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Mãe morta a tiro nos tumultos em Luanda deixa seis órfãos e um bairro em luto

Este artigo tem mais de 1 ano

Silvi Mubiala, de 33 anos, saiu de casa para socorrer o filho, nos distúrbios na periferia de Luanda. Morreu baleada. Polícia alega que foi necessário garantir a integridade física dos agentes.

João Panzo, marido e os seis filhos de de Silvi Mubiala, 33 anos, que saiu de casa na terça-feira para socorrer o filho, perdido no meio dos distúrbios na Caop B - bairro de Viana, na periferia da capital angolana -, causou e ainda causa choque entre a população local que acusa agentes da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) de serem os autores dos disparos, Luanda, Angola, 31 de julho de 2025. (ACOMPANHA TEXTO DE JULHO DE 2025). AMPE ROGÉRIO/LUSA
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AMPE ROGÉRIO/LUSA

AMPE ROGÉRIO/LUSA

“Queremos justiça” é o grito que ecoa entre familiares e vizinhos da mulher morta por disparos da polícia num bairro pobre de Luanda, durante os tumultos dos últimos dias, deixando viúvo e órfãos desolados clamando por ajuda.

A morte de Silvi Mubiala, 33 anos, que saiu de casa na terça-feira para socorrer o filho, perdido no meio dos distúrbios na Caop B — bairro de Viana, na periferia da capital angolana —, causou e ainda causa choque entre a população local que acusa agentes da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) de serem os autores dos disparos.

O Comandante-Geral da Polícia Nacional angolana, Francisco da Silva, confirmou na quinta-feira que a mulher foi morta pelas autoridades, alegando que foi necessário garantir a integridade física dos agentes.
Francisco Silva salientou que a mulher estaria em situação migratória ilegal e participava nas pilhagens, frisando que a polícia utilizou meios proporcionais para garantir a integridade física dos agentes, “em primeira instância, e repor a ordem” no país.

“Quando aquele grupo tentou insurgir-se contra os agentes da Polícia, claro que a integridade física do agente deve ser salvaguardada em primeira instância e nesta [situação] foi neutralizada, infelizmente faleceu”, adiantou Francisco da Silva.

“Lamentamos a morte, mas, infelizmente, o agente teve que salvaguardar a vida, a sua integridade física e preservar a autoridade do Estado”, acrescentou o comandante que falava à imprensa no final de uma visita a uma esquadra também afetada pelos tumultos registados entre segunda e quarta-feira na capital angolana.

No entanto, num dos vídeos do momento em que Silvi Mubiala é baleada, vê-se a mulher a fugir, junto com outras pessoas, sem quaisquer agentes da polícia por perto, e um carro da PIR a disparar a vários metros.

A dor e comoção, que se iniciou com a partilha do vídeo, nas redes sociais, onde o filho se sentou no chão em pranto, ao lado do cadáver da mãe, dominam os sentimentos de família e vizinhos, que “indignados” com a postura da PIR, gritam por justiça e proteção dos seis órfãos.

Sentado no sofá com a filha de sete meses ao colo e ao lado dos restantes cinco filhos, João Panzo, viúvo de 42 anos, disse à Lusa que, até ao momento, desconhece as circunstâncias em que a esposa foi baleada, porque na ocasião se encontrava ausente de Luanda.

Com voz embargada, lamentou que tenha sido um dos filhos a presenciar a morte da mãe e disse que a sua família, residente em casa arrendada, “está desamparada”, porque a mulher era quem garantia o sustento da casa, saúde e estudo dos filhos.

Bastante abatido com a perda da irmã, Mubiala Vítor contou que esta foi baleada na terça-feira, segundo dia da greve dos taxistas em Luanda, marcada por tumultos, vandalismo e pilhagens, aludindo aos vídeos da morte da irmã, partilhados nas redes sociais, que agravaram ainda mais a sua dor.

“Fui informado pelas crianças do que se passou e depois quando vi o vídeo nas redes sociais não consegui… estou muito abatido pela perda da minha irmã”, lamentou.

Silvi Mubiala era uma mulher batalhadora e que “fazia tudo pela família”, recordou o irmão, criticando a postura “irresponsável” dos efetivos da polícia que terão atingido a irmã, na chamada Rua Guarda Passagem.

No local, a Lusa ouviu relatos de que os disparos da polícia foram à queima-roupa e que terão atingido mortalmente dois outros cidadãos.

Catarina Francisco, moradora do bairro, lamentou a perda da vizinha, referindo que esta foi vítima de disparos de agentes da PIR.

“Foi baleada pela polícia, um carro da PIR. Ela, quando foi à procura do filho, encontrou muita confusão, e então ela começou a correr e levou um tiro aa cabeça”, descreveu, referindo que o bairro está em choque.

