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O caso que envolve a dupla Anjos e a humorista Joana Marques chegou esta quinta-feira a tribunal. Nelson Rosado (à esquerda) foi o primeiro a depôr perante a juíza e advogados.
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▲O caso que envolve a dupla Anjos e a humorista Joana Marques chegou esta quinta-feira a tribunal. Nelson Rosado (à esquerda) foi o primeiro a depôr perante a juíza e advogados.

TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR

▲O caso que envolve a dupla Anjos e a humorista Joana Marques chegou esta quinta-feira a tribunal. Nelson Rosado (à esquerda) foi o primeiro a depôr perante a juíza e advogados.

TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR

"Ameaças de nacionalistas", "limites do humor", "concertos cancelados" e "crise de acne". O "dia um" do julgamento de Anjos vs Joana Marques

Na primeira sessão do julgamento do caso Anjos/Joana Marques, a dupla insistiu que vídeo foi "manipulado" e rejeitou "narrativa" de "ataque à liberdade de expressão". Ré esteve presente e tirou notas.

“Venho com muita curiosidade. Foi prometido que hoje ia finalmente saber-se as coisas graves que se passaram. Venho na tentativa de descobrir​”, disse Joana Marques, em tom irónico, à chegada ao Palácio da Justiça, em Lisboa, onde esta terça-feira decorreu a primeira sessão do julgamento que opõe os irmãos Sérgio e Nelson Rosado contra a humorista, e no qual a dupla musical Anjos pede mais de um milhão de euros de indemnização pela publicação de um vídeo satírico no Instagram da comediante.

Antes da audiência, Joana Marques qualificou todo este processo como uma “perda de tempo”, sobretudo para os tribunais. “Mas pronto, fui convidada e cá estou”, afirmou numa breve declaração aos jornalistas.

▲ À chegada ao Palácio da Justiça, em Lisboa, a humorista fez uma curta declaração à imprensa, notando a “perda de tempo”, especialmente para os tribunais

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

No sexto piso do Juízo Central Cível de Lisboa, a sessão arrancou com a advogada da humorista a sugerir a possibilidade de realizar a audiência à porta fechada, sem comunicação social. A equipa jurídica da dupla Anjos rebateu e aludiu ao facto de a própria Joana Marques ter feito uma “conferência de imprensa” antes da sessão e assim a juíza concedeu que não havia fundamento para restringir o público.

Ao longo de todo o dia, o calor foi protagonista numa sala com a imponente tapeçaria João das Regras e a revivescência do Direito, de Amândio Silva, ao fundo. Uma ventoinha ladeava a juíza, mas revelava-se insuficiente para quem, na audiência, ia usando folhas como recurso para mitigar o ar quente.

Nelson Rosado, da dupla Anjos, foi o primeiro a prestar depoimento no julgamento que surgiu na sequência de um vídeo publicado pela humorista e que mostrava os dois irmãos a cantar o hino, em abril de 2022. Sentado diante da juíza, o cantor insistiu: o vídeo foi manipulado. “A Joana Marques fez um post novo nas suas redes em que o vídeo não é uma reprodução, mas um vídeo novo porque [a ré] cortou partes”, repetiu. “Há uma parte muito significativa da letra, que é o ‘levantai hoje de novo’, que foi cortada no vídeo da ré”.

Foi esta, de resto, a retórica utilizada por ambas as partes da dupla Anjos. “Há uma respiração que é cortada e faz tornar o vídeo um pouco mais hilariante”, disse Sérgio Rosado, horas depois, focando o depoimento na questão dos “cortes” do vídeo da atuação, em particular de “uma respiração” que não constará na versão satirizada por Joana Marques.

O músico advertiu: “sempre tivemos de lidar com a crítica, sempre foi assim”, lembrando que os Anjos têm uma carreira de 26 anos — a dupla de artistas é um dos grupos musicais portugueses mais bem-sucedidos do final da década de 1990 e da década de 2000. “Somos acusados de não saber a letra”, lamenta sobre as críticas que lhe foram dirigidas online por causa de um vídeo que, no seu entender, “não transparece aquilo que aconteceu.”

▲ O cantor Nélson Rosado disse em tribunal que recebeu ameaças de grupos nacionalistas na sequência de um vídeo publicado pela humorista, que mostrava os dois irmãos a cantar o hino, em abril de 2022

TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR

Num depoimento que durou várias horas, a advogada de Joana Marques pediu para que fosse mostrado em tribunal um vídeo da atuação em Portimão — o momento no centro da polémica —, gravado pela produtora dos irmãos Rosado, Timi Montalvão, que será uma das testemunhas da dupla a depor no caso.

Depois de algumas dificuldades técnicas, foi possível assistir ao vídeo em formato vertical e captado através de um telemóvel. O clipe de alguns segundos foi mostrado num ecrã de televisão, não sem antes Nelson Rosado recordar que a atuação decorreu num autódromo e que, por isso, “há eco”. A advogada da humorista contestou que se tratava de um “vídeo que serviu de base para os [vossos] pareceres” e que foi submetido pela dupla de artistas como prova. Quando o vídeo foi finalmente reproduzido, Nelson fez questão de frisar: “Nós dissemos egrégios, sotora”. “E o uou uou uou é um efeito?”, questionou a advogada da humorista. “Faz parte”, responde o artista. A juíza pediu para avançar por considerar que o tema estava “esgotado”.

Vale lembrar que uma das críticas feitas aos artistas nas redes sociais a propósito da atuação em Portimão prende-se com a letra do Hino Nacional, também conhecido como “A Portuguesa”, composto em 1890 e que contempla o verso “Dos teus egrégios avós”.

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Nelson Rosado diz que recebeu ameaças de nacionalistas após vídeo de Joana Marques

Questionado sobre os efeitos da disseminação do vídeo, três anos depois, Nelson Rosado disse que o grupo está ainda “a pagar essa fatura”. “Continuamos a receber ódio das redes sociais, continuamos a receber cyberbullying”, “somos acusados de ter assassinado o hino”, atirou, levando a juíza responsável a questioná-lo se tinha noção de como funcionavam as redes sociais. “Nós não nos enganámos no hino e muito menos somos assassinos”, disse o cantor, considerando que o vídeo teve como objetivo “ridicularizar” os artistas e que teve como efeito o cancelamento de 11 concertos.

Além da “onda de ódio”, revelou o artista, a dupla recebeu “ameaças de grupos nacionalistas”, denuncia. “Fomos obrigados a contratar segurança privada para estar à paisana no meio do público” durante os concertos, explicou. Interpelado pela juíza para que especificasse as ditas mensagens de ameaça, Nelson Rosado aludiu a uma mensagem que falava numa “joaninha”, escusando-se a mais detalhes para não reproduzir “alguns impropérios”.

O músico diz que nesses tempos não conseguia dormir. Começou por fazer medicação natural, que “não ajudou muito”, e por isso acabou por recorrer à psiquiatria e tomou “durante seis, sete meses medicação já clínica”.

▲ Sérgio Rosado, membro dos Anjos, foi o segundo a depôr em tribunal. Nelson, à esquerda, de mão no queixo, foi acenando afirmativamente perante as declarações do irmão e colega

TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR

Também Sérgio Rosado alegou consequências psicológicas com o episódio da disseminação do vídeo, que soma milhares de visualizações. O cantor diz que teve uma “crise de acne” provocada pelo stress, relembrando que para um artista “a imagem é super importante”. “Fiquei com marcas”, apontou em tribunal, notando que “atenuar” é “difícil”. “Felizmente tenho a barba crescida para poder tapar as marcas.”

O membro dos Anjos disse ainda que o desporto foi parte essencial do processo e que “para não entrar  numa depressão” decidiu “fazer uma prova de triatlo”. “Reuni a família e disse: eu preciso de fazer isto”, recordou, reconhecendo que teve “apoio de várias marcas” e um treinador que o seguia diariamente. Questionado pela juíza se o exercício ajudou a superar o sucedido, Rosado respondeu apenas: “Atenuou”.

Anjos vs Humor. Joana Marques pode ser condenada?

“As pessoas não se querem associar a uma banda que tem uma polémica”

A dupla de cantores alega danos patrimoniais em virtude da publicação do vídeo por parte da humorista das Três da Manhã. Além de concertos cancelados, os artistas dizem ter perdido patrocínios e contratos de publicidade. Um deles era um projeto com uma agência de viagens que ficou “em standby“.

Questionado pela advogada que o defende, Sérgio Rosado especifica que era um projeto com a agência Abreu “para arrancar agora com vista ao Natal”. “A própria administração convocou uma reunião de emergência a dizer que o projeto é bom, mas que neste momento o projeto não pode avançar porque existe muito ruído”, conta. “As pessoas não se querem associar a uma banda que tem uma polémica.”

▲ A ré, a humorista Joana Marques, esteve presente na sessão e durante várias horas foi tirando notas num pequeno caderno que trouxe consigo

Teresa Dias Costa/Observador

Para os Anjos, “limite [é] a partir do momento em que causa dano”

Joana Marques não foi a única humorista na sala do tribunal, que também teve na audiência, a assistir, Guilherme Fonseca (humorista e colega de Marques na equipa de guionistas Isto É Gozar com Quem Trabalha) e Daniel Leitão, locutor da Renascença e marido da comediante. Ambos estiveram em silêncio enquanto o tema dos limites do humor e da liberdade de expressão se afirmou como central no depoimento dos Anjos, primeiro na voz de Nelson Rosado.

Depois de sublinhar que é um “defensor da liberdade de expressão” e que tem um “círculo muito amplo”, o músico disse em tribunal que “para se fazer bom humor não é preciso falar mal de ninguém”. O cantor mencionou um “podcast em que foi convidada a ré”, e em que esta refere como “não falava mal do Jorge Gabriel” — o cantor está a evocar um episódio do podcast Watch TM, do também humorista Pedro Teixeira da Mota, no qual Joana Marques foi convidada.

“Para se fazer bom humor não é preciso falar mal de ninguém”, reiterou Rosado. “Defendo a liberdade de expressão, mas não posso prejudicar ninguém”, reforçou, criticando o facto de saber que a comediante e locutora da Renascença também utilizou o vídeo em espetáculos ao vivo enquanto humorista. “Seis meses depois, cartas registadas depois, usa parte dessas imagens do hino nos seus espetáculos”, apontou o músico.

“Quero acreditar que a ré, Joana Marques, não soubesse, não tivesse a noção do que aquilo [vídeo] poderia ter causado”, diz Nelson Rosado perante a juíza. É aqui que a “clivagem acontece”. Qual é o limite da liberdade de expressão? “Limite [é] a partir do momento em que causa dano”, diz o artista, que sublinha como o vídeo teve um “impacto imenso” e menciona o facto de Joana Marques ser licenciada em Ciências da Comunicação, pelo que, sugere, saberá o poder da comunicação.

Enquanto a humorista ia bebendo água e tirando notas, Sérgio Rosado começava por assumir ser um grande fã de humor. “Enquanto me fizer rir, é o humor perfeito”, afirmou em tribunal, recordando um episódio em que contou uma “anedota sobre um invisual” quando tinha “um invisual no concerto”. O artista nota, porém: “Não causei danos nessa pessoa”.

Este “anjo” seguia Joana Marques e o marido, Daniel Leitão, “desde o canal Q” e chegou mesmo a “partilhar” coisas da humorista “em casa”. “É interessante perceber como mudou a forma de comunicação e a forma de estar em relação à forma de comunicar”, continuou. “Se calhar antes eu também fazia um tipo de música que agora é diferente. É um gosto muito pessoal. Eu sou mais da geração daqueles sketches que o Herman José fazia, mas não dizia nomes, não chamava nomes. Tal como os Gato Fedorento, ou o Bruno Nogueira na RTP”, nomeia, apelidando este último de “extremamente inteligente”.

Segundo o artista de 45 anos, a comediante teve “uma viragem muito radical” na carreira. Apesar de tudo, Sérgio Rosado que “não gosta de criticar”, disse: “Não é o tipo de humor que eu goste, mas tenho de respeitar um público que segue a forma como ela comunica”.

A advogada da humorista agarrou a deixa minutos depois, recordando ao músico o teor do programa que a comediante apresentava então com o marido no canal do cabo. “Na realidade era um programa de humor”, nota referindo-se a Altos&Baixos, em que Joana Marques e Daniel Leitão analisavam “os melhores vídeos da net“, como se ainda pode ler no site do canal. “Fazia piada sobre os vídeos”, explica a advogada, que indaga o cantor se igualmente “se recorda do sketch Tesourinhos Deprimentes“, dos Gato Fedorento, cuja base para a interpretação humorística é semelhante.

▲ Manuel Rosado, pai dos Anjos e representante da empresa Angel Minds (à esquerda), foi o último a depôr neste primeiro dia, numa intervenção que não ultrapassou os 10 minutos

Teresa Dias Costa/Observador

Já perto do final da sessão, houve tempo ainda para uma curta intervenção de Manuel Rosado, representante da sociedade Angel Minds — que está a processar a humorista ao lado de Nelson e Sérgio. O também pai dos irmãos Rosado foi questionado sobre contas da empresa em questão, mas, não sabendo responder, a juíza deu por terminado o depoimento em cerca de 10 minutos. A advogada de defesa perguntou ainda se as receitas de 2022 — data da publicação do vídeo — foram “muito diferentes” do habitual. O depoente também não soube responder.

O julgamento continua esta quarta-feira com várias testemunhas. O processo continuará depois no próximo dia 30 de junho, segunda-feira, altura em que serão ouvidas três testemunhas a favor de Joana Marques, entre elas o humorista Ricardo Araújo Pereira e o radialista Fernando Alvim.

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