Um dia de descanso ativo para grande parte do pelotão, um dia para recuperar forças antes de novo pico de esforço na antecâmara do primeiro dia de folga da Vuelta, em Pamplona. Depois da ligação entre Monzón e Saragoça percorrida ao longo de quase 160 quilómetros com médias mais baixas do que até aqui em grande parte do percurso, que terminou com a inevitável vitória de Jasper Philipsen (Alpecin) apesar de haver uma concorrência reforçada numa das últimas chegadas ao sprint (Elia Viviani, que acabou na segunda posição, foi relegado para 105.º da etapa por decisão dos comissários), o pelotão voltava a enfrentar as dificuldades da montanha com uma chegada à estância de esqui de Valdezcaray que prometia voltar a mexer com a classificação geral, naquele que seria mais um momento de teste para vários protagonistas da Vuelta.

João descansou, Ivo tentou a sorte, Philipsen fez a festa: belga volta ao ganhar ao sprint após três triunfos da Emirates

Logo à cabeça, era um teste para o atual camisola vermelha, Torstein Traeen. A Bahrain tinha chegado a Espanha a apostar em Santiago Buitrago e Antonio Tiberi mas atingia o final da semana inicial com contas trocadas: o norueguês, aproveitando a fuga com sucesso que coroou Jay Vine na segunda de três vitórias consecutivas da Emirates, ficou na liderança com mais de dois minutos e meio de vantagem sobre Jonas Vingegaard, João Almeida ou Giulio Ciccone e resistiu aos ataques na frente em Cerler, tendo agora mais um desafio numa fase em que Tiberi deixou de contar para a geral e Buitrago levava dois minutos de atraso para os concorrentes apontados à vitória na geral. Traeen tornava-se cada vez mais a prioridade, sendo que, na tentativa de João Almeida em Cerler, o norueguês ficou “cortado”, valendo-lhe a falta de “vontade” de Vingegaard e Ciccone em ajudar o corredor português e marcar diferenças mais a sério no final da subida.

Depois, era um teste para o antigo camisola vermelha, Jonas Vingegaard. A “derrota” que a Visma Lease-a-Bike teve no contrarrelógio coletivo em Figueres frente à Emirates poderia motivar uma resposta pronta por parte da equipa. Não foi isso que se viu em Pal, não foi isso também que se viu em Cerler. Mais: perante o risco (calculado e assumido) que a Emirates correu quando colocou Juan Ayuso na fuga para ganhar com Jay Vine ao lado para trabalhar para a montanha, o comboio das “abelhas” voltou a trabalhar na parte da frente com Victor Campenaerts, forçou o ritmo com Wilco Kelderman, ainda soltou Sepp Kuss mas nada acabou por acontecer pelo chefe de fila, sendo que quando João Almeida decidiu atacar numa fase em que sentia haver menos dificuldades o “corte” também podia ter apanhado Matteo Jorgensen, sexto da geral, pelo meio.

Depois, era um teste para um dos potenciais candidatos à camisola vermelha, João Almeida. A forma como Juan Ayuso “furou” tão cedo na etapa com chegada a Pal dissipou de vez as dúvidas sobre quem era o líder da UAE Team Emirates mas, mais do que esse papel, o português mostrou que foi aprendendo com o tempo a receita para saber liderar: mesmo ficando sem Marc Soler e Felix Grosschartner, mesmo com Ayuso quase em ritmo de passeio muito atrás, aguentou-se bem entre os da frente acabando mesmo ao ataque, elogiou o companheiro de equipa Ayuso depois do triunfo em Cerler não dizendo tudo o que lhe poderia passar pela cabeça e mostrou que não só tem a equipa a seu lado como atravessa um bom momento que permite ir ao choque como os principais candidatos, a defender ou a atacar, com ou sem ajuda dos rivais da frente.

Depois, era um teste para outro dos potenciais candidatos à camisola vermelha, Giulio Ciccone. Numa fase ainda marcada pelas notícias que dão conta da transferência de Juan Ayuso para a Lidl-Trek no final do ano apesar de ter um contrato a longo prazo com a Emirates, o corredor italiano está apostado em “vingar” mais um infortúnio de carreira que sofreu no Giro deste ano, tem mostrado uma boa fase pela desenvoltura que revela quando anda com Vingegaard e João Almeida e surgia como um dos corredores que mais poderia fazer mexer com a corrida sobretudo a partir do momento da última subida, tal como fizera antes em Pal.

Pontos de interesse extra não faltavam, da luta pela camisola da montanha ao aparecimento de potenciais figuras que também visam os lugares cimeiros da classificação geral, casos de Egan Bernal (Ineos), Lorenzo Fortunato (XDS Astana), a dupla Jai Hindley e Giulio Pellizzari (Red Bull-Bora), Felix Gall (Decathlon AG2R), Thomas Pidcock (Q36.5 Pro Cycling Team) ou até o próprio Ben O’Connor (Jayco), mesmo tendo mais de um minuto de atraso para Vingegaard. Ainda assim, e num plano meramente teórico, era no líder e nos três principais opositores que se centravam todos os olhos numa subida dura que culminava aquela que seria a terceira etapa mais longa durante três semanas com uma extensão de 195,5 quilómetros.

O desenho da fuga ainda demorou alguns quilómetros até ficar