A Uber vai lançar em Lisboa um novo serviço para permitir às mulheres escolherem com quem querem viajar. As mulheres podem optar por ser transportadas apenas por motoristas do sexo feminino, assim como as motoristas podem optar por receber apenas pedidos de viagens de passageiras do sexo feminino. A nova funcionalidade, anunciada esta terça-feira e disponível a partir da próxima semana, denomina-se Women Drivers.

A nova opção estará disponível todos os dias da semana, sem “qualquer custo adicional”, mas a Uber avisa que durante a fase-piloto, que decorre somente na capital portuguesa, a disponibilidade do serviço poderá variar “consoante o número de motoristas disponíveis”. Fazer uma reserva de viagem, com antecedência, é uma modalidade que permite “aumentar e muito” a disponibilidade do novo serviço.

A funcionalidade, que já está disponível noutros mercados em que a Uber tem presença, como França, Alemanha, Polónia, África do Sul, Argentina e Austrália, será “posteriormente” alargada a outras cidades portuguesas. Numa conferência em que o Observador esteve presente, Francisco Vilaça, diretor-geral da Uber em Portugal, adiantou que o “timing” para alargar o piloto a outras cidades “pode ser bastante variável”, mas a empresa acredita que “pode ser bastante rápido” e que terá novidades “ao longo dos próximos seis meses”. As cidades que se seguem deverão ser escolhidas com base na “dimensão dos mercados”, provavelmente Porto, Coimbra, Braga e Algarve, onde mais motoristas estão presentes.

Questionado sobre se a opção não passa a ideia de que os Uber são inseguros para mulheres, Francisco Vilaça rejeita: “Não, antes pelo contrário […] Não acreditamos que se trate de uma questão de segurança, trata-se sim de uma questão de escolha, de chegar às preferências de mulheres motoristas e mulheres passageiras”. “O interesse é aumentar o número de utilizadoras, o número de motoristas e o número de viagens que fazem na plataforma”, acrescenta.

Se uma mulher chamar um Uber através da modalidade Women Drivers e estiver com outros passageiros, incluindo homens, a motorista poderá recusar-se a fazer a viagem? “A forma como estamos a montar o processo é baseado na flexibilidade e na autonomia da mulher motorista de poder tomar a decisão que considerar adequada. Poderá optar por manter essa viagem ou poderá optar por cancelar, respeitosamente explicando que é uma opção para mulheres”, explica o responsável.

No ano passado, o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) proibiu uma plataforma de TVDE exclusiva para mulheres, a Pinker, por falhar o princípio da não discriminação. Entretanto, a equipa fundadora da Pinker lançou uma aplicação alternativa, denominada Floow, que está “aberta a todos” mas mantém o foco na segurança das mulheres e que opera sem restrições legais no mercado português (mas também sem grande destaque).

Questionado sobre este caso, Francisco Vilaça defende que a Uber acredita que está a “adicionar uma opção de escolha numa plataforma que é totalmente inclusiva”. “Vemos isto como mais uma opção de escolha e não como uma limitação”, salienta, mencionando que se trata de um “produto adicional” aos que já estavam disponíveis na aplicação.

IMT proíbe plataforma TVDE exclusiva para mulheres por ser discriminatória

Na legislação que rege a atividade deste setor, o sétimo artigo é precisamente sobre a não discriminação e determina que “utilizadores, efetivos e potenciais, têm igualdade de acesso aos serviços de TVDE, não podendo os mesmos ser recusados pelo prestador em razão” por questões como, por exemplo, ascendência, idade, sexo, orientação sexual ou estado civil.

O Observador perguntou ao diretor-geral da Uber em Portugal sobre se questões relacionadas com a não discriminação podem aqui ser levantadas, uma vez que não é dada a opção a passageiros ou motoristas homens de viajarem apenas com pessoas do sexo masculino. Francisco Vilaça responde da seguinte forma: “Nós não vemos [isso] dessa forma. Nós vemos é que existe um grande desequilíbrio do lado do número de mulheres motoristas. Esse é um facto claro. É por esse lado que nós precisamos de atuar proativamente. Da nossa perspetiva, não existe essa falta do outro lado [masculino] porque do outro lado existe já a natural preferência pela atividade [TVDE].”

Contactado pelo Observador, o IMT informa que considera que “a plataforma Uber não exclui nenhum utilizador, não entrando em conflito com a lei, apesar de apresentar serviços segmentados”.

Em comunicado, a Uber já tinha indicado que a opção Women Drivers “vem responder a um desafio estrutural do setor da mobilidade, dado que atualmente apenas 9% dos motoristas de TVDE em Portugal são mulheres”. A empresa acredita que “esta funcionalidade poderá contribuir para atrair mais mulheres para a atividade, tornando a condução numa opção profissional mais apelativa, flexível e ajustada às diferentes necessidades e preferências de cada mulher”.

O anúncio do novo serviço chega exatamente um mês depois de ter ficado disponível um projeto-piloto (que terminou no dia 30 de junho), denominado Uber Commute, para incentivar os moradores da Margem Sul a deixarem o carro em casa e recorrerem aos transportes públicos para viajar para Lisboa. O objetivo da iniciativa era facilitar a “deslocação dos cidadãos de e para todas as estações de comboio e barco que ligam a Margem Sul à capital”.

Questionada pelo Observador sobre o projeto-piloto, a Uber afirma que ainda está a “estudar” qual será o próximo passo, mas garante que viu, “claramente”, uma “grande adesão”. “Sabemos que estas semanas de feriados criaram uma movimentação muito atípica na cidade, temos que perceber qual é o impacto desses feriados e das férias”, diz Francisco Vilaça, reiterando que a empresa se mantém focada na missão de reduzir a dependência do automóvel particular.

Uber lança projeto-piloto para promover uso de transportes públicos nas viagens da Margem Sul para Lisboa

Durante o encontro com jornalistas, Francisco Vilaça referiu também uma das mais recentes novidades da Uber, anunciada em junho, para que “todas as viagens sejam seguras”: a possibilidade de ser feita uma gravação áudio, diretamente a partir da aplicação. A gravação é “encriptada” e a Uber só tem acesso “em caso de um incidente de segurança” e mediante a “partilha pró-ativa por parte do utilizador”. Ao fim de sete dias, a gravação é “automaticamente eliminada”.

Uber lança esta terça-feira possibilidade de gravação áudio nas viagens para reforçar segurança

*Notícia atualizada às 14h51 com a resposta do IMT ao Observador