zero resultados.

Roberto Martínez não demorou a mexer, optando mais uma vez por substituir dentro da ideia que tinha para o encontro e não por modas ou tendências. Assim, abdicou de João Neves e Francisco Conceição, lançou para a direita de defesa Nelson Semedo, colocou Rúben Neves no meio-campo a ajudar Vitinha e soltou Bernardo Silva como falso ala pela direita. Portugal começou com mais controlo em posse, conseguiu marcar num lance invalidado a Bruno Fernandes por fora de jogo no início da jogada de Bernardo Silva (48′), apenas permitiu perigo num remate de meia distância de Fabián Ruíz travado por Diogo Costa (55′) mas não criava situações no último terço, com 15 minutos iniciais a esgotarem-se sem grandes motivos de interesse até que Nuno Mendes aproveitou o espaço que Pedro Neto ganhou ao trazer consigo Mingueza, ganhou em velocidade e cruzou para um desvio oportuno de Ronaldo nas costas de Cucurella para o empate (61′).

Era altura de voltar a mexer, depois de dez minutos de expetativa das duas equipas na sequência de um 2-2 que a Espanha não esperava. Martínez fez a troca direta entre Gonçalo Inácio e Renato Veiga e lançou Rafael Leão para o lugar de Bernardo Silva passando Pedro Neto para a direita, De la Fuente mexeu no meio-campo com as saídas de Pedri e Fabián Ruíz para as entradas de Mikel Merino e o regressado Isco. Foi o médio do Betis que teve nos pés a oportunidade de desbloquear a igualdade, arriscando a meia distância para uma grande defesa de Diogo Costa para canto (83′) antes de Ronaldo cair no chão e levantar a bandeira branca da rendição perante o desgaste físico, o que levou a entrada em campo de Gonçalo Ramos. O risco era cada vez menor, as hipóteses de prolongamento iam aumentando e houve mesmo mais 30 minutos extra.

O prolongamento começava com Pedro Porro e Álex Baena em campo mas com muitas substituições ainda por fazer caso fosse possível, tendo em conta o desgaste acumulado que retirou qualidade e imprevisibilidade às duas equipas. Cucurella, numa segunda bola após corte de Renato Veiga, teve um remate por cima da baliza (97′) mas seria Portugal a terminar por cima a primeira parte do prolongamento, com Nuno Mendes a ter mais uma grande arrancada fantástica sem remate quando chegou à área e Rafael Leão a começar a abrir novamente o livro depois de um lance de génio nos descontos do tempo regulamentar. Após o intervalo, foi a Espanha que assumiu mais o encontro sem que Portugal conseguisse ter tanta capacidade de saída, apesar de a melhor oportunidade ter pertencido a Diogo Jota nos descontos com um desvio de cabeça por cima, mas a decisão iria mesmo cair para o desempate por grandes penalidades, com triunfo para Portugal (5-3).