As filas mais na parte de baixo preparadas, o relvado novo a ser tratado, plasmas e colunas de som extras na zona da tribuna, os ecrãs gigantes e as linhas led que ficam entre anéis todas ligadas com apenas uma imagem e duas palavras: Benfica District. De um dos lados funcionários dos mais diversos departamentos do clube e da SAD, do outro vários convidados, ao centro as principais caras da apresentação com jogadores que marcaram várias décadas da história do futebol dos encarnados. Tudo se passava no Estádio da Luz mas a Catedral era apenas um dos pontos do lançamento de um projeto que promete mudar por completo toda a envolvência do local. Era dia de apresentar “um projeto à Benfica” que vai mudar mais do que o Benfica.

Três pavilhões (um com 10.000 lugares), teatro, nova praça, “outra” Luz: Benfica District, “o mais ambicioso projeto previsto para Lisboa”

Rui Costa, uma espécie de chefe de cerimónia na condição de presidente da formação da Luz, foi o primeiro a tomar a palavra. O vento que algumas vezes se fazia sentir ainda colocou algumas folhas do pequeno púlpito a voar mas o líder dos encarnados e recandidato à presidência do clube sabia bem o que dizer numa fase em que qualquer medida, qualquer ideia ou qualquer projeto é visto com olhos diferentes, entre quem acredita ser apenas algo estruturante para o Benfica e quem considera que são promessas eleitorais a pensar no sufrágio de outubro. Essa foi uma das notas predominantes do discurso: um conceito que está acima de qualquer eleição ou candidatura e que, em termos práticos, faz questão de ouvir os sócios e adeptos.

“Hoje é um dia importante para o Benfica, para a cidade de Lisboa, para o país e para o universo benfiquista, para sócios e adeptos e para todos os amantes de grandes experiências desportivas, culturais e comerciais, em Portugal e no mundo. É um projeto à Benfica. Temos vindo a trabalhar para propor e concretizar um projeto de transformação do principal território do clube, em linha com as melhorias que temos concretizado no Estádio, mas com uma renovada ambição. Relembro o muito que já fizemos nestes quatro anos. Implementámos as linhas digitais nos três anéis do estádio, dois novos ecrãs gigantes no interior e um outro na Porta 18, um novo sistema sonoro e nova iluminação, a que se soma o aumento da lotação do estádio, já em curso, para 70.000 pessoas. Mas, agora, é o início. O início da criação de toda uma nova centralidade, um Benfica District, bem à dimensão do nosso grande clube”, começou por apontar Rui Costa.

“O clube encontra-se já a trabalhar numa solução, no âmbito deste projeto, com o objetivo de aumentar a capacidade do estádio para 80.000 pessoas, por forma a dar resposta à imensa procura de Red Pass por parte dos nossos associados. É um projeto ambicioso e estratégico, a pensar nos sócios, nos adeptos e no clube, que pretendemos começar a concretizar de imediato, para criar melhores condições no estádio, para as modalidades, para projetar o Benfica ainda mais no país e no mundo como a grande referência desportiva de Portugal e a tempo de estar concluído para as grandes competições internacionais que o país vai acolher, do Campeonato da Europa feminino em 2029 ao Campeonato do Mundo masculino em 2030. Continuaremos, assim, a melhorar a experiência dentro do Estádio, mas vamos transformar o seu exterior, projetando-o para a modernidade e para uma renovada liderança”, frisou o líder dos encarnados, antes de falar do exterior.

“Este é um projeto que contempla um desejo antigo: toda a fachada do estádio será coberta, nomeadamente com leds, tornando o exterior tão bonito e extraordinário como o seu interior. É também um projeto que integra um pavilhão multiusos com capacidade para 10.000 pessoas, dois pavilhões desportivos cobertos de última geração, com capacidade para 2.500 e 1.500 lugares, adaptáveis para futsal, basquetebol, voleibol, andebol, hóquei patins, entre outras modalidades e uma nova piscina comunitária. Mas vai mais longe, terá um campo de futebol ao ar livre no terraço, uma pista de corrida e lazer, um novo teatro que poderá acolher outros eventos, com capacidade para 500 pessoas e instalações comerciais, hoteleiras e residenciais, que são garante importante para a viabilização e sustentabilidade desta iniciativa”, escalpelizou Rui Costa.

