Luca de Meo não é um homem fácil de substituir como responsável da Renault e do grupo francês com o mesmo nome, mas será exactamente esta a função que aguarda François Provost, recém-nomeado pelo conselho de administração do Grupo Renault como o novo CEO da Renault e presidente do Grupo Renault — que inclui a Dacia, a Alpine e a Mobilize, além das participações na Horse, Nissan, Mitsubishi e Renault Korea Motors —, um universo em que de Meo fez maravilhas nos cinco anos que dirigiu e que deixou lá bem cima em termos de imagem, facturação e potencial de crescimento. Mas Provost, que já passou pela direcção da Renault-Nissan Portugal e está no grupo francês desde 2002, provou ter algumas cartas na manga.
Para ter sucesso, Provost apoia-se na sua grande experiência internacional que o levou a ser vice-CEO da Renault Rússia, presidente e CEO da então Renault Samsung Motors (hoje Renault Korea Motors), COO da marca na China e depois na região Ásia-Pacífico, antes de regressar a França como membro da Equipa de Liderança do Grupo, próximo de de Meo, com a função de director de Compras, Parcerias e Assuntos Públicos. Foi nele que de Meo confiou as negociações com a Nissan, de quem a Renault se quer livrar, bem como com os chineses do Grupo Geely e os sauditas da Aramco, para criar a Horse, uma empresa destinada à produção de mecânicas a combustão e híbridas, de que os franceses detêm 45%.
Apesar dos sinais em favor de Provost, a verdade é que Luca de Meo era apontado como o segundo grande gestor a liderar a Renault, depois de Carlos Ghosn. Independentemente de algumas polémicas — a maioria fabricadas pela Nissan, para evitar que a Aliança evoluísse para um grupo em que os japoneses perdessem grande parte do controlo —, foi sob a batuta de Ghosn que a Renault recuperou depois da crise que se seguiu à privatização em 1996, tendo continuado a crescer, tal como a Nissan (salva pelos franceses em 1999), a quem forçou a produção do eléctrico Leaf em 2012.
Da mesma forma como Luca de Meo foi moldado pela excelência de Sergio Marchionne, com quem trabalhou no Grupo Fiat de 2002 a 2009, quando este CEO que se recusava a vestir fato ou gravata (Marchionne) o nomeou seu braço-direito, também François Provost bebeu da experiência de trabalhar com de Meo. Este, depois de passar pela Renault, Toyota Europe e Fiat, antes de rumar ao Grupo Volkswagen em 2009 (passando pela VW, Audi e Seat/Cupra), acabou por regressar ao construtor francês em 2020, onde durante cinco anos revelou todo o seu potencial. A sua saída para a Kering — grupo de artigos de luxo que detém marcas como a Gucci, Balenciaga e Yves Saint Laurent —, a 15 de Junho, deixou um vazio considerável. Tanto que, em simultâneo, Gilles Vidal, o chefe do design da marca francesa, abandonou a Renault regressando à Stellantis.
Agora é a vez de François Provost mostrar serviço, realizando uma complexa sessão de equilibrismo entre os modelos eléctricos e os híbridos, tentando manter o rumo perante um mercado e um regulador (a UE) que parecem não saber o que querem. Não será fácil, mas também não parece impossível, face à carreira que tem atrás de si. E, já agora, Provost vai ter de devolver a confiança aos accionistas, que parecem ter ficado órfãos após a saída de Luca de Meo, que motivou uma queda no valor das acções de 41,25€ para 33,63€ no dia do anúncio (15 de Junho), para continuar a cair mais suavemente até 1 de Agosto, em foram transaccionadas a 32,19€ à hora do fecho. Como termo de comparação, os títulos do construtor subiram com o anúncio da contratação de Luca de Meo há cinco anos.