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▲Volta a França arranca este sábado e termina no dia 27 de julho

AFP via Getty Images

▲Volta a França arranca este sábado e termina no dia 27 de julho

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A mudança de treinador, o aumento da explosão e uma temporada de sonho: o melhor João Almeida pode chegar ao pódio do Tour?

São 3.338 os quilómetros que separam Lille de Paris. Nas próximas três semanas há muito mais em jogo do que uma mera camisola e João Almeida parte como uma das figuras deste Tour. Pódio é possível?

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O 112 é o número para emergências, o 112 é também um número que aponta para mudanças e para a necessidade de criar novas oportunidades. São muitas as perspetivas que podemos tirar de um determinado número, neste caso aquele que assinala, a partir deste sábado, nova edição da Volta a França, a corrida que é muito mais do que uma corrida. Desde há várias décadas que a Grande Boucle entra em casa dos portugueses através da televisão, primeiro através do serviço público, a RTP, e, mais tarde, através das transmissões integrais do Eurosport. É através do Tour que muitos espectadores têm contacto com as esplendorosas paisagens de França ou com factos culturais que, de outra forma, não seriam tão fáceis de conhecer. A transmissão de um desporto pode ser mais do que isso, e a Volta a França prova-o na perfeição.

No que respeita à vertente desportiva, faltam poucas horas para os 184 corredores se fazerem à estrada num Tour que tem tudo para ser dos mais emocionantes dos últimos anos. É certo que a luta se vai cingir ao braço de ferro entre os galácticos Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard – o que, só por si, já é um grande aperitivo –, mas também é certo que, pela primeira vez nas últimas três edições, o esloveno e o dinamarquês partem para a corrida francesa 100% aptos, sem qualquer lesão a marcar a sua preparação. Para além dos vencedores das últimas cinco edições, há Remco Evenepoel, Primoz Roglic e… João Almeida. O português é o único desta lista que não tem o estatuto de líder, mas o facto de estar a viver a melhor temporada da sua carreira permite alimentar o sonho português. 46 anos depois do bis de Joaquim Agostinho, poderá Portugal regressar ao pódio do Tour? A estrada responderá.

epaselect epa11490705 UAE Team Emirates riders and staff lift Yellow Jersey and Tour de France overall winner Slovenian rider Tadej Pogacar in celebration on the podium after the 21st and final stage of the 2024 Tour de France cycling race over 33km Individual time-trial (ITT) from Monaco to Nice, 21 July 2024.  EPA/SEBASTIEN NOGIER

▲ Tadej Pogacar vai lutar para conquistar a Volta a França pela quarta vez

SEBASTIEN NOGIER/EPA

Estrada essa que apresenta um percurso clássico e que promete animar as próximas três semanas, com a organização a “repescar” algumas das montanhas mais míticas da década de 80. Para além disso, a ASO decidiu recuperar o mítico Mont Ventoux e colocou-o no final de uma das 21 etapas, e há ainda as montanhas que causaram as últimas grandes quebras de Pogacar, com o Col de la Loze, palco do célebre “I’m gone. I’m dead” à cabeça. Será por aí, com uma inevitável vantagem psicológica, que o líder da Visma-Lease a Bike conseguirá destronar o homólogo da UAE Team Emirates-XRG? O traçado old school, com os 3.320 quilómetros a serem percorridos na totalidade em território francês – algo que não acontecia desde 2021 –, logo dirá.

Um Tour rompe-pernas, com história e a recordar os duelos de Pogacar e Vingegaard

Depois de, nas últimas edições, ter partido de Florença (Itália), Bilbau (Espanha) e Copenhaga (Dinamarca), o Tour está de regresso ao norte de França e a Grand Départ deste ano terá lugar em Lille, palco integral da primeira etapa. Apesar de os primeiros 185 quilómetros estarem longe de serem plano, perspetiva-se que a camisola amarela seja entregue a um sprinter, algo que não acontece desde 2020, com Alexander Kristoff. Contudo, ao segundo dia, a camisola amarela deverá mudar de nome, com a tradicional chegada a Boulogne-sur-Mer a favorecer os puncheurs. A terceira etapa é a mais plana da primeira semana, prevendo-se uma chegada em pelotão compacto.

