A partir de agora, tudo conta. Os treinos livres, as qualificações, a performance de corrida, os pontos. Miguel Oliveira sabe, Jack Miller também, Toprak Razgatlioglu idem – embora neste caso numa posição bem mais confortável, depois de ter assinado contrato com a Yamaha Racing e estar apenas a saber quando e como vai entrar no Mundial de MotoGP. A “bomba relógio” foi deixada pelo próprio diretor da equipa, Paolo Pavesio, e muito do futuro do português na principal categoria do motociclismo começava agora a ser definido. Com os bons sinais dos tempos livres, com a frustração da qualificação menos boa, com problemas na sprint.

A correr no fio da navalha para não ficar sem lugar: Miguel Oliveira é 13.º na corrida sprint do GP de Itália

“Estar tão perto do top 10 foi um bom sinal, a velocidade estava lá mas perdi algumas linhas porque não me sentia totalmente confortável com a frente. Não consegui manter a velocidade nas curvas porque estava com dificuldades para parar a moto na entrada das curvas. Amanhã [Sábado] precisamos de nos concentrar em maximizar o que a moto faz de melhor, a travagem, e espero que possamos usar isso a nosso favor e lutar por essas duas vagas na Q2″, tinha referido no final dos treinos livres, onde acabou com o 11.º tempo.

“A corrida foi muito, muito difícil. Senti muitas vibrações, especialmente nas curvas para a esquerda, e a partir da terceira volta tudo foi ficando pior. Não consegui ultrapassar os problemas nem forçar mais. Pode estar relacionado com os pneus, embora ache que os pneus não são o único problema. Ainda assim, creio que fui o único piloto da Yamaha a ganhar posições mas foi complicado. Amanhã [Domingo] será igualmente difícil. Precisamos de analisar tudo e tentar fazer mudanças reais – com sorte, o suficiente para encontrar um bom ritmo e recuperar terreno”, comentou depois da sprint, onde não foi além do 13.º lugar à frente do companheiro de equipa Jack Miller, que lamentou também os problemas sentidos na sua moto.

“Experimentei o pneu dianteiro duro para ver se nos dava algo extra, também a pensar na corrida mais longa de amanhã [domingo]. Não resultou. Acreditei mesmo que o calor tornaria o pneu duro uma boa opção, como aconteceu na Tailândia, mas simplesmente não consegui fazê-lo funcionar. Da curva 4 para a 5, sempre que largava os travões perdia a frente. As curvas Arrabbiata foram um pesadelo e a última curva também foi terrível. Estava apenas a arrastar-me. Ainda assim, tentei forçar, aproveitando ao máximo o pneu traseiro. Mas pelo menos agora sabemos. Se não tivesse experimentado o pneu duro, talvez ainda estivesse a pensar nisso. É melhor ter essa informação já”, comentou o piloto australiano que acabou a sprint na 16.ª posição.

As coisas não estão decididamente a correr bem à Yamaha, que voltou a ter uma corrida sprint sem qualquer piloto a pontuar (Quartararo foi décimo, Álex Rins ficou no 18.º posto). No entanto, o grande foco nesta fase passava pelos resultados da Pramac Racing, com Miguel Oliveira a assumir que tudo mudara com a chegada do jovem prodígio turco Toprak Razgatlioglu à equipa. “É claro que a contratação do Toprak coloca um elemento de maior pressão nisto, vamos chamar-lhe o segundo lugar [na equipa] para o próximo ano. Penso que todos estamos curiosos no que o Toprak vai fazer em MotoGP mas do meu lado estou ocado no presente, para fazer o melhor que conseguir com a moto e maximizar o meu potencial e o potencial da moto. Acredito em mim e vamos ver o que acontece nas próximas duas corridas. Mas estou confiante que vamos começar a fazer bons resultados e depois a decisão, obviamente, não será minha”, assumira o Falcão.

Bateu à porta mas ficou por lá sem entrar: Miguel Oliveira faz 11.º tempo nos treinos livres e vai passar pela Q1 em Itália

Esse era o ponto de maior interesse no Grande Prémio de Itália, que voltava a ter o foco nos lugares cimeiros e na capacidade de Pecco Bagnaia colocar a sua Ducati a rodar como nos anos do bicampeonato para travar o ascendente do companheiro de equipa, Marc Márquez, e do irmão que representa agora a Gresini, Álex. Os três voltaram a fazer os melhores tempos na qualificação, saindo da primeira linha da grelha de partida, com Fabio Quartararo a tentar capitalizar o quarto lugar feito na Q2 como não aconteceu na sprint tendo a seu lado Maverick Viñales e Franco Morbidelli. O arranque seria determinante para começar a definir posições.