Quem diz ter assistido à morte da vizinha é também Esperança Fernando Romão, que pediu justiça pela perda de Silvi, dizendo, igualmente, que foi atingida com um tiro na cabeça.

Com lágrimas nos olhos, Esperança “exigiu” justiça pela morte da vizinha, que descreveu como uma mulher batalhadora que foi à rua apenas em busca do filho e não para fazer protestos: “Está a me doer muito no coração, isso já não estou a aguentar mais”.

“Nós queremos mesmo justiça, era uma mãe batalhadora, nunca roubou ninguém (…). Queremos justiça [para] essa mãe, queremos mesmo justiça, nunca vi isso na minha vida”, apelou.

Na Rua Guarda Passagem, onde Silvi deu o último suspiro, ainda são visíveis vestígios de sangue, como relataram os vizinhos e constatou a Lusa, com os moradores a pedirem justiça e ajuda para a família enlutada.

“Ela não era manifestante, na verdade ela foi à busca do seu filho, porque aqui vivemos um clima de guerra, o exército fez vários disparos e atingiu a nossa vizinha“, disse Ângelo Pemba, morador da CAOP B, pedindo também “justiça”.

Solidários com a perda da vizinha, muitos juntaram-se na quinta-feira na casa da família de Silvi para expressarem o seu pesar.

Residente numa casa precária e com dívidas por liquidar junto do senhorio, a família pede ajuda à sociedade e às autoridades para o funeral e proteção dos órfãos.

Alegria Alberto, irmão de João Panzo, reafirmou a necessidade de apoio à família, recordando que o viúvo não trabalha e sobrevivia de biscates e da ajuda da mulher que era comerciante.

Resposta policial “resultou em que muitos elementos fossem feridos, o que mais tarde resultou em mortes”

Pelo menos 30 pessoas morreram nos tumultos registados em Luanda e noutras províncias angolanas, nos últimos três dias de protestos, na sequência da paralisação convocada por taxistas, segundo números divulgados pelas autoridades.

Segundo o Comandante-Geral da Polícia Nacional, as ações verificadas nos últimos três dias, na sequência de uma paralisação dos serviços de táxi, em protesto contra a subida dos preços dos combustíveis e das tarifas dos transportes públicos, foram “um ato reprovável a todos os títulos”.

“Verificamos que na esquadra [que hoje visitou] há sinais visíveis de invasão, não sabemos quais eram as motivações. Felizmente, houve uma intervenção policial, garantindo que a esquadra não fosse nem vandalizada nem danificada. Isto satisfaz-nos em função da resposta que foi dada”, referiu.

Francisco da Silva afirmou que o processo de desordem, tumultos e interdição de vias registou dois momentos, tendo no primeiro dia de ocorrências sido feitos “vários apelos, várias chamadas de atenção para as pessoas se absterem destes comportamentos”.

“E, por via disto, por não terem acatado as nossas recomendações, a Polícia teve que fazer uso dos meios coercivos legitimados por lei — sublinho esta parte –, de modo a repor a ordem. E é nesta reposição de ordem que muitas das pessoas se insurgiram, manifestantes tentaram agredir agentes da Polícia — tal como vimos aqui nesta esquadra — invadir esquadras de Polícia, saquearem bens em lojas”, referiu.

De acordo com Francisco da Silva, a Polícia utilizou os meios proporcionais para garantir a integridade física dos agentes e repor a ordem.

“Nós vimos, em vários vídeos, que a Polícia lançou gás lacrimogéneo e outro tipo de armamento não letal, mas também puderam observar em vários vídeos a circular nas redes sociais que os jovens ou os cidadãos que realizavam esses atos quase não eram afetados por esses meios e atiravam-se para cima das autoridades com muita valentia. Portanto, o que posso dizer é que a resposta foi dada na medida para evitar que o Estado fosse posto em causa”, declarou.

Segundo o Comandante-Geral da Polícia Nacional de Angola, “em nenhuma parte do mundo” a Polícia permite que a esquadra seja vandalizada ou que as instituições do Estado, ou os bens de particulares, sejam postos em causa, admitindo que a resposta policial “resultou em que muitos elementos fossem feridos, que mais tarde resultou em mortes”.

Sobre a morte de um agente da polícia, em serviço na província de Icolo e Bengo durante os tumultos, Francisco da Silva lamentou o seu falecimento, vítima de um disparo “de pessoas também envolvidas nas pilhagens, desordem e fogo posto na via pública”.

“Infelizmente, perdemos um oficial, um efetivo, e tudo iremos fazer para esclarecer este caso”, salientou.

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