Vale o que vale, pode valer mais do que uma aparente passagem sem muita atenção poderia indiciar. Durante as últimas semanas Juan Ayuso não prestou muitas declarações e foi João Almeida, apontado como co-líder da UAE Team Emirates mas “adotado” como líder pela equipa, a dar a cara pelos objetivos da formação após um Tour de sucesso com a quarta vitória da carreira de Tadej Pogacar. Recuperado da queda sofrida na Volta a França, apesar dos problemas que isso trouxe na preparação para a última grande volta do ano, Almeida foi assumindo a ambição de chegar ao pódio colocando Jonas Vingegaard e o “comboio” da Visma-Lease a Bike como principal adversário. Já sobre a relação com o companheiro de equipa espanhol, “tudo tranquilo”.

“Na primeira semana não se ganha, mas pode perder-se”: João Almeida, da fratura no Tour ao sonho do pódio na Vuelta

“Relação com Ayuso? Damo-nos bem. Já tivemos alguns pequenos atritos no passado mas as coisas resolvem-se sempre no momento e fica resolvido. É natural, às vezes, acontecer esse tipo de coisas mas, no geral, damos-nos bem e vamos com o objetivo de ter sucesso como equipa, de ganhar etapas, de tentar ganhar também a Vuelta. Creio que tem tudo para correr bem. Problemas pela liderança? Penso que não. Tem de haver respeito mútuo, obviamente. Como temos um adversário bastante forte [Vingegaard], se pudermos jogar com duas cartas para cansar o nosso adversário creio que será uma grande vantagem. Há esse lado positivo”, comentara João Almeida na antecâmara do arranque da Vuelta, este ano em Turim.

Olhando para os especiais feitos pelos jornais espanhóis este sábado sobre a prova, a “lógica” acabava por ser contrariada. Na Marca, por exemplo, os principais favoritos resumiam-se a Jonas Vingegaard, Mikel Landa, Thomas Pidcock, Egan Bernal, Antonio Tiberi, Jai Hindley e… Juan Ayuso. De João Almeida, nem sinal. E a ideia que passava é que parte da imprensa vizinha acreditava que seria o espanhol a assumir o destaque da  Emirates contra a Visma, apesar de ser claro que a estrutura estava montada para apoiar uma co-liderança com o português que este ano tinha batido Vingegaard na Volta ao Algarve, no Paris-Nice e no contrarrelógio individual inicial do Tour. “A preparação foi estranha. Corri pouco, vamos ver como estou. Se puder ser uma aposta para a equipa na Vuelta, perfeito, se não, vou dedicar-me a ajudar o João. Se não for para a geral, vou tratar de ajudar”, comentou Juan Ayuso antes do dia 1 em Turim. Sempre com um “se”…

João Almeida será líder da Emirates na Vuelta, entre a ausência de Pogacar e a surpresa Ayuso: “Podemos lutar por algo grande”

Essa seria uma das principais curiosidades da Vuelta. Por um lado, se alguém conseguiria travar Vingegaard, que mostrou estar muito bem no Tour mas sem hipóteses para responder ao extraterrestre Tadej Pogacar. Por outro, como seria a convivência entre João Almeida e Juan Ayuso na UAE Team Emirates, sendo que no passado já tiveram alguns “choques” mas antes de o português se assumir como um líder natural nas provas que não contavam com Pogacar (algo que se percebeu com Jan Christen na Volta à Suíça), sem esquecer o percurso que o espanhol foi conseguindo fazer e que cumpriu em 2025 até ao abandono no Giro. Por fim, quem teria capacidade para desafiar as duas equipas teoricamente mais fortes, entre um leque alargado de nomes apostados em surpreender. Era isso que se veria ao longo de 21 dias, ainda não neste primeiro.

A ligação de mais de 180 quilómetros entre Turim e Novara na primeira etapa da Vuelta tinha pelo meio uma contagem de montanha de terceira categoria mas deveria apresentar uma chegada ao sprint, com Jasper Philipsen a surgir como o principal favorito teórico à frente de Mads Pedersen ao triunfo final naquele que funcionava como primeiro aperitivo para o que chegará na segunda-feira já com média montanha (este domingo, a ligação entre Alba e Limone Piemonte também não deverá trazer problemas de maior ao pelotão, que tem sentido muito apoio por parte dos adeptos transalpinos desde a apresentação oficial das equipas).

Logo no arranque, foi formado um grupo de seis fugitivos com Pepijn Reinderink, Nicolas Vinokurov, Joel Nicolau, Koen Bouwman, Hugo de la Calle e Alessandro Verre num início a todo o gás com uma média alta de 49km/hora que colocou a vantagem de forma rápida acima do minuto e meio entre um pelotão que queria apenas proteger-se de qualquer contrariedade a pensar em tudo o que se seguirá. Ainda assim, e com alguma surpresa à mistura, a fuga, que não passou de uma vantagem inferior a dois minutos e meio, foi neutralizada ainda a 85 quilómetros já depois de ter sido passado o sprint intermédio com triunfo de Reinderink.

Sobrava apenas Hugo de la Calle, corredor da Burgos que seguia sozinho numa tentativa que estava sempre destinada ao fracasso até pela pequena margem de um minuto para o pelotão que foi rolando sem problemas à exceção de Giulio Ciccone, que sofreu um contratempo e teve de gastar mais energia do que pretendia para agarrar de novo o grupo. A resistência durou até 38 quilómetros da meta, altura em que o espanhol acabou por ser “engolido” pelo pelotão. Estava a chegar o momento em que a Visma mostrou daquilo que é capaz, com Victor Campenaerts a ter dois quilómetros explosivos que partiu o pelotão antes de serem as equipas dos sprinters a agarrarem na frente com Jasper Philipsen, da Alpecin-Deceuninck, a ganhar à vontade.

“A equipa foi muito forte mas tive de começar o sprint quando faltava ainda quase um quilómetro. Depois da queda que tive no Tour, estava muito dececionado por ter de abandonar e nesta Vuelta não há propriamente muitas hipóteses para os sprinters fazerem a diferença, o que torna tudo mais complicado. Fui tendo alguns azares na presente temporada mas alcancei também vitórias muito bonitas”, comentou o belga depois do triunfo à frente de Ethan Vernon (Israel) e Orluis Aular (Movistar). Mads Pedersen acabou numa modesta 14.ª posição, ao passo que João Almeida terminou no 71.º lugar, atrás do companheiro Ivo Oliveira (31.º). Desta forma, Philipsen ficou também com a camisola vermelha da liderança, com apenas quatro segundos de avanço graças às bonificações em relação a Ethan Vernon e Pepijn Reinderink.