A partir daí, o pelotão regressa aos terrenos verdejantes e montanhosos da Normandia, região altamente ligada à história, em particular à Segunda Guerra Mundial. Por entre localidades que, no século passado, tiveram de ser reconstruidas, a quarta etapa não é muito diferente da segunda, destacando-se a passagem pela subida Jacques Anquetil, em homenagem ao ciclista francês que venceu oito Grandes Voltas. Segue-se a primeira grande batalha entre os homens da geral, com o contrarrelógio de Caen a ditar as primeiras diferenças substanciais. Ao sexto dia, os ciclistas despedem-se da Normandia numa etapa de sobe e desce que promete incerteza. Quatro anos depois, o pelotão vai voltar a escalar o íngreme Mûr-de-Bretagne e perspetiva-se que a lute volta a ser entre Mathieu van der Poel, Pogacar e Roglic.

O segundo fim de semana de competição chega com mais duas etapas para os sprinters, com as chegadas a Laval, terra natal de Jacky Durand, e Châteauroux, agora também denominada de “Cidade Cavendish”. Como não podia deixar de ser, o Tour vai voltar a aproveitar o Dia da Bastilha para animar a corrida, estendendo a primeira semana até à décima etapa, que marca o início da alta montanha, com mais de 4.500 metros de desnível positivo acumulado. Será, certamente, uma das etapas mais importantes desta edição. Após o primeiro dia de descanso que, ao contrário do que é habitual, será na terça-feira, o pelotão desloca-se para Toulouse, numa etapa de transição antes da entrada nos Pirenéus. Ainda assim, os cenários são diversos perante um final tão armadilhado.

Com uma segunda semana bem mais curta, a organização decidiu não desiludir e impôs a dureza desde cedo. E nada melhor do que colocar o regressado Hautacam ao 12.º dia. É a primeira grande chegada em alto desta edição e o palco onde, em 2022, Vingegaard ganhou mais de um minuto a Pogacar. Segue-se o segundo e último contrarrelógio, desta feita em formato crono-escalada. Em Peyragudes, o destino volta a cruzar-se com Jonas e Tadej, tendo sido ali que, em 2022, o esloveno bateu o dinamarquês. O cenário é diferente e, apesar de não ser das subidas mais duras, será palco de parte das decisões deste Tour. O terceiro sábado de competição chega com uma etapa bastante louca, com Tourmalet, Aspin, Peyresourde e Superbagnères na ementa, a lembrar o Tour de 1986, em que Bernard Hinault atacou o colega Greg Lemond e acabou por perder quase cinco minutos. Desde 1989 que a Grande Boucle não passa por Superbagnères, dado que as pontes sobre o Rio Pique não tinham resistência suficiente para aguentar a caravana do Tour. Com as intervenções dos últimos anos, a 14.ª etapa é a segunda com mais acumulado desta edição: 5.020 metros.

A segunda semana chega ao fim com uma etapa de transição entre os Pirinéus e os Alpes, numa dia com seis contagens de montanha que deverá afastar os sprinters da discussão e permite uma rara oportunidade para a fuga. Depois do último dia de descanso… o Mont Ventoux. Numa etapa unipuerto, o Gigante da Provença garante espectáculo e promete ser um sério problema para os corredores. Foi ali que, em 2021, Vingegaard descarregou Pogacar e se mostrou ao mundo pela primeira vez. A 17.ª etapa deverá ser a última oportunidade para os sprinters que conseguirem resistir, antecedendo o Col de la Loze – o ponto mais alto desta edição (2.304 metros) –, num dia que tem ainda Madeleine e Glandon. É a etapa mais dura desta edição, com 5.500 metros de desnível acumulado, e poderá rematar a decisão deste Tour. Foi em La Loze que o esloveno protagonizou, em 2023, o célebre “I’m gone. I’m dead”, mas desta vez a subida será feita pela vertente oposta, que é menos exigente e mais constante.