“Este é um projeto estudado e trabalhado para ser sustentável, para reforçar os ativos, para acolher grandes eventos internacionais, sem qualquer impacto na nossa capacidade de investir na dimensão desportiva, nas nossas modalidades, em masculinos e femininos, nos vários escalões, com a ambição vencedora que queremos. Queremos um espaço que seja referência na cidade, no país e no mundo, à imagem do nosso clube. É também esse o sentido de uma nova praça para o convívio de sócios e adeptos, antes e depois dos jogos, que contará com estátua do grande Eusébio mas, também, com uma nova escultura que prestará a devida homenagem e tributo aos nossos campeões europeus”, anunciou entre mais “novidades”.

“O projeto que apresentamos é um sonho à beira de começar a ser realidade mas está aberto ao contributo dos sócios e adeptos para o melhorar, com ideias e sugestões que o tornem ainda mais glorioso. Apelo a todos que participem. Seja no site do projeto que agora lançámos e no qual fizemos questão de contemplar um espaço para esse efeito, seja conhecendo melhor, ao pormenor, todo o projeto, na sala onde iremos expor múltiplos materiais a partir de amanhã. Queremos que seja o mais participado possível. Terminado esse processo, convocaremos uma Assembleia Geral para que os sócios se pronunciem”, referiu.

“Esta é também uma resposta aos desafios e necessidades das modalidades e dos atletas mas uma resposta que não substitui um outro projeto que caminhará em simultâneo com este: a designada Cidade Benfica. Nestes três anos e meio foram muitas as reuniões, muitos os contactos, com entidades públicas e privadas, na tentativa de definir um terreno, próximo do Estádio da Luz, no qual seja viável materializar este sonho. O sonho de juntar, no mesmo local, campos de futebol para a formação, pavilhões para todas as modalidades, pistas para o atletismo, piscinas e uma academia e campo de jogo para o râguebi. Não foi um processo rápido porque encontrar um terreno central, próximo, com a dimensão necessária não é algo que se resolva com um simples estalar de dedos, como por vezes se quer fazer crer. Também sobre isso, sobre a Cidade Benfica, muito em breve teremos boas novidades para apresentar aos nossos sócios e adeptos”, destacou, colocando sempre uma tónica acentuada numa vertente: o investimento não irá afetar a aposta na parte desportiva.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, marcou presença com Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto. DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Estava dado o mote da conferência, que teria depois uma intervenção de Carlos Moedas, líder da Câmara de Lisboa, a falar mais cedo em relação ao alinhamento por motivos de agenda depois do vídeo de apresentação do projeto que já tinha sido conhecido na manhã desta terça-feira. “Este é um momento simbólico para o Benfica e para Lisboa. Um momento de orgulho para o glorioso porque hoje conseguimos ver o futuro mais perto. Um futuro que não está apenas nos pés dos jovens mas que ganha vida na Catedral da Luz. Estou aqui porque tudo o que o Benfica representa para a cidade é a alma da identidade da cidade. Faz parte de Lisboa. Uma instituição centenária que leva a identidade de um povo pelo mundo, que transporta os nossos valores na mística benfiquistas, que enverga o lema do jogo no seu lema. De todos os clubes do mundo, o Benfica é o clube com mais sócios. Um clube assim precisa de infraestruturas adaptadas. Esta é uma nova casa para a nação benfiquista, um marco para a história do glorioso, história que Cosme Damião começou em 1904 e hoje tem um novo capítulo escrito por Rui Costa”, salientou o líder camarário.

