Sly Stone, cantor, compositor e músico líder dos Sly and the Family Stone, morreu aos 82 anos. A confirmação da sua morte, segundo a Pitchfork e a Rolling Stone, foi dada pela própria família, numa declaração enviada à imprensa.
“É com profunda tristeza que anunciamos o falecimento do nosso querido pai, Sly Stone, dos Sly and the Family Stone. Sly faleceu em paz, rodeado pelos seus três filhos, pelo seu amigo mais próximo e pela sua família alargada. Enquanto lamentamos a sua ausência, consolamo-nos por saber que o seu extraordinário legado musical continuará a ressoar e a inspirar as gerações vindouras”, afirmou a família.
De acordo com a mesma nota, Stone morreu devido à sua “luta prolongada contra a DPOC [Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica] e outros problemas de saúde subjacentes”.
“Sly Lives!”: um génio de todas as cores num mundo a preto e branco
O multi-instrumentista liderou os Sly and the Family Stone, uma banda de funk rock multirracial e mista, uma raridade na década de 1960, pautada pela sua energia vibrante em palco, grandes refrães e letras politizadas, muitas vezes denunciando preconceitos que subsistem até hoje. Destacando-se desde cedo na sua formação, a banda realizou um concerto memorável no Festival de Woodstock, em agosto de 1969, chegando ao palco pouco depois das 03:00 da madrugada do terceiro dia do lendário evento.
A pluralidade deste projeto musical estendia-se também à forma omnívora como misturava soul psicadélico, funk, blues e rock and roll, projeto sincrético da musica negra lançada até então. Em apenas cinco anos, a sua criatividade deixou um impacto indelével na música norte-americana e global, desde o primeiro êxito da banda, Dance to the Music, em 1967, e a canção Everyday People, um ano depois, assim como o extraordinário álbum Stand!
O quinto álbum, There’s A Riot Goin’ On, por sua vez, denotou tanto a convulsão que se vivia nos EUA como no seio da própria banda, que se começou a arrastar numa espiral de consumo de drogas, a começar pelo próprio Sly Stone, que o gravou praticamente sozinho. Lançado em 1971, foi o prenúncio do que aconteceria quatro anos depois, quando os Sly and the Family Stone implodiram.
Stone continuou a usar o nome da banda para seguir uma carreira a solo, mas esta nunca se sustentaria, quer pela ausência do núcleo coletivo que o acompanhara, quer pela sua dependência com drogas, que se foi agravando. Ain’t But the One Way, lançado em 1982, foi o seu último disco, apesar de continuar a tocar ao vivo, inclusive junto de outros grandes contemporâneos, como os Funkadelic ou Bobby Womack.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 4.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]
Os anos 80 foram uma década particularmente má para si, sendo detido em 1983 por posse de cocaína e em 1987 por conduzir sob o efeito dessa mesma droga, levando-o a fugir da Califórnia para Connecticut para evitar a condenação. No entanto, foi detido dois anos mais tarde e condenado a 55 dias de prisão, cinco anos de liberdade condicional e uma multa.
Por este tipo de comportamento errático, deixou de tocar ao vivo e de ser visto em público, aparecendo apenas na introdução dos Sly and the Family Stone no Rock & Roll Hall of Fame em 1993, e finalmente tocando somente em 2006, numa homenagem à sua banda durante os prémios Grammy. No ano seguinte, lançou-se numa digressão mal afamada, e um concerto em 2010 no festival Coachella teve igual fim.
Em 2011, soube-se publicamente que estava a viver como sem-abrigo, numa carrinha. No seu livro de memórias, Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin), lançado em 2023, Sly Stone reconheceu que perdeu-se sucessivamente na adição, mas que conseguiu ficar limpo em 2019. As drogas, afirmiu, davam-lhe “confiança e energia”, mas passaram a comandar a sua vida. “Pensei que podia controlá-las, mas, a certa altura, elas estavam a controlar-me”, escreveu.
Para muitos, Sly Stone foi um génio musical que criou o som do futuro e lançou as bases para artistas como Prince, Miles Davis, Red Hot Chili Peppers e OutKast. Foi “como ver uma versão negra dos Beatles”, destacou a lenda do funk George Clinton à CBS News sobre a presença em palco do seu amigo de longa data. “Tinha a sensibilidade das ruas, a sensibilidade da igreja e as qualidades da Motown. Era tudo isto numa só pessoa”, salientou.
Sly Lives, documentário de 2025 realizado pelo músico e realizador Ahmir “Questlove” Thompson, homenageou o seu percurso e a sua obra.