A violência chegou a Malanje e ao Dundo. Depois de dois dias de protestos e pilhagem em Luanda que fizeram 22 mortes, esta quarta-feira houve confrontos entre a população e a polícia na cidade do planalto central de Angola. Três pessoas morreram em Malanje confirmou ao Observador Rafael Marques, fundador do site de investigação Maka Angola. “Duas foram alegadamente mortas pela polícia quando tentavam assaltar lojas junto a uma igreja pentecostal no bairro Maxinde e a terceira morreu vítima de uma bala perdida na Vila Matilde”, concretizou.
Face à situação, “foi imposto o recolher obrigatório no centro da cidade até às 17h”, acrescentou o jornalista e ativista que se tornou conhecido pela sua luta contra a corrupção em Angola.
Há vários vídeos que dão conta da situação tensa em Malanje e no Dundo, na Lunda Norte, no noroeste de Angola, que o ativista Gangsta também está a publicar na sua página do Facebook.
Estas duas regiões somam-se a outras que também têm vivido tumultos, como referiu esta quarta-feira o governo num comunicado emitido no final do Conselho de Ministros (CM). “Os protestos replicaram-se noutras províncias, tais como Huambo, Huíla, Bengo, Icolo e Bengo e Benguela, embora com menor dimensão”, pode ler-se na nota.
Luanda foi mesmo, até ao momento, o palco de maiores distúrbios com vítimas mortais. O número de mortes subiu para 22, com 197 feridos, nos dois primeiros de três dias em que os taxistas estiveram em greve contra a subida do preço do gasóleo e das tarifas. O balanço foi feito esta quarta-feira pelo ministro da Administração Interna, depois da reunião do Conselho de Ministros.
No entanto, apesar de o porta-voz da polícia nacional de Angola ter avisado na terça-feira que o número de detidos iria aumentar nos dias seguintes, este manteve-se nos 1.214, segundo os dados apresentados por Manuel Homem.
O Governo atualizou ainda outros dados em comunicado, referindo a “vandalização de 66 lojas, 25 viaturas, pilhagem de supermercados, armazéns de venda a grosso e a retalho, entre outros, nos municípios de Cacuaco, Viana, Belas, Cazenga, Maianga, Camama e Kilamba-Kiax”. A nota menciona também “vários desacatos às autoridades em zonas como Calemba II, Golf II e Rocha Pinto”.
[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]
O executivo liderado por João Lourenço diz que os “atos protagonizados pelos manifestantes, potenciados pela presença de elementos infiltrados com intenções criminosas, indica que o fenómeno ultrapassou o escopo de uma simples reivindicação e assumiu contornos de ameaça à segurança e à paz social, criando constrangimentos à mobilidade dos trabalhadores e impacto negativo na produtividade dos sectores sociais e económicos”.
Nem a Polícia Nacional de Angola (PNA) nem o Governo deram mais informações sobre as 22 mortes. Nas redes sociais circulam vídeos de pessoas mortas, inclusive um de um grupo de pessoas a fugir no bairro Caop, em Viana (subúrbio de Luanda), com o que parece ser um carro de forças de segurança atrás a disparar e duas pessoas atingidas, uma delas uma mulher que depois se vê ensanguentada e morta. Este vídeo foi mesmo partilhado pelo conhecido humorista angolano Gilmário Vemba e pelo ativista Gangsta nas suas redes sociais.
Mas existem também informações de que vários polícias terão sido mortos nestes dois dias na zona de Luanda. Uma esquadra, em Viana, terá sido mesmo atacada, adiantou ao Observador um morador que pediu reserva de identidade.
Nesta quarta-feira, a capital angolana está mais perto da normalidade, confirmam ao Observador dois habitantes. “Hoje está tudo mais calmo e controlado”.