“Este é um convite para a cidade se reinventar. Antes havia zonas desvalorizadas, acessos condicionados… É um projeto de modernização para este espaço envolvente ao Estádio da Luz. Isto não é um projeto apenas do Benfica, é também de Lisboa, um projeto que junta três pilares essenciais: o desporto, a cultura e o apostar na sustentabilidade da cidade. Este novo Benfica District irá preparar a Luz para o futuro, para receber eventos de enorme importância. É uma ligação fundamental da nossa visão da cidade. Acreditamos numa Lisboa ativa, numa cidade onde o desporto está no centro. Este projeto não exclui e não divide, une. E hoje, unir, é tão importante no mundo em que vivemos. Une o passado e o futuro, o desporto e a cultura. Que este Benfica District seja um lugar de encontro, de orgulho, onde Lisboa se veja, reconheça e projete para o mundo”, acrescentou, recordando o que se passou em Madrid com o Santiago Bernabéu e em Barcelona com o Camp Nou e também uma viagem a Lisboa em 2016 com o antigo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que quis aproveitar para prestar a sua homenagem a Eusébio no Estádio da Luz.

Praça para sócios pode receber mais de 10.000 pessoas antes e depois dos jogos, estando aberta nos restantes dias

De seguida falou Tom Jones. Com algumas palavras em português a abrir e a fechar, com um discurso todo em inglês com auxílio de slides de Power Point para explicar aquilo que as imagens e os vídeos não podiam explicar. O que trouxe de novo essa parte da Populous com o senior principal do escritório de Londres? Vários pontos e curiosidades que explicam o porquê da aposta neste projeto depois do desenho da Luz.

  • O benchmark feito noutras realidades apontou para o Estádio de Wembley, para o trabalho feito em torno do Etihad Stadium, não só no recinto do Manchester City mas também com a construção ao lado do Co-op Live, uma arena com capacidade para mais de 20.000 pessoas, e para o Kai Tak Sports Park, construído em Hong Kong com várias infraestruturas desportivas, culturais e comerciais;
  • O Benfica District está construído para ter quatro grandes áreas que são conjugadas entre si de forma harmoniosa e mais eficaz a nível de energia, luz e jardins: estádio, fãs, parte comercial e desporto e entretenimento. As asas da águia do emblema foram também utilizadas no desenho de tudo;
  • O Estádio da Luz passará a contar com um quarto anel para libertar mais zonas de hospitality, será fechado na zona de cima por ecrãs e está a ser estudada a melhor forma de aumentar a lotação para 80.000 espectadores. Na parte de fora, o recinto terá leds naquilo que é descrito como activated verticals. Até a própria colocação da estátua de Eusébio foi pensada no enquadramento final;
  • Os três pavilhões que serão construídos, da arena para 10.000 pessoas aos recintos com 2.500 e 1.500 pessoas, têm bancadas que permitem aumentar ou recuar mediante o tipo de espectáculo, desportivo ou de entretenimento, que esteja a ser realizado. A ideia de construir um campo relvado na parte de cima, a par com uma pista de atletismo, foi retirada do projeto em Hong Kong do estudo de mercado feito.

“Estamos perante um terreno de 12,5 hectares onde está inserido o Estádio da Luz. A grande abordagem passou pelo preenchimento de um vazio urbano localizado entre o parque nascente e o estádio. O que se pretendeu fazer aqui não foi um somatório de edifícios mas sim um desenho urbano que fale com a cidade e que crie cidade. Quisemos abrir o Benfica District à cidade. Não é uma intervenção para sócios e adeptos do clube, é uma intervenção para a cidade e para o país. Vamos oferecer um novo centro de vida urbana. Não é um somatório de objetos pousados no território sem sentido”, referiu depois Miguel Saraiva, do escritório Saraiva e Arquitetos, que trabalhou com a Populous em todo este projeto do Benfica District. “Este novo centro de vida urbana dá palco ao que chamamos ‘A cidade dos 15 minutos’, conceito urbanístico que visa a qualidade de vida dos cidadãos a pé ou de bicicleta. É um empreendimento de sustentabilidade assegurada, económica, social e ambiental. Parabéns, é preciso muita coragem para fazer isto”, completou.

