Todas as movimentações têm um propósito na antecâmara das eleições do Benfica. Não foi por acaso que João Diogo Manteigas quis ser o primeiro a assumir uma candidatura, não foi por acaso que João Noronha Lopes dividiu esse momento em duas partes com uma confirmação e uma apresentação oficial a 48 horas de uma Assembleia Geral, não foi acaso que Cristóvão Carvalho deu uma entrevista de “posicionamento” antes de começar a trabalhar as aparições públicas, não foi por acaso que Martim Mayer confirmou que ia avançar antes de rumar aos EUA e só no dia 9 vai promover uma apresentação da lista. No limite, não foi por acaso que Rui Costa empurrou um anúncio para depois do Mundial de Clubes (faltando agora definir o timing). Tudo teve um propósito por estratégia – uma estratégia que há muito contava com Luís Filipe Vieira.

Puxando o filme atrás, há muito que o antigo presidente dos encarnados era apontado como uma hipótese mesmo quando ninguém falava ainda nesse cenário. Porquê? Porque, nos bastidores, Vieira foi alguém que esteve sempre omnipresente. Não esteve nos encontros organizados pelo empresário Marco Galinha que juntaram várias personalidades, antigos dirigentes e pessoas de várias áreas, não promoveu qualquer tipo de reunião para estudar a possibilidade de haver uma fusão de listas, mas andou sempre em contactos para ir sentindo o pulso ao clube, ao rumo e ao projeto que era levado pelos encarnados. Aí, não tinha ainda nada definido em relação à hipótese de encabeçar uma lista ou apoiar um movimento. No entanto, e como foi confirmado ao Observador, há muito que parecia tentado a arriscar. Aliás, algumas pessoas próprias do líder do conjunto da Luz recordaram as palavras que teve nas eleições de 2021.

“Não lesei nem nunca roubei o Benfica. O que se passou connosco foi muito grave. Nunca pensei que isto alguma vez fosse acontecer na minha vida. Sei que sou perseguido, sinto-me como uma peça de caça a quem querem dar um tiro. Mas não vão conseguir dar esse tiro porque não vou permitir que me façam isso (…) Conseguiram decapitar o Benfica, que era o primeiro objetivo. Ia projetar o Benfica para mais longe e isso assustou muita gente. Um dia mais tarde, logo saberemos o que se vai fazer e o que se pode fazer a seguir. Mas há uma coisa que posso garantir aos benfiquistas: estarei sempre presente e quando achar que tenho de ter uma intervenção mais profunda, também a terei”, prometeu na altura o antigo líder.

Tive desilusões com pessoas dentro do Benfica, não vou esconder isso. Fui condenado na praça pública mas não é na praça pública que eu sou condenado. Tive sempre muitas manifestações de benfiquistas e até hoje nunca fui agredido verbalmente na rua, nunca ninguém me achincalhou. Tive muitas manifestações de apoio e muita gente até achava que eu ia candidatar-me mas como é óbvio não o poderia fazer, não vou desafiar a Justiça (…) Fui eu o eleito. A democracia a mais neste clube faz mal. Mesmo que queiram esquecer-me, não conseguem esquecer-me. Quem for à casa de banho tem de se lembrar de mim, quem se sentar numa secretária tem de se lembrar de mim, quem se sentar numa cadeira tem de se lembrar de mim, quem pisar o terreno tem de se lembrar de mim”, completou Luís Filipe Vieira, na altura em declarações à BTV.

Os anos passaram, as intervenções foram pontuais mas, em setembro, o antigo presidente dos encarnados quis fazer quase uma espécie de “sondagem” ao universo benfiquista com uma entrevista com palavras fortes à CMTV. “Destruíram a minha família, Para mim é imperdoável. Estragaram-nos a vida, perseguiram-nos… Sabem o que é um neto perguntarem-nos se roubámos o Benfica?”, lamentou, entre críticas a Rui Costa. “Talvez a muleta do Vieira faça falta. Peço desculpa aos benfiquistas. Enganei-me (…) Rui Costa não pode tratar as pessoas por ‘Mano aqui, mano ali’. O Benfica é alguma creche? Fez bem em ir de férias. Não aguenta a pressão, não tem a minha pedalada”, apontou. Já sobre o futuro, ficaram palavras que hoje ganham outro sentido. “Nunca se diz nunca. Estou disponível para ajudar o Benfica. Se fosse a eleições ganhava, não tenho dúvidas nenhumas”, salientou, entre outras “farpas” como o regresso de Bruno Lage à Luz.

Das pessoas próximas de Vieira a algumas franjas do clube, passando pelos próprios candidatos que iam preparando o terreno, poucos duvidavam de que seria possível um avanço do antigo presidente. Também houve quem desaconselhasse esse cenário ao ex-líder, explicando que entraria numa guerra onde ficaria em posição mais frágil pela forma como saiu do comando do clube e da SAD, mas acabou por imperar a vontade de Vieira em regressar ao Benfica, acertar contas com o passado e recolocar o clube num trajeto que entretanto deixou de ver nos encarnados. Tudo foi sendo preparado, faltava um gatilho para que esse movimento ganhasse corpo para o exterior. Aí, há uma semana e meia, a Direção fez um comunicado.

