A não ser que sejam do mesmo continente, não é fácil encontrar neste Mundial de Clubes uma partida que tenha “história”. Neste caso, entre dois dos principais conjuntos na prova, existia “rasto”: numa das finais com mais emoção da então Taça Intercontinental, o Bayern venceu o Boca Juniors no prolongamento com um único golo do central Samuel Kuffour num encontro com estrelas como Kahn ou Riquelme que terminou com muitas queixas de arbitragem dos argentinos, reduzidos a dez logo após o intervalo pela expulsão de Marcelo Delgado. 24 anos depois, o reencontro era feito com realidades totalmente opostas mas com essa particularidade de ainda haver muitos xeneizes que não se esqueciam dessa decisão no Estádio Nacional de Tóquio, procurando agora a “vingança” navegando a onda dos sucessos dos sul-americanos.

Bayern-Boca Juniors. Harry Kane coloca bávaros na frente (1-0, 17′)

Problema? Do outro lado estava uma equipa que não só passa ao lado do ambiente que a rodeia nas bancadas como não consegue atuar de maneira diferente, sempre projetada para a frente com o intuito de fazer do jogo de futebol um espectáculo como outro qualquer. “São uma equipa perigosa, uma equipa que acredita muito, em cada lance, em cada detalhe. Têm um grande espírito, consegue perceber-se isso. Temos grande respeito pelo Boca, o futebol argentino é algo que entendemos muito bem. O desempenho das equipas sul-americanas não é uma surpresa para nós, o Mundial de Clubes é um grande torneio. Vimos o jogo com o Benfica e toda a emoção que teve, além de parecer que estamos a jogar fora”, apontara Vincent Kompany, apostado em ganhar o encontro para depois poder definir à vontade a primeira posição do grupo com os encarnados.

Da parte do Boca, a esperança de sempre como se o futebol fosse um mundo que continua a não conhecer essa tal ideia do “impossível”. “Fizemos algumas coisas boas com o Benfica, outras que temos de melhorar. É importante mantermos a cabeça que tivemos contra eles. O resultado custou, as expulsões custaram… Nestes encontros temos de manter sempre a cabeça e coração, com a inteligência para disputar estes jogos com o que pedem. O Bayern joga muito bem, é uma equipa que vejo todo o ano e não apenas agora porque vejo os jogos das competições europeias, hoje em dia o futebol exige que façamos isso. Invencível? É uma equipa muito difícil de bater, tem muita história mas queremos competir”, prometera Miguel Ángel Russo.

O pedido foi interpretado à letra: o Boca Juniors competiu. Mais do que isso, o Boca Juniors soube sempre competir. No entanto, e no jogo jogado, o Bayern voltou a mostrar que continua a ser uma das equipas mais completas da Europa, recuperando de um momento menos mau que valeu o empate aos argentinos para agarrar novamente nos comandos do jogo, lançar-se em termos ofensivos e chegar ao 2-1 que não só vale apuramento como “beneficia” o Benfica, que fica assim a um ponto do apuramento para os oitavos.

Se ainda houve dúvidas sobre o tipo de jogo que poderíamos ter no Hard Rock Stadium, até porque o Boca Juniors conseguiu ter duas saídas de bola interessantes com Velasco a receber de Menentiel para a partir daí distribuir jogo com critério em busca de terrenos mais avançados, os minutos que se seguiram mostraram que o Bayern não estava propriamente para facilidades. Michael Olise ainda viu um golo anulado depois de um canto olímpico do lado direito que Marchesín não conseguiu desviar pela falta de Gnabry na pequena área (8′) mas o primeiro golo não demorou a chegar, com Harry Kane a ganhar uma segunda bola depois de um corte incompleto de Advíncula e a rematar cruzado para o 1-0 (18′). Podia não ter ficado por aqui: em mais uma boa jogada coletiva, Coman chegou atrasado na pequena área ao provável segundo golo (20′).

Ainda houve uma fase em que o Boca Juniors se conseguiu estender um pouco mais no campo, com Neuer a evitar com uma defesa fantástica o empate de Zenon na área, mas o Bayern foi conseguindo manter sempre o controlo dos acontecimentos e teve mais oportunidades para aumentar a vantagem ainda antes do intervalo, encontrando um Marchesín inspirado na baliza que tirou o golo a Michael Olise isolado depois de mais uma grande jogada de Coman. Os adeptos argentinos continuavam a fazer do Hard Rock Stadium um autêntico vulcão mas nem por isso o sangue frio dos bávaros permitia que a equipa se desviasse do plano traçado.

O segundo tempo manteve as mesmas características, com Olise a deixar um primeiro aviso na área para nova defesa de Marchesín (52′) e Harry Kane a ter também uma boa oportunidade com o remate a bater num adversário e a sair para canto (55′). Depois, vieram os erros. Muitos passes falhados, muitas jogadas que iam abusando da jogada individual, alguns erros nas transições defensivas. O Boca Juniors, que mesmo tendo menos posse nunca “desligou” do encontro, aproveitou e fez mesmo o empate, com Merentiel a ter mais uma grande jogada a tirar Tah e Stanisic da frente antes da picar a bola por cima de Neuer (66′). Os adeptos dos xeneizes estavam em completa loucura mas o balde de água fria não demoraria a chegar: numa jogada de insistência na área, Kane fez a assistência em posição central e Olise atirou de pé esquerdo para o 2-1 (83′). Laimer ainda teve um golo anulado por fora de jogo mas o resultado já estava fechado de vez em Miami.

A pérola

  • Harry Kane não tinha marcado na goleada ao Auckland City, teve até um encontro discreto e com golos que não costuma falhar, mas nem por isso perdeu a confiança neste Mundial de Clubes. Mais uma vez, foi ele que apareceu nos momentos da verdade: depois de ter marcado o primeiro golo pleno de. oportunidade na área, teve mais momentos de perigo junto à baliza de Marchesín e fez a assistência em posição central para Michael Olise rematar de pé esquerdo para o 2-1 que decidiu o encontro.

O joker

  • Pode começar como lateral, como ala ou como médio, nunca perde a influência. Kimmich continua a ser o principal pêndulo de todo o jogo ofensivo e posicional do Bayern, dando mais uma masterclass de como, onde, quando e porquê distribuir a bola pelos companheiros de equipa mesmo quando a pressão do Boca Juniors fazia subir um pouco mais as linhas para condicionar o seu raio de ação. Merentiel, que mostrou toda a qualidade no golo dos argentinos, merece aqui uma menção honrosa mas o alemão voltou a ser aquele baluarte de quando em vez invisível que segurou a máquina bávara após o empate.

A sentença

  • Com mais uma vitória neste Mundial de Clubes, o Bayern tornou-se a segunda equipa qualificada para os oitavos de final da competição, necessitando apenas de um empate para garantir o primeiro lugar do grupo C. Também o Benfica assegura a fase a eliminar caso pontue na última ronda frente aos bávaros, ao passo que o Boca Juniors terá de esperar que os encarnados percam e, ao mesmo tempo, que o jogo frente ao Auckland City consiga a anular a desvantagem atual entre os golos marcados e sofridos.

A mentira

  • Existe uma ideia quase pré-concebida de que não podem existir jogos contra equipas sul-americanas, sobretudo argentinas, sem umas confusões entre jogadores pelo meio para “apimentar” o encontro. O Bayern mostrou que isso não tem de ser uma verdade universal: apesar de algumas entradas mais duras dos argentinos, os jogadores dos germânicos andaram sempre focados na sua missão, mantiveram sempre o sangue frio em todas as abordagens e “saíram” sem problemas do encontro em Miami.