Depois do dia mais duro, a organização não poupa os corredores, com o último fim de semana a começar com mais de 4.500 metros acumulados e um final em La Plagne, subida mítica dos anos 80 e que não é percorrida desde 2002. Deverá ser o último dia a sério desta Volta a França. O penúltimo dia traz mais cinco contagens de montanha e incerteza, dado que pode servir para a fuga, como para os sprinters que conseguirem ultrapassar a dureza inicial. Por fim, a mítica chegada aos Campos Elísios que, este ano, foi reformulada e deixará de ser palco dos homens mais rápidos. A organização decidiu aproveitar a subida de Montmartre, que foi percorrida na prova de fundo dos Jogos Olímpicos de 2024, e integrou-a três vezes no traçado final. A dureza e o empedrado prometem engalanar uma etapa repleta de brio e que, em último caso, pode ser importante para a geral.

Tadej vs. Jonas, Emirates vs. Visma e um duelo a três pela verde

Seja pela geral, pelos gregários, pela luta por etapas ou pela qualidade dos sprinters, a Volta a França está uns furos à frente de toda a concorrência. No que respeita a esta última categoria, é certo que, ao contrário de outras edições, este percurso pode não ser muito favorável aos homens mais rápidos e pesados do pelotão que, inevitavelmente, terão de sofrer nas etapas mais inclinadas. Ainda assim, até por aqui se vê a qualidade desta 112.ª edição. Jonathan Milan, Jasper Philipsen, Tim Merlier… Podíamos ficar por aqui, com os três melhores sprinters da atualidade, mas ainda há a apontar os nomes de Biniam Girmay (vencedor de 2024) e Arnaud de Lie. O embate entre os três primeiros será, certamente, um dos pontos altos desta edição, mas não se podem descartar todos os outros.

Quanto à luta pela classificação geral, João Almeida é, incontornavelmente, um dos nomes a ter em conta. Depois de se ter estreado em 2024 de forma muito positivo, ao revelar-se como o principal gregário de Pogacar e a terminar com um honroso quarto lugar, o Bota Lume chega ao Tour deste ano com o mesmo estatuto, mas num registo bastante diferente. Almeida está a realizar, em 2025, a melhor temporada da carreira, tendo vencido as Voltas ao País Basco, à Romandia e à Suíça. Os resultados permitem sonhar e – pelo menos para os portugueses – a participação de João Almeida não se resume a estar apenas ao lado do esloveno quando o terreno empina.

Incontornavelmente, a luta resume-se a Jonas e Tadej. Ao olhar para as prestações recentes, poderia dizer-se que Pogacar era o principal favorito, dado que dominou o Critério do Dauphiné como quis, com uma grande superioridade sobre o dinamarquês. Ainda assim, numa prova como o Tour, não devem existir favoritos à partida, até porque a altitude, o acumulado e as longas subidas jogam a favor de Vingegaard, que até tem evoluído desde a violenta queda no País Basco em 2024, apesar de não conseguir acompanhar o ritmo do esloveno. E é precisamente por essa queda que se explica o último ano de Jonas, que esteve à beira da morte e apresenta-se agora como um ciclista mais emotivo e que não se coíbe de demonstrar a sua fragilidade.

Em termos globais, Emirates e Visma apresentam dois dos blocos com maior qualidade dos últimos anos e prometem uma feroz luta nas estradas gaulesas, principalmente na alta montanha. A apoiar Vingegaard, a formação neerlandesa traz Tiesj Benoot para a média montanha, Edoardo Affini e Victor Campenaerts para assumir o pelotão na fase de rolar, e Matteo Jorgenson, Sepp Kuss e Simon Yates para a alta montanha. Sobra Wout van Aert, que servirá para qualquer tipo de terreno. Já a equipa dos EAU conta com Almeida, Adam Yates, Marc Soler e Pavel Sivakov para a montanha, com Jhonatan Narváez a liderar a equipa no início das subidas e Nils Politt e Tim Wellens para comandarem nas fases planas. Na teoria, a Visma até parece ter um melhor alinhamento, mas o fator João Almeida terá de ser tido em conta, já que só um super Kuss parece aguentar tanto tempo ao lado do seu líder.

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▲ João Almeida volta a estar no Tour ao lado de Pogacar

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Para além dos nomes já mencionados, Florian Lipowitz apresenta-se como a segunda (primeira) escolha da Red Bull-Bora-hansgrohe que, apesar de estar longe do poderio dos rivais, conta com um alinhamento interessante, com Aleksandr Vlasov e Laurance Pithie. Ben Healy (EF Education-EasyPost), Felix Gall (Decathlon AG2R La Mondiale), Geraint Thomas (Ineos Grenadiers), Mattias Skjelmose (Lidl-Trek), Romain Grégoire e Guillaume Martin (Groupama-FDJ), Enric Mas (Movistar), Ben O’Connor e Maurco Schmid (Jayco AlUla), Santiago Buitrago (Bahrain-Victorious) e Michael Storer (Tudor) serão nomes a ter em conta para o top 10. Menção honrosa para Van der Poel e Nelson Oliveira, o outro representante português, que parte para o seu nono Tour.