O anúncio da abertura de um processo de inquérito a Luís Filipe Vieira, alegando factos cometidos numa Assembleia Geral em 2019, foi a gota de água para o ex-líder das águias assumir uma outra postura dentro da atual realidade do Benfica. A resposta só chegou esta quarta-feira, também através de um comunicado, mas a máquina mudou de velocidade para poder começar a ganhar força no terreno. Esta noite, algumas das pessoas próximas de Vieira nestes últimos tempos deram “luz verde” à difusão da ideia de que a candidatura às eleições de outubro era uma inevitabilidade, mesmo que não tivesse ainda uma data definida para ser oficializada. Objetivo? Colocar ainda mais pressão sobre Rui Costa, que com o antigo líder na corrida perde espaço e margem para poder ambicionar a uma recandidatura capaz de ganhar as eleições.

Vieira não gostou de tomar conhecimento de uma reunião por vídeoconferência onde foi colocada em cima da mesa a possibilidade de ser expulso de sócio (o que obrigaria depois ao tal comunicado emitido pela Direção para explicar as notícias surgidas em público), da mesma forma como não tinha gostado de saber que estavam a ser tomadas medidas em termos internos para o afastar ao máximo do sufrágio eleitoral. Pelo balanço dos quatro anos com Rui Costa no poder e como todas as movimentações têm um propósito, decidiu espalhar a ideia nos bastidores de que iria mesmo avançar. Por “resposta”, também por estratégia.

Entre as muitas alterações feitas na recente revisão estatutária finalizada e aprovada pelos associados, um dos pontos importantes tem a ver com o aparecimento da figura da segunda volta no caso de não haver uma maioria absoluta nas primeiras eleições. Pode parecer um pormenor, é tudo menos isso. Os insucessos que sobretudo o futebol foi somando a par das contas apresentadas pelo clube e pela SAD fizeram com que todos os nomes de “rutura” ganhassem um espaço natural nesta corrida mas com a nuance de haver a possibilidade de alguma dispersão de votos perante as listas já confirmadas. No polo oposto, a entourage de Vieira acredita que, mesmo com as Casas do Benfica sem os votos que tinham, o que funcionava como uma “muleta” importante em termos de adesão, existe margem para chegar a uma segunda volta e, aí, ser mais forte numa luta a dois. Questão? Terá de disputar o eleitorado de Rui Costa e de um “vieirismo”.

“É percetível pelo teor do comunicado e de notícias e comentários públicos que o envolveram, que eu sou o visado – no limite – para tramitar um processo que culmine na minha expulsão de sócio do Benfica. É neste contexto que venho manifestar, publicamente, a minha indignação e revolta. Faço-o apenas hoje porque respeitei o momento competitivo que a equipa profissional de futebol protagonizou no Campeonato mundial de clubes e que terminou nos oitavos de final da competição. Faço-o como sócio a quem foi atribuída a distinção honorífica de ‘Águia de Ouro’, mas sobretudo na defesa de mais de 20 anos de trabalho e conquistas, incontornáveis e inesquecíveis, em prol do Benfica. Jamais permitirei ser usado como argumento expiatório de sucessivos fracassos desportivos e perdas patrimoniais e de credibilidade, que são a distinção que esta Direção, em final de mandato, tem para exibir. Ao contrário do que se observa no presente, posso invocar uma ‘obra’ reconhecida pelos benfiquistas; devolvi, em conjunto com uma equipa de trabalho competente e coesa, a respeitabilidade financeira, institucional e desportiva ao Benfica. Atributos que voltam a estar em dúvida, nomeadamente com processos como este”, frisou Vieira em comunicado.

“O processo de inquérito em causa é injusto e ilegal, desde logo pela longevidade dos factos, sem que nestes mais de cinco anos alguém me tenha questionado, interpelado, denunciado ou responsabilizado. Todos compreenderão que este processo é uma autêntica ‘fuga para a frente’! Fuga às responsabilidades, ao escrutínio da má gestão e ao debate esclarecido sobre o futuro do Benfica (…) Aos milhares de sócios que me têm manifestado apoio e solidariedade, a partir de diversos pontos de Portugal e do Mundo, agradeço e afirmo que saberei estar à altura do complexo momento que atravessamos e sei o contributo que posso dar para responder a mais este desafio, como sempre fiz”, acrescentou, sem nunca falar de eleições.

Vieira não falou no sufrágio, Vieira deixou nas entrelinhas o que pensa sobre o sufrágio. Vieira não disse que ia avançar em definitivo, Vieira foi tendo quem confirmasse por ele que era definitivo que ia avançar. Agora, é tudo uma questão de tempo. Com ou sem recandidatura de Rui Costa (que estava tentado a concorrer antes do Mundial de Clubes e da “confirmação” de Vieira na corrida), o antigo presidente está disposto a avançar e só mesmo algo muito forte poderá fazer com que recue na ideia, também por entender que o Benfica vai num rumo que não augura o futuro que desejava. Ainda assim, tudo tem um propósito e a maneira como escolheu este dia para se posicionar em termos eleitorais tem muito de estratégia por trás, algo que se refletiu também nas outras candidaturas que, há duas semanas, tinham esse cenário preparado.