“Isto não foi um erro. Foi uma cascata de falhas que era possível prevenir”. É esta a conclusão arrasadora do relatório elaborado pelo Senado norte-americano sobre a tentativa de assassinato contra Trump, que aconteceu exatamente há um ano, e que conclui que o Serviço Secreto dos EUA falhou repetidamente na prevenção do ataque e no reforço de segurança que devia ter acontecido para proteger o então candidato presidencial.
O relatório, elaborado por uma comissão presidida pelo senador republicano Rand Paul, detalha “falhas do Serviço Secreto” e anuncia desde o primeiro parágrafo que vem revelar, após ter conduzido 17 entrevistas e analisado 75 mil páginas de documentação dos serviços, episódios de “negligência indesculpável, falhas nas comunicações, fraquezas sistémicas e responsabilização limitada” que fizeram com que a tentativa de assassinato contra Trump a 13 de julho de 2024, durante um comício na Pensilvânia, “quase fosse bem sucedida”.
O relatório fala num “padrão perturbador de negação, má gestão, e sinais de alerta falhados — alguns dos quais aconteceram apenas minutos antes de os tiros terem sido disparados”. No documento, explica-se que o atirador, que acabaria por atingir quatro pessoas (incluindo Trump, numa das orelhas) e matar o bombeiro Corey Comperatore antes de ser morto por um sniper, já tinha sido sinalizado como “suspeito” ao Serviço Secreto pelo menos 25 minutos antes de ter começado a disparar a partir de um telhado.
“O que aconteceu em Butler, Pensilvânia, não foi só uma tragédia — foi um escândalo. O Serviço Secreto dos EUA não agiu sobre informações credíveis, não se coordenou com as autoridades locais e não preveniu um ataque que quase tirou a vida ao então candidato”, escreve Rand Paul. Apesar disto, “ninguém foi despedido”, lamenta, notando que só se sabe a “pouca disciplina” que foi exercida no Serviço Secreto após o sucedido porque obrigou a agência a divulgar essa informação.
“Isso é inaceitável. Isto não foi um erro de perceção isolado. Foi um completo falhanço de segurança a todos os níveis — seguido por indiferença burocrática, uma ausência de protocolos claros, e uma recusa chocante a agir sobre ameaças diretas”, continua, reclamando que os envolvidos sejam “responsabilizados” e que sejam implementadas reformas para que isto “nunca mais aconteça”.
Entre as conclusões do relatório lê-se que o Serviço Secreto negou “vários pedidos” para o reforço de meios humanos e “recursos” para proteger Trump durante a campanha; não “despediu uma única pessoa” entre as envolvidas no planeamento e execução do comício de Butler e só castigou seis pessoas, algumas das quais só receberam o castigo disciplinar este mês (e em dois casos, diz o relatório, tratou-se de um “castigo reduzido” em relação ao que tinha sido inicialmente recomendado); e a antiga diretora, Kimberly Cheatle, prestou “testemunhos falsos” no congresso norte-americano ao dizer que não tinham sido negados mais meios de proteção para o comício em causa.
Além disso, prossegue o relatório nas suas conclusões, não havia contra-snipers presentes num comício anterior, a 9 de julho, apesar de a liderança da agência ter recebido um briefing que autorizava a sua presença; havia responsabilidades “mal definidas” para agentes do Serviço Secreto em posições “avançadas”; não foi comunicada informação “crucial” sobre o suspeito, no dia 13 de julho, aos seguranças de Trump, que poderiam tê-lo impedido de subir ao palco; não foi partilhada informação sobre o suspeito sobre os agentes que estavam a tratar da segurança deste evento em concreto, e existiu uma “falta de coordenação e comunicação grave” entre o Serviço Secreto e as autoridades locais durante o comício.
Num comunicado divulgado este domingo e citado pelo Washington Post, o atual diretor do Serviço Secreto, Sean Curran, diz que a agência vai continuar a cooperar com o Senado e que após este ataque, há um ano, “olhou seriamente” para as suas operações e “implementou reformas substanciais” para corrigir os erros que aconteceram naquele dia.