O arranque motivou grande euforia nos adeptos transalpinos, com Pecco Bagnaia a responder a um bom arranque de Marc Márquez com uma ultrapassagem logo na primeira variante, Álex Márquez a aguentar o terceiro posto e Morbidelli a saltar para o quarto posto à frente de Fabio Quartararo. Mais atrás, Miguel Oliveira manteve o 17.º lugar, saltando no início da segunda volta para 15.º pela queda de Enea Bastianini e pela ultrapassagem a Joan Mir (Jack Miller seguia na 18.ª posição). Ainda assim, a festa italiana não iria durar muito, com Marc Márquez a recuperar a liderança numa luta que colocava o trio menos isolado dos restantes opositores depois de um toque entre as duas Ducati que deixou Pecco na terceira posição.

Ao contrário do que aconteceu nas últimas corridas, era na luta pelo primeiro lugar e pelo pódio que estava o centro de todos os olhares, com Pecco Bagnaia a forçar de novo o andamento para subir ao topo. Nessa fase, com cinco voltas cumpridas, Miguel Oliveira seguia em 15.º, de novo com Joan Mir à sua frente e rodando próximo de Álex Rins. Mais uma queda, mais uma subida: Johann Zarco foi ao asfalto e o português passou para 14.º, sendo mais uma vez o único piloto da Yamaha a ganhar lugares tendo em conta que Miller seguia em 16.º e Fabio Quartararo já tinha caído para nono. Estava na altura de aparecer Álex Márquez, com uma ultrapassagem fantástica que permitiu ascender ao topo e ganhar uma pequena diferença de 0,4.

Só mesmo a partir da oitava volta começou a haver uma ligeira descompressão, quase a preparar aquilo que seria um final eletrizante na primeira corrida onde estiveram verdadeiramente os três primeiros do Mundial na luta pelo triunfo, já com os irmãos Márquez na frente com Marc no topo. Já Miguel Oliveira deixava Joan Mir ter uma distância de meio segundo mas tendo um bom avanço sobre Ogura, com nova subida do português a 13.º com a queda de Maverick Viñales quando estava a rodar em quarto e sofreu um toque de Morbidelli, que foi penalizado com uma long lap que iria deixar Fabio Di Giannantonio mais sozinho, agora com Marco Bezzecchi em quinto. Todos os italianos subiam menos um: Pecco Bagnaia, agora a perder mais terreno para os dois espanhóis. Mais atrás, novo golpe na Yamaha: Jack Miller veio para as boxes.

O dobrar para a segunda metade da corrida reavivou a luta entre Álex Márquez e Pecco Bagnaia com Marc Márquez a ser mais rápido na frente e trouxe também problemas a Miguel Oliveira, que ia mantendo a sua distância para Joan Mir mas acabou por ser ultrapassado por Ogura, num sinal de que os pneus poderiam ser uma complicação para o português até ao final. Para se perceber essas dificuldades, depois da ultrapassagem Miguel Oliveira perdeu logo meio segundo na volta seguinte para o piloto japonês da Trackhouse. Mais: Álex Rins acabou por ser ultrapassado por Joan Mir… e por Ogura. Era mais um sinal da falência da Yamaha.

Marc Márquez seguia sozinho na frente, com Bagnaia a perder a capacidade de lutar pela segunda posição com Álex Márquez e Fabio Di Giannantonio a aproximar-se da zona de pódio até ultrapassar mesmo o piloto italiano da Ducati. Mais atrás, as dificuldades de Álex Rins permitiram que Miguel Oliveira ganhasse mais uma posição para 13.º antes de voltar a 14.º ultrapassado por Fermín Aldeguer atrás de Fabio Quartararo, que entretanto caíra também para 12.º depois de ter saído do quarto posto. E não ficaria por aí: o francês caiu mais um lugar na última volta, o que permitiu ao português ser o melhor da Yamaha em Itália. Na frente, Marc Márquez conseguiu a 93.ª vitória à frente de Álex Márquez e Di Giannantonio, com Bagnaia fora do pódio. Bezzecchi, Morbidelli, Raúl Fernández, Pedro Acosta, Brad Binder e Ogura fecharam o top 10.