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"Sly Lives!": um génio de todas as cores num mundo a preto e branco

Artigo a propósito do documentário "Sly Lives", lançado em março de 2025. Sly Stone, ícone da música funk norte-americana, morreu esta segunda-feira, 9 de junho de 2025, aos 82 anos.

[Este artigo foi originalmente publicado a 24 de março de 2025 e atualizado a 9 de junho de 2025, a propósito da morte de Sly Stone]

Vamos em quatro minutos de filme (disponível na Disney+) quando surge no ecrã o sub-título: “Black Genius”. É então que aparece uma linha, negra como o génio do título; essa linha tem uma função: riscar a palavra “Black”, como se o próprio filme estivesse a dizer desculpem lá, enganei-me, não é um génio negro, é um génio tout court. Como se o próprio filme se arrependesse de reduzir o seu objeto, Sly Stone, cuja música vanguardista alterou o que se pensava ser possível e mudou o curso da História, a uma categoria que não faz sentido (génio, mas apenas entre os negros) e o reconduzisse à mais ampla condição de génio.

Mas riscas em títulos não surgem no ecrã por acaso, surgem quando o filme já foi escrito, filmado e montado – aquele “Black” não está ali por acaso e as cenas seguintes encarregam-se de o demonstrar: Questlove, o realizador, partilha a sua teoria: para um artista negro na América o sucesso pode ser mais assustador do que o falhanço. E depois pergunta a uma série de músicos e comentadores culturais que foram influenciados por Sly Stone: “What is black genius?” Ninguém tem resposta, ou pelo menos a montagem não a incluiu; até que Andre 3000, dos Outkast admite que não sabe mas “I love it when it happens”.

Mesmo que o nome Questlove não vos diga nada, quase de certeza que já o viram: ele é o líder da banda que toca no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e há dezenas de vídeos da banda a tocar, normalmente com Jimmy Fallon e um músico convidado, uma versão com instrumentos de brincar de uma canção desse convidado.

[o trailer de “Sly Lives!:]

Essa banda chama-se The Roots e há décadas que produz do melhor hip-hop que por aí anda, sempre liderados por Questlove. O grande tema dos discos dos The Roots, não por acaso, é o que significa ser negro na América, quais as condições em que os negros crescem, o contexto que leva cada negro ao seu destino. Questlove é um colecionador obsessivo e um estudioso da música – mas também é uma espécie de historiador auto-didata da viagem da negritude pela América — e é também o autor de outro extraordinário documentário sobre este período da música americana, Summer of Soul.

Pelo que não espanta que tenha querido fazer um documentário sobre Sly Stone e a sua Family Stone, a banda que formou – uma figura que pareceu surgiu do nada, encantar a América, inclusive a branca, e depois se dedicou à sua auto-destruição com um afinco raro. Isto não é spoiler, já agora – é uma história bem conhecida no mundo da música, mas que merece ser reavaliada hoje, numa era em que o racismo reacende um pouco por todo o lado, para mais com a vantagem de o documentário ter os contributos não só de músicos e comentadores culturais fãs de Sly, mas também dos que lhe foram mais próximos.

Quase todas as histórias sobre ícones musicais são compostas de pelo menos duas partes: a ascensão inesperada e inabalável e a queda. A terceira parte é sempre incerta: uns não chegam lá (Jimy, Cobain, todo esse grupo dos 27), outros conseguem reerguer-se e ter um fim de carreira digno (Cash, Cohen), mas há quem nunca mais regresse – como Syd Barrett ou Sly Stone.

Depois de uma sequência de imagens da Family Stone a ser espantosa ali entre 67 e 71 (e depois do risco em “Black” e da pergunta de Questlove que fica sem resposta), o documentário recua e mostra-nos as origens de Sly, ou pelo menos quem Sly era antes de se tornar uma super-estrela, algo que raramente é mencionado, e que nos ajuda a perceber quão distantes eram o sítio de onde partiu e aquele a que chegou.

Este filme precisa de ser visto, seja por quem não conhece a música de Sly (e assim fica a conhecer), ou por quem conhece a música, mas não conhece profundamente a história — acima de tudo, porque é uma rara oportunidade de entendermos o homem e o músico.

Sly, que está vivo, mas não fala no documentário (não fala há muitos anos, ponto), nasceu em Denton, Texas, em 1943, e aos 3 meses foi para a Califórnia porque a família procurava fugir à fome – não costumava haver negros na Bay Area, razão pela qual o seu pai andava sempre com uma arma e a bíblia. Sly, contudo, desde pequeno que se dava com negros e brancos, embora crescesse na missa dos negros – foi aí que aprendeu a integrar harmonia e melodia e ritmo e a liderar uma banda.

Tudo em Sly era música, música de forma obsessiva: fez um grupo de gospel com os irmãos, criou diferentes grupos no liceu, e ainda garoto já era um DJ de rádio popular, que tanto passava música soul e gospel como as bandas da british invasion (os Beatles) ou do nascente rock psicadélico – ele adorava todo o tipo de música e diz, numa das milhentas imagens de arquivo a que o filme recorre: para ele não interessa se a música é branca ou de brancos ou negra ou feita por negros, é tudo música.

Aos 19 anos Sly já tinha produzido um disco de ouro – e quando era preciso ensinava os músicos das bandas a tocar os seus instrumentos. Depois fez uma banda chamada Family Stone e a palavra “family” não estava ali por acaso: o seu irmão Freddie Stone era o guitarrista (e também cantor), enquanto a irmã Rose Stone era a teclista (e cantora). Toda a gente cantava nesta banda que não só tinha rapazes e raparigas como tinha negros e brancos, o que era raríssimo na época (talvez só os Love fossem assim, mas só tinham homens).

▲ A música vanguardista de Sly Stone alterou o que se pensava ser possível e mudou o curso da História

Ensaiavam todas as noites, depois começaram a tocar todas as noites, só covers ao início, e rapidamente criaram um culto, chamaram a atenção de editoras e gravaram o primeiro disco (A Whole New Thing, de 1967) por turnos: enquanto uns dormiam outros gravavam e assim sucessivamente, de modo a usarem o mínimo de tempo possível em estúdio e gastarem pouco dinheiro.

A Whole New Thing era um disco pioneiro na sua tentativa de misturar soul e funk e rock e pop, mas não vendeu nada e Sly ficou magoado – a sua resposta foi compor Dance To The Music, que foi um êxito e os levou a arenas maiores, a abrir concertos para Jimi Hendrix e a aparecer no Ed Sullivan Show – onde decidiram ir dançar para o meio do público, que ficou completamente surpreendido com esta decisão, inusitada há época.

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Alguém diz no documentário que esses foram os “fun days” e do ponto de vista da banda terão sido – mas uma das coisas espantosas de Sly foi ter tido êxito não apenas entre os negros, mas também chegar aos brancos, algo que era impensável na altura. Ainda mais espantoso se pensarmos que aquela música era extraordinariamente inovadora, não pertencia a um género só, e que tudo isto aconteceu enquanto o país estava a ferro e fogo, com os protestos por causa do Vietname, os assassinatos de Martin Luther King e Kennedy, etc. Alguém recorda que um polícia chamou “nigger lover” à namorada branca de Sly, Anitta – não, a América não tinha passado a gostar de negros só porque a Family Stone tinha êxito.

Espantosamente, a música de Sly estava a unir pessoas quando o país se dividia. Com o documentário, temos direito a ouvir a evolução de Everyday People, temos bocadinhos de imagens ou das gravações de Stand!, espantoso disco de 1969, que reflete todas estas contradições. Sly dizia que a sua música não era política, mas o que ele dizia nas suas canções era extremamente político.

▲ Sly dizia que a sua música não era política, mas o que ele dizia nas suas canções era extremamente político e é também isso que vemos no documentário

Quando a queda chega já se está a cair e nunca ninguém sabe dizer depois quando a queda começou. A Family Stone saiu de Woodstock como os grandes vencedores do festival, chegaram a ainda mais público – mas por essa a altura a cocaína já fazia parte da dieta de Sly antes dos concertos. A partir daí as drogas tornaram-se uma obsessão: a sua casa de Bel Air encheu-se de antigos amigos do bairro, malta pesada que havia estado presa; o crack passou a fazer parte do menu. Sly já não tocava todos os dias com a banda e quando o baterista decidiu sair, Sly usou uma drum machine para compor (assim dando origem ao som que Prince aprimorou) e gravou There’s a Riot Going On, uma das maiores obras-primas da música (branca, negra ou amarela), basicamente sozinho.

Não vou especificar o que compõe a queda que se segue – mas faço notar que o filme a descreve com respeito, evitando o sensacionalismo e procurando respostas junto de quem o conheceu e de quem o estudou profundamente, o que me leva a concluir que: este filme precisa de ser visto, seja por quem não conhece a música de Sly (e assim fica a conhecer), ou por quem conhece a música, mas não conhece profundamente a história — acima de tudo, porque é uma rara oportunidade de entendermos todos os escolhos que um homem negro nos anos 60/70 encontrava e todas as armadilhas em que podia deixar-se cair. Possivelmente, as mesmas de hoje.

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