Não fosse Issam Sartawi ter sido convidado para assistir, e a reunião da Internacional Socialista de 1983 nem sequer tinha acontecido em Portugal.

Estava tudo preparado para que o congresso tivesse lugar em Sydney, mas o primeiro-ministro australiano opôs-se terminantemente à presença de Sartawi, então destacado membro da Organização para a Libertação da Palestina e um dos homens mais próximos de Yasser Arafat, o líder histórico da OLP.

Foi Mário Soares, por sinal autor do convite e, à data, líder do PS e candidato do partido às legislativas, justamente a meio da campanha eleitoral, a resolver a situação: se Sydney não era opção, transferia-se a reunião da organização internacional dos partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas para Albufeira.

Resultado: foi em Albufeira, no dia 10 de abril desse ano, que o observador convidado Issam Sartawi foi executado com um tiro na nuca disparado por um atirador aparentemente só. Ainda de arma em punho e, fintando a polícia estacionada no local, o assassino conseguiu fugir e desaparecer no meio da confusão.

Aconteceu tudo à hora do pequeno-almoço, no apinhado lobby do Hotel Montechoro, onde, por essa altura, se passeavam turistas em fato de banho e alguns dos mais destacados líderes europeus, ao arrepio das mais elementares regras de segurança.

Horas depois, o violento atentado em solo português seria reivindicado pelos terroristas da organização Abu Nidal, uma fação radical dentro do movimento de libertação da Palestina. Issam Sartawi tinha sido condenado à morte e essa sentença tinha sido finalmente executada em Portugal. O seu crime? Ter feito uma tentativa de diálogo com Israel e o Ocidente com o intuito de alcançar a paz.

Na altura, o país ficou em choque com a execução a sangue-frio de um dirigente político internacional em pleno Algarve. Aquilo que ninguém poderia imaginar é que o filme tinha acabado de começar: o braço direito de Arafat tinha sido apenas o primeiro alvo a morrer naquele ano em Portugal às mãos de terroristas internacionais.

Três meses depois desta execução, reivindicada por um dos grupos mais temidos no Médio Oriente na segunda metade do século XX, um comando paramilitar arménio conseguiria não apenas entrar em Portugal sem ser detetado, mas tomar de assalto uma embaixada em pleno centro de Lisboa — e fazer vários reféns.

1983 foi o ano em que os portugueses, que estavam habituados a ver o terrorismo ao longe, no estrangeiro e através da televisão, acompanharam ao vivo e literalmente à porta de casa tiroteios, operações de resgate, explosões e perseguições policiais.

E “1983: Portugal à queima-roupa” recupera esses meses, pela voz de alguns dos intervenientes diretos nos atentados. Como Ângelo Correia, então ministro da Administração Interna; ou Ramiro Santos, o correspondente da Antena 1 no Algarve que conseguiu encontrar, numa sebe dos jardins do Hotel Montechoro, a arma utilizada pelo assassino de Issam Sartawi. Ou até como Abílio Pereira, o agente da PSP acabado de formar que, no terceiro dia de trabalho a solo, surpreendeu os terroristas arménios que estavam a preparar-se para tomar de assalto a Embaixada da Turquia em Lisboa — e acabou a ser atingido com cinco tiros à queima-roupa.

No total, os dois atentados, cometidos com violência extrema no espaço de pouco mais de três meses, fizeram oito mortos. Serviram para fazer entrar em ação pela primeira vez o Grupo de Operações Especiais (GOE), a força de elite da PSP que estava há meses em formação e treino intensivo nos arredores de Lisboa. E, acima de tudo, mostraram que Portugal não estava preparado para prevenir ou responder de forma eficaz a este tipo de ameaças externas.

O novo Podcast Plus do Observador chama-se “1983: Portugal à queima-roupa” e revela a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e uma execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente — tudo no espaço de apenas três meses.

É uma série para ouvir em seis episódios que tem narração da atriz Victoria Guerra  e banda sonora original composta pelos Linda Martini. As entrevistas e o guião são do jornalista Vasco Maldonado Correia e a sonoplastia é de Pedro Oliveira.

A estreia está marcada para esta terça-feira, dia 22 de julho, mas já pode ouvir o trailer aqui:

Trailer “1983: Portugal à Queima-Roupa”. Estreia a 22 de julho

Como habitualmente, a cada terça-feira sai um novo episódio — mas se é assinante standard ou premium do Observador não vai ter de esperar para ouvir a série completa, que vai estar disponível logo no dia de estreia, no site do jornal.