Estando a ser publicado mais um romance de Murakami em Portugal (A cidade e as suas muralhas incertas), numa edição dupla (normal, mais barata, e outra com capa holográfica), é uma boa hora para nos debruçarmos sobre o autor japonês enquanto fenómeno livreiro e social. Sendo autor de massas, continua a figurar nas casas de apostas ao Nobel da literatura – e nessa popularidade difere dos outros que a encabeçam, que em geral têm outro tipo de público. Este novo romance pega em muitos dos pontos que já se tornam habituais em Murakami, e ver-se-á que assim é mais por uma questão de conforto e limitação do que de estilo: mais uma vez, temos uma rapariga que desaparece, mais uma vez temos alguém que se esconde, mais uma vez temos um mistério efabulado, mais uma vez temos mundos paralelos e mais uma vez temos personagens que parecem unidimensionais, incapazes de serem gente a sério, incapazes de serem mais do que uma forma de o autor dar voz a frases a tentar piscar o olho ao filosófico.
Ninguém o nega: Haruki Murakami é pop. Com hordas de leitores, a que já podemos chamar fãs, o autor japonês já garante vendas. Na altura da publicação de um novo romance, os leitores enfileiram-se às portas das livrarias ainda antes de abrirem. É estranho – no sentido de ser incomum, claro – que um fenómeno destes, tão de massas, figure nas listas de favoritos ao prémio Nobel da Literatura, mas lá está ele. Os seus leitores acérrimos acharão que a sua presença é natural; os outros leitores talvez achem todos que isto é descabido. Encontrando-me nos últimos, e bem sabendo do quão surpreendente tem sido a Academia Sueca nos últimos anos, quero focar-me nas razões pelas quais a cotação de Murakami já me parece um equívoco – estético, artístico, intelectual –, quanto mais uma potencial premiação. Bob Dylan deu pano para mangas, em parte porque, na sua criação artística, o texto não existe propriamente a sós, sendo antes uma componente de um trabalho que envolve texto e som, mas Murakami seria uma ignomínia.
Amais recente obra do autor lançada em Portugal, pela Casa das Letras
O autor, é bem verdade, tenta inovar. O problema é que, regra geral, a inovação parece existir para si própria, sem ter um papel operante da literatura, pelo menos um papel que justifique a introdução de certos elementos. Ora, tudo isto é irritante. Não é que a literatura exista para representar a vida, mas, em certa medida, tem de ter capacidade de a traduzir de alguma forma. Isto não implica a inexistência de elementos irreais ou surreais ou fantásticos, mas Murakami exagera ao introduzir elementos que não conduzem a narrativa nem se auto-explicam. Dentro desta linha, temos um homem que tem uma cabeça de carneiro, um homem que medita dentro de um poço seco, um pássaro cujo som marca acontecimentos estranhos (é sempre tudo estranho), gatos que desaparecem e vão dar a outras dimensões (há sempre muitos gatos), gente cuja idade é maleável, a cidade de Tóquio com duas luas e seres misteriosos e minúsculos que surgem de dentro de uma cabra morta, uma biblioteca onde o tempo parou, objectos que desaparecem deixando atrás um buraco emocional sem explicação, emoções de umas pessoas sentidas por outras à distância, jovens que falam com uma profundidade filosófica quase mística, canções que criam pontes com o sobrenatural, sonhos misturados com realidade, desaparecimentos inexplicáveis que deixam o leitor a olhar para o vazio.
Enquanto o autor cria a ideia de que não dar respostas – não formar o arco –, criar um mistério e não o resolver (o que também dá trabalho), é estética e mais nada, abdica de solidez narrativa. O autor lança a questão, o problema é que, quando a questão é meramente narrativa, o leitor sente a falta do elemento que a resolva, o que significa que sente a falta de um escritor que a enfrente, ao invés de provocar uma leitura vaga, que não só não tem clímax como não tem um desenvolvimento satisfatório (Sputnik, meu amor será o caso mais óbvio). Ao brincar com esse vazio, e ao repeti-lo num e noutro romance, o autor oferece um produto calibrado que sabe a coisa pouco elaborada. O “lirismo” – esse que a crítica sublinha – consiste afinal em banalidade, frases simplistas, pensamentos que parecem intensos ou amplos só por serem abstratos.
A repetição temática e formal também não entusiasma. O tom é quase sempre onírico, separando a literatura da vida, ou remetendo-a para o campo do inconsciente que cedo deixa de surpreender, e maça. Em Norwegian Wood, Kafka à Beira-Mar e 1Q84, por exemplo, temos demasiadas semelhanças: há protagonistas alienados, mulheres misteriosas, desaparecimentos impossíveis de explicar. Murakami aposta na intriga, na surpresa, no mistério – mas de que serve um mistério se não é resolvido? A estratégia acaba por ser desonesta, abrindo-se um caminho que não se fecha, criando-se um eixo narrativo que não vai dar a parte alguma. Os gatos, quase omnipresentes, pejados de densidade simbólica, são uma tortura: em vez de profundidade filosófica, servem para veicular uma tentativa de aprofundamento simbólico que nunca passa da estética artificial e que nunca produz qualquer desenvolvimento, seja este temático, narrativo ou psicológico. Com esta estratégia, as personagens têm comummente a textura de uma folha de papel, vagueando pelo enredo como um fantasma transparente. Introspectivas e apáticas, diluem qualquer acção na sua lentidão anímica, e cumprem quase sempre um papel simbólico – ou seja, não chegam a ser gente. As mulheres também funcionam como arquétipos de enigmas, o que impossibilidade qualquer empatia. Afinal, não são pessoas, mas representações de ideias, e por isso desprovidas de interioridade emocional ou sequer de individualidade. O existencialismo vago, que perpassa quase a totalidade da obra, nunca evolui em termos de enredo ou sequer se concretiza em reflexão. Com isto, os romances de Murakami parecem ideias soltas que não têm papel onde pousar.
