“Sentar uma piada no banco dos réus é uma ideia bizarra”. Quem o diz é Ricardo Araújo Pereira, que tem mostrado a sua indignação quanto ao julgamento que opõe os Anjos à humorista (e colega de Araújo Pereira) Joana Marques. Desta vez, tanto Araújo Pereira como o colega dos Gato Fedorento José Diogo Quintela argumentam que é muito improvável que Joana Marques venha a ser condenada — mas acreditam que se isso acontecer o precedente aberto será muito perigoso, e não apenas para quem faz do humor profissão.
“Uma piada não tem potência suficiente para causar dano substancial”, defendeu Ricardo Araújo Pereira no programa Contra-Corrente, na rádio Observador, lembrando o conceito jurídico de animus iocandi — a ideia de que se uma ideia for expressa com intenção de fazer humor ou dita em tom sarcástico ou irónico então não tem “intenção difamatória”. “É muito parecido com julgar o Batatinha porque a flor que tem na lapela esguichou água para o olho do espetador”, critica Araújo Pereira.
Sobre o caso em si, nenhum dos humoristas acredita que haja fundamento para condenar Joana Marques. Por um lado, Araújo Pereira frisa que existem vídeos da atuação dos Anjos a cantarem o hino nacional com muito mais visualizações do que o de Joana Marques, que expressava apenas a ideia “a atuação não correu muito bem” — sendo portanto difícil de provar que este vídeo em concreto tenha causado danos à dupla musical –, por outro diz que, mesmo que isso se prove, “é inútil”: “Têm de provar que a Joana praticou um ato ilícito. (…) No vídeo ela não lhes imputa factos falsos. Não é possível considerar aquilo ilícito”.
O que acontece de facto no vídeo, onde partes da atuação dos Anjos são intervaladas com partes de um programa do Ídolos (em que Marques era jurada), é que se “resumem os aspetos mais ridículos”, o que no limite acabaria até com o formato que Araújo Pereira mantém na SIC, o programa “Isto é gozar com quem trabalha”. “A acusação chama manipulação à natureza do trabalho humorístico”, critica o humorista, lembrando que todos os domingos pega em vídeos de várias horas de comissões parlamentares, por exemplo, e os resume aos momentos mais cómicos — “se eu compilar todos os momentos em que um ministro disse ‘bidé’ podem acusar-me de manipular a realidade”.
Quintela também frisa que não lhe parece que exista “base” para uma condenação: “Há que provar que agiu com dolo”. Se isso acontecer, avisa, a pressão passará a recair não só sobre os humoristas: “A pressão não é sobre os humoristas, mas sobre a sociedade em geral, sobre toda a gente que fala em público. A partir do momento em que uma pessoa pode pagar uma indemnização, basta ser um euro, por dizer ‘não gosto da maneira como canta’, a partir daí toda a gente que trabalha na esfera pública ou tenha uma presença online” pode pôr um processo em tribunal se alguém criticar algo que diz ou fez, avisa.
“Se tiver de pagar um euro [de indemnização] isto é bastante alarmante, não só para a minha profissão mas para qualquer pessoa que queira articular a ideia “não gostei muito desta atuação””, frisa também Araújo Pereira.
Quintela lamenta a forma “literal” como o humor passa a ser interpretado. Recordando os tempos dos Gato Fedorento — “felizmente alheámo-nos completamente do que dizem sobre o nosso humor. Sempre fizemos o que achámos que tinha graça” — defende que “sociedade está muito mais sensível, as pessoas picam-se muito mais”.
“Ofendem-se e depois exigem que quem ofendeu se retrate, retire o que disse. É uma sociedade muito mais infantilizada. Acho que é uma fragilidade. A forma como os Anjos reagiram é contraproducente, porque são alvo de chacota número um do país”, frisa.
“A liguagem metafórica neste momento é criminosa porque tudo é entendido literalmente”. Para o humorista, que esteve a assistir a uma das sessões em tribunal para aprender, como ironiza, “o que é o humor”, foi preocupante ouvir Nélson Rosado dizer que não quer que o filho pense que é um “assassino” porque “assassinou uma canção”: “Parece que se está a falar com tontinhos”.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 5.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]