Antes do discurso de Margarida Balseiro Lopes, que representou o Governo como ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Nuno Catarino, CFO da Benfica SAD, falou de forma (muito) resumida de toda a parte financeira de um projeto “100% à Benfica e do Benfica”, entre um par de slides de Power Point.

  • O investimento estimado de todo o projeto é de 220 milhões de euros, olhando para o custo de construção do plano apresentado e com os atuais custos de construção em Lisboa;
  • É esperada uma receita adicional de 37 milhões de euros por ano, com uma margem de contribuição avaliada em 24 milhões de euros, que permite tornar o projeto autosustentável porque depois de pagar o financiamento é uma nova fonte de receita para o clube (além da valorização patrimonial);
  • O project finance com financiamento total será feito em 15 anos com casas internacionais que financiaram outros grandes projetos, sendo que no primeiro ano já está a ser solta receita. O clube tentará encontrar os melhores operadores para rendas, pagamentos de espaços e ativação de marcas, numa parte importante para um financiamento que será em grande parte gerado nas áreas comerciais.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Gianni Infantino, presidente da FIFA, deixou uma mensagem de vídeo para o Benfica e para “o amigo Rui Costa”. DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Pegámos nos vários blocos e fomos trabalhar com a Saraiva para ver qual o custo de cada elemento e de ligação de todos. Achamos que é possível executar este projeto num período entre dois a dois anos e meio. Estamos ainda numa fase de consulta, apesar de já termos começado com muito trabalho de campo. Temos ainda muito trabalho para fazer com as entidade financiadoras. Para isto estar pronto em 2029, para o ano temos de já estar a ter a aprovação (…) É uma experiência nova que gera mais tráfego. Depois, temos de procurar os melhores operadores para fazer isto. Haverá uma parte importante de ativação e publicidade. Trazemos as pessoas aqui para elas terem motivos para aqui estar e financiar o próprio projeto. É um projeto autosustentável e não queremos que isto afete a capacidade do Benfica”, frisou Nuno Catarino.

Depois, mais uma surpresa: Gianni Infantino, presidente da FIFA, deixou uma pequena mensagem em vídeo a todos os presentes: “Adoraria estar aí convosco mas quero dar os parabéns a todos pela visão, pela coragem, por tudo isto que sempre esteve no ADN do vosso clube. Grande estádio, grande clube, grande visão. Este projeto fará os adeptos, todos os que amam o futebol e o vosso clube, sentirem ainda mais paixão e emoção. Vocês já têm um estádio icónico, onde se escreveram algumas das maiores páginas do nosso jogo. Quero felicitar-vos porque a FIFA vai organizar o Mundial de 2030 em Portugal, em Lisboa, no Estádio da Luz, e passaremos grandes momentos juntos. Obrigado e muitos parabéns ao meu amigo Rui Costa”.

Benfica District poderá ser construído num espaço entre dois e dois anos e meio, tendo um custo de investimento de 220 milhões de euros

“Estamos perante um investimento verdadeiramente notável, que tem como objetivo requalificar não só o Estádio da Luz mas toda a área envolvente. Tem visão, tem compromisso. Isto traduz uma compreensão profunda do papel central que o desporto assume na nossa sociedade, não apenas como prática física, mas como motor de bem estar e inclusão. Esta é, aliás, uma das razões pelas quais o Governo assume o desporto como uma prioridade. Projetos como este merecem ser destacados pelo seu contributo. O país precisa de projetos ambiciosos que contribuam para a valorização do desporto mas estes projetos não se limitam a servir o futebol, estes espaços têm acolhido concertos, eventos culturais que os tornam versáteis e polivalentes. Este projeto é estruturante para o país e para a cidade de Lisboa. Em nome do Governo, desejo o melhor a este projeto”, rematou Margarida Balseiro Lopes, antes da conclusão de novo por Rui Costa: “Foi mais um dia à Benfica, com um projeto à Benfica. Do clube, para o clube, para sócios e adeptos”.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]