João Almeida: a mudança de treinador, o aumento da explosão e o professor que dá confiança

Muitas são as dúvidas em torno da presença de João Almeida nesta Volta a França, em parte geradas pelos resultados do português na presente temporada. Ponto assente é que, por entre a forma nunca antes vista e a candidatura ao terceiro lugar do pódio, o objetivo inicial – e, quiçá , único – de Almeida é levar Tadej Pogacar à vitória. É essa a principal meta da Emirates, que confia no Bota Lume para ser o principal escudeiro do esloveno. A missão não é fácil, mas João demonstrou estar a altura em 2024 e, atualmente, não há ninguém melhor no pelotão para servir de “escudeiro”. Até esta Volta a França, o português era o sexto melhor na última atualização do ranking da UCI, perfilando-se como o quarto melhor da temporada e o segundo melhor voltista dos últimos três anos, apenas batido por Jonas Vingegaard.

O ano de 2025 trouxe várias mudanças nas corridas iniciais de Almeida. A primeira prestação aconteceu na Volta à Comunidade Valenciana, prova que terminou em segundo na geral, atrás de Buitrago. Seguiu-se um 16.º lugar na estreia na Figueira Champions Classic e novo segundo lugar numa prova por etapas, a Volta a Algarve, onde também se estreou. No Paris-Nice, o português levantou os braços pela primeira vez, num final em La Loge des Gardes em que “descarregou” Vingegaard, depois de já o ter feito na Foia. No final, foi sexto na geral. A partir daí seguiram-se as três vitórias em três das sete corridas por etapas mais importantes do calendário mundial, juntando-se ainda cinco vitórias em etapas e dois triunfos na classificação por pontos, no País Basco e na Suíça.

O Pantera botou lume e mostrou quem é o (novo) João Almeida: ciclista da Emirates é o primeiro português a vencer a Volta ao País Basco

Nesse sentido, o Observador esteve à conversa com João Correia, agente de João Almeida há nove anos, acompanhando o atleta das Caldas desde “o primeiro ano de júnior”, quando este fazia a transição definitiva para deixar o ciclismo amador. Ainda assim, o contacto de Correia com Almeida surgiu antes, por intermédio de Matxin, atual diretor desportivo da Emirates, e José Poeira, o selecionador nacional. Quanto à carreira do Bota Lume, o agente destacou os seus grandes resultados “desde o primeiro ano profissional”. “O João sempre foi o ciclista que, muitas vezes, quase se esquece dele. Todos os anos ganha corridas. Sempre foi um corredor muito regular. Este ano, por uma razão ou outra, está mais consistente e a ganhar mais. Há muitos poucos ciclistas que têm tantos top 10 em grandes corridas por etapas como ele. Tirando as edição do Giro [2022] e da Vuelta [2024] em que não acabou devido à Covid-19 e uma ou outra corrida, esteve sempre nos primeiros 10. Há muitos poucos corredores no pelotão com a consistência que ele tem. A consistência vem do seu trabalho e talento”, sublinhou.

O início da temporada passada terá sido o ponto de viragem de João Almeida – e da Emirates –, que optou por trocar Iñigo San Millán por Javier Sola, o novo treinador do português. “Acho que foi importante. Ele estava muito contente com o treinador que tinha, mas às vezes os ciclistas precisam de um estímulo novo. Nós e ele sentíamos que tinha de se mudar alguma coisa, especialmente ao nível da explosão, que ele tinha perdido. Fizemos a mudança para o Javier Sola e começámos a integrar o seu primeiro treinador, o professor Amândio Santos da Universidade de Coimbra. O professor começou a acompanhá-lo em colaboração com o Javier e foi uma coisa muito importante porque o professor já o conhece há muito tempo, tem uma certa confiança com ele e traz-lhe uma certa tranquilidade”, assumiu, frisando que “a parte explosiva está melhor” e deriva “da maior confiança que ele tem em si”, para lá “da maneira como começou a assumir a responsabilidade dentro da corrida e começou a atacar”.

“A Volta à Suíça foi uma corrida muito diferente, porque ele não tinha opção que não fosse atacar, e ele viu que consegue fazer uma diferença muito grande quando arrisca e se mete ao ataque. Ele correu de uma maneira que geralmente não corre porque tinha que ir buscar três minutos e meio. No ano passado também fez um grande contrarrelógio e este contrarrelógio era dado aos seus talentos, a subir e com 30 minutos. Uma das coisas que o João sempre teve de muito bom é que não se cansa ao longo das corridas. O seu poder de recuperação é excecional. Quando se chega ao último ponto da Volta à Suíça, que desgasta muito, e tens as melhores pernas… Ele fez uma diferença muito grande, com um contrarrelógio excecional, mas acho que dentro das possibilidades e do que ele já mostrou no passado”, analisou João Correia.

Quanto a esta edição do Tour, o empresário afirmou que João Almeida “está a encarar bem e com o papel que tem na equipa, que é suportar o líder”. “Está completamente focado em executar esse trabalho. Acho que o João tem todas as possibilidades em fazer o seu trabalho e, ao mesmo tempo, estar nos primeiros três. O ano passado fez quarto e este ano tem um papel similar. A corrida depende muito da primeira semana, que será muito sinuosa. A partir daí temos de ver como eles estão porque há sempre surpresas no Tour”, acrescentou. Para a reta final da temporada, falta confirmar a presença na Vuelta, enquanto que o Mundiais surgem com um ponto de interrogação. “Normalmente o João acaba a época mais cedo, especialmente quando faz duas Grandes Voltas. O objetivo é a Vuelta e depois vê-se o que será o calendário. O Mundial é importante, mas temos de ver se ele se sente em condições para ir. Ainda estamos longe dessa decisão”, concluiu Correia.

Do cadete que deixava os mais velhos para trás ao atleta que “tem as características de quem vai ganhar uma Grande Volta”

José Poeira é o selecionador nacional desde 2001 e, por entre os milhares de corredores que trabalharam consigo nos diversos escalões do ciclismo nacional, João Almeida acabou por ser um dos destaques, desde cedo. “Conheci-o num estágio. Ele vinha do BTT e começou a vir para a estrada na equipa do Cartaxo, como cadete de primeiro ano. Começou a fazer provas de estrada a meio da época. Na Volta a Portugal reparei que havia um tal de João Almeida que nunca tinha ouvido falar. Fui pesquisar e falei com o diretor desportivo da sua equipa. Já tinha o estágio de juniores e cadetes fechado para a seleção nacional com 12, mas decidi convocá-lo. Ele fez uns testes, que foram acima da média. Na subida do Moinho do Pisco, com seis quilómetros a 6% de inclinação, disse-lhe para atacar e os juniores ficaram a olhar uns para os outros. Só no alto é que o Rui e o Ivo Oliveira, que eram juniores, o apanharam”, recordou ao Observador.

A partir daí, Almeida transformou-se paulatinamente no corredor que conhecemos hoje. “No ano a seguir ganhou as corridas quase todas. Em sub-23, na Volta a França do Futuro, fez sexto, mas foi relegado para sétimo por causa de uma água. Essa prova foi ganha pelo Pogacar. O João já estava no lote de corredores que eram muito bons e agora são de elite. O João tem margem de progressão, é muito regular e adapta-se a todas as situações. Acho que ele um dia vai ganhar uma Grande Volta e até já podia ter sido o ano passado [Vuelta]. Tem 26 anos e está a progredir bastante. A maturidade, a experiência e o acreditar que é capaz tornaram-no mais forte em todos os aspetos”, acrescentou.

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▲ João Almeida destacou-se na Volta a França do Futuro ganha por Tadej Pogacar

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Quanto ao Tour, Poeira também partilha da opinião de que o pódio é um resultado plausível, embora dependa de vários fator. “Muita coisa vai acontecer quando chegar a hora de trabalhar. Se os adversários estiverem fortes e ele tiver de chegar à frente e trabalhar… Acredito que ele fique apenas com a parte final do trabalho. Quando ele mete o seu ritmo, ‘afoga’ os adversários. Não há vitórias e resultados antecipados e temos de esperar para ver. A perspetiva para trabalhar e fazer pódio está aberta. Se tivesse livre, se calhar havia mais certeza, mas assim está dependente do trabalho que tem de fazer e das ordens que lhe forem dadas”, assumiu, sublinhando que Almeida “está mais sólido, consistente, os adversários têm mais respeito e, sem atacar muito, consegue descarregar os adversários”. “O João tem as características de quem vai ganhar uma Grande Volta: sente-se bem no contrarrelógio, está muito bem na montanha e agora vimos que está a descer muito bem. Este ano vai continuar a dar alegrias e de 2025 acho que ainda vai ser melhor”, partilhou.

Contador considera que Almeida “está num momento de grande maturidade” e “é claramente candidato” sem Pogacar e Vingegaard

Alberto Contador correu a Volta a França em dez ocasiões, tendo levado o troféu para casa em três ocasiões (2007 e 2009), embora em 2010 tenha acabado desclassificado por doping. Para o Pistolero, esta edição do Tour deverá ficar resolvida antes da reformulada chegada a Paris, dado que “há dureza suficiente” ao longo de toda a prova. “O que é certo é que se trata de um novo cenário, diferente, e é uma última oportunidade. Já vimos nos Jogos Olímpicos como esse percurso teve um papel muito importante e, sem dúvida, é mais uma carta que qualquer corredor que queira vencer terá à sua disposição. A mim agrada-me. Acho que as etapas completamente planas, por vezes, podem tornar-se um pouco mais aborrecidas. Quando colocas subidas curtas perto da meta, isso abre sempre a possibilidade de algum corredor mais ousado tentar surpreender, tentar partir a corrida. Além disso, ajuda a reduzir um pouco a tensão nos quilómetros finais, porque o grupo fica mais selecionado e isso pode evitar quedas mais massivas. Gosto dessa opção”, explicou o espanhol ao Observador, numa conferência organizada pelo Eurosport.

"Se Pogacar e Vingegaard não estiverem em prova, João Almeida é claramente um candidato à vitória, especialmente se estivermos a falar do Giro ou da Vuelta. É um corredor muito sólido, está num momento de grande maturidade. O único ponto é que tem de lhe ser dada a oportunidade de lutar por isso."
Alberto Contador, antigo ciclista e comentador do Eurosport

Ainda sobre o percurso, Contador considera que este “favorece mais os trepadores”. “Temos de ter em conta que o contrarrelógio tem apenas 33 quilómetros – é curto, se compararmos com o que se fazia há alguns anos. E depois o outro é uma cronoescalada, não é? Se pensarmos nas chegadas em alto nos Pirenéus, no Mont Ventoux e nas subidas nos Alpes, acredito mesmo que o percurso favorece os escaladores. Ainda assim, no ciclismo atual é fundamental seres muito completo – forte tanto no contrarrelógio como na montanha”, acrescentou. Deste modo, o antigo ciclista aponta Pogacar como o “principal favorito, por mérito próprio”. “Venceu as duas últimas edições, e com grande superioridade. Além disso, vimos no Dauphiné que está numa forma tremenda. Para mim, é o homem a abater”, sublinhou.

Relativamente a João Almeida, Contador realçou que, até ao momento, “ainda não se viu até onde ele pode chegar com liberdade final”, por conta de “estar na Emirates e ter de trabalhar para o Pogacar”. “Mas também é certo que, há pouco tempo [em 2023], o Adam Yates conseguiu subir ao pódio do Tour mesmo estando a trabalhar para o Pogacar. Portanto, vamos ter de esperar para ver como corre a corrida. Vimos um João Almeida fortíssimo na Volta à Suíça. Agora é ver se consegue manter essa forma no Tour”, acrescentou. Questionado sobre até onde é que o português pode chegar nesta 112.ª edição, Contador reiterou que, “se Pogacar e Vingegaard não estiverem em prova, ele é claramente um candidato à vitória, especialmente se estivermos a falar do Giro ou da Vuelta”. “É um corredor muito sólido, está num momento de grande maturidade. O único ponto é que tem de lhe ser dada a oportunidade de lutar por isso”, concluiu.

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