Por sua vez, ao agirem como protótipo, mais do que como gente, as personagens funcionam mais como uma representação paralela à vida do que como uma hipótese de vida. Além disso, pensam de forma genérica – e sentem ainda de forma genérica, havendo, ao longo da leitura, uma sensação de se estar perante uma caricatura. Há exagero, há ideias, há uma visão turva, mas não há contundência. A páginas tantas, dá a ideia de que existem na literatura só para veicular ideias, não por serem pessoas – ali estão, quase estanques, a levar ao colo metáforas existenciais, que passam a ser o centro dos romances. As personagens femininas têm quase todas um certo mistério, e é costume serem belas e exóticas, sendo arquétipos de uma ideia de feminilidade, vistas quase como criaturas estranhas, e enfim capazes de catalisarem o desenvolvimento das personagens masculinas.
O autor criou uma fórmula – adaptada ao gosto ocidental como um caril sem picante –, e a partir daí pastichou-a uma e outra vez, introduzindo a cada tentativa um elemento dissonante que funciona como ideia de inovação. Mas não só essa inovação não existe como não se verificam grandes avanços formais, ou mesmo variedade. Em vez disso, o composto da produção de Murakami faz-se por uma reciclagem que já é mecânica. Crónica do Pássaro de Corda e 1Q84 parecem duas versões da mesma coisa, com o autor a explorar o mesmo ambiente, a mesma ideia, até à exaustão, abdicando de inovar ou de se desafiar.
De resto, salta à vista a ponte que Murakami tenta fazer na sua obra, e que é crucial para a sua internacionalização. Pegando em elementos que conseguem transportar o Japão para o resto do mundo, o autor ainda usa uma série de referências ocidentais, que muito contribuem para a sedimentação da recepção dos seus livros. Isto é particularmente importante no Ocidente, onde a sua produção também chega com estrondo. Usando referências artísticas ou gastronómicas – por exemplo, os Beatles ou o whisky escocês –, o autor cria um universo literário reconhecível para públicos além-fronteiras. O problema é que tudo isto é superficial. A própria cultura japonesa chega manca, perdida em frases que variam entre o superficial e o esotérico. Com isto, os romances de Murakami, ao invés de traduzirem o mundo e a vida, exportam ideias de cultura como um produto exótico, pop, um produto fast-food. Tentando imprimir alguma profundidade às cenas, através das personagens introspectivas e misteriosas e de uma dialética a puxar para o filosófico, a verdade é que os livros não só nunca expõem a experiência humana como – e menos ainda – nunca a descortinam.
Considerando isto, parece que a presença constante do nome de Murakami na lista de potenciais vencedores do Nobel se deve ao seu carácter pop, e não à sua qualidade literária, seja ao nível da composição formal ou da estética na narrativa. Ao mesmo tempo, a verdade é que a produção de Murakami contrasta com grande parte da produção dos laureados, uma vez que o texto é mais onírico do que político, mais voltado para o indivíduo – ainda que esse indivíduo careça de individualidade, sendo antes uma projecção – do que para o colectivo, concatenando-se elementos sociais. Em termos de posições políticas, Murakami seria uma aposta segura – o problema é que, devido à sua neutralidade nesse campo, também seria uma aposta desperdiçada. Além do mais, o papel do Nobel passa também por canonizar, universalizando, razão pela qual a popularidade de Murakami não pode, por si só, ser um argumento – caso contrário, transforma-se a Academia Sueca num concurso de popularidade, traduzindo-se, como se fosse o mesmo, sucesso e mercado para grandeza. Só a mera presença do nome de Murakami, em lugares bem cotados, nas casas de apostas, já mostra que a popularidade ganha terreno em lugares que lhe deviam ser inóspitos. Se algum dia a Academia Sueca enveredar por aí, estará a trair não só os princípios e os objectivos do Nobel mas também a capitular perante o mercado, desistindo da exigência estética, e isto num cenário em que já tem inovado, e até surpreendido, através de laureados recentes. Numa altura em que a Academia Sueca anda meio confusa sobre se deve premiar relevância político-social ou inovação estética, parecendo até saltar, dando de um ou outro a cada ano, Murakami, que apresenta uma ideia de Japão misteriosa, exótica e encantatória a um Ocidente faminto de subjectividade, poderia parecer um meio-termo nestas questões, mas, com tudo pesado, o resultado seria trágico: politicamente é mais do que inócuo, é inexistente; esteticamente, é arroz com sal a menos.
Murakami repete até à exaustão o pastiche do profundo, sem nunca atingir profundidade. No que escreve, há a sombra de uma sugestão, e lá no meio simula-se um enigma para se agarrar o leitor. Com romance atrás de romance, faz a maior marosca técnica: usa a repetição estilística mascarada de voz única, inconfundível. E com isto atinge o anti-Nobel: uma criação literária superficial, que ainda se põe em bicos de pés a tentar simular a profundidade, sem sequer dar um saltinho para conseguir alcançá-la. O resultado é, ao invés da experiência humana, um representação ao longe dessa experiência, com personagens que não falam nem pensam nem sentem como gente, o que lhes dá um certo ar vago de personagem de consola, e ainda por cima encontram-se perdidos não na vida, não num trauma, mas numa drama existencial vago. Tudo isto faz de Murakami o Fábio Paim da literatura, mas o Nobel da literatura é coisa de Messis e Ronaldos.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.