Era um jogo que já tinha contornos épicos, por reunir duas das equipas mais desconhecidas do Mundial de Clubes. Foi um jogo que se tornou ainda mais mítico — por ter começado mais de uma hora depois do previsto, por ter tido poucas centenas de pessoas nas bancadas e pelo apoio permanente de uma mancha específica de adeptos.
Mas comecemos pelo início. O Ulsan HD, tricampeão da Coreia do Sul que conquistou a Liga dos Campeões Asiática em 2020, enfrentava o Mamelodi Sundowns, octocampeão da África do Sul que foi finalista vencido da Liga dos Campeões Africana na última temporada. Interpretados como os naturais patinhos feios do Grupo F, já sabiam um dado importante: Fluminense e Borussia Dortmund tinham empatados horas antes, ou seja, uma vitória significava assumir a liderança isolada do grupo.
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“Não acredito que exista uma única equipa que antes da competição não acredita que pode passar à fase seguinte. Claro que para nós seria um feito incrível passar a fase de grupos, mas antes de o conseguirmos precisamos de somar pontos. Temos de fazer um jogo muito completo. Sei que vai ser difícil, mas espero que seja bonito. Precisamos de ir até ao limite. Estou muito entusiasmado para ver uma equipa africana contra uma equipa asiática e estou curioso para ver como vamos lidar com o Borussia Dortmund e uma equipa brasileira. São três testes diferentes e no final todos eles devem ajudar-nos a evoluir”, disse Miguel Cardoso, treinador português que está ao comando do Mamelodi Sundowns desde dezembro do ano passado.
Ora, por volta das 23h desta terça-feira em Portugal continental, a hora marcada para o início do jogo no Inter&Co Stadium em Orlando, as bancadas estavam quase despidas — de acordo com alguns jornalistas presentes no estádio, contavam-se poucas centenas de adeptos num recinto com capacidade para mais de 25 mil. Tudo ficou pior quando, já com equipas e árbitros em campo, o apito inicial ficou suspenso devido a um alerta de mau tempo provocado pela aproximação de uma tempestade. Não havia chuva, não havia vento e o céu nem sequer estava muito carregado, mas todos recolheram aos balneários.
Todos menos os adeptos do Mamelodi Sundowns, que se limitaram a recolher a uma zona coberta das bancadas e continuaram a cantar, a tocar os respetivos instrumentos e a apoiar a equipa, num ambiente festivo que já se tinha feito sentir tanto na chegada dos jogadores aos Estados Unidos como na própria entrada para o período de aquecimento. Mais de uma hora depois do previsto, já depois da meia-noite em Portugal, o jogo começou mesmo.
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Assim que o jogo finalmente começou, não foi preciso esperar muito para perceber como é que a dinâmica ia desenrolar-se: o Mamelodi Sundowns era superior, ficando perto de marcar por intermédio de Arthur Sales logo nos primeiros segundos (1′), e o Ulsan HD procurava essencialmente a transição rápida, com Erick a rematar por cima na área depois de uma grande arrancada de Um Won-sang (4′).
Os sul-africanos colocaram a bola no fundo da baliza ainda dentro da meia-hora inicial, por intermédio de Iqraam Rayners e depois de um canto na direita (29′), mas o golo foi anulado por mão na bola do avançado. Pouco depois, contou mesmo: Lucas Ribeiro recebeu no corredor central, tirou um passe perfeito para o mesmo Rayners e este, na cara do guarda-redes, não falhou (36′). Rayners ainda voltaria a marcar, mas viu o golo ser novamente invalidado por fora de jogo (39′). Ao intervalo, o Mamelodi Sundowns estava a vencer o Ulsan HD de forma totalmente justa.
Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e embora ficasse a ideia de que o Ulsan HD estava com outro ritmo e outra vontade, as situações de perigo continuavam a pertencer ao Mamelodi Sundowns, com Lucas Ribeiro a atirar contra um adversário na grande área (53′). Pouco aconteceu na segunda parte, à exceção das substituições e de várias pseudo oportunidades e ocasiões de golo, e o resultado também já não mudou: o Mamelodi Sundowns de Miguel Cardoso venceu o Ulsan HD em Orlando, assumindo a liderança isolada do Grupo F do Mundial de Clubes.
36' MAMELODI SUNDOWNS GOAL | Rayners
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A pérola
De forma inevitável, Iqraam Rayners. Nascido na Cidade do Cabo em 1995, o avançado de 29 anos marcou o único golo do jogo e até poderia ter assinado um extraordinário hat-trick se não tivesse tido outros dois anulados, por mão na bola e fora de jogo. A terminar a primeira temporada no Mamelodi Sundowns, o internacional pela África do Sul leva agora 22 golos e dez assistências em 2024/25, números interessantes para quem nem sequer é a estrela da equipa.
O joker
É impossível não destacar Lucas Ribeiro. Aos 26 anos, o médio brasileiro que passou pelo Valenciennes de França e o Charleroi da Bélgica é o autêntico maestro do Mamelodi Sundowns — algo que ficou visível no lance do golo, quando tirou um passe perfeito para lançar Iqraam Rayners. A terminar a segunda temporada na África do Sul, Lucas Ribeiro é claramente o melhor jogador da equipa de Miguel Cardoso.
A sentença
Com este triunfo, o Mamelodi Sundowns é o surpreendente líder do Grupo F do Mundial de Clubes. Os sul-africanos aproveitaram o empate entre Fluminense e Borussia Dortmund, venceram o Ulsan HD e saltaram para o primeiro lugar, dando um passe de gigante rumo a uma eventual corrida pelo apuramento para os oitavos de final. O próximo obstáculo, ainda assim, são mesmos os alemães, já no próximo sábado.
A mentira
Ulsan HD e Mamelodi Sundowns estão muito longe de serem equipas do mesmo nível. Colocadas no mesmo saco devido à comparação óbvia e distante com o Fluminense e o Borussia Dortmund, a verdade é que a equipa sul-africana é muito superior à sul-coreana — em organização, qualidade coletiva e individual e até noção tática, sendo muito claro que o Ulsan HD é mesmo o conjunto mais frágil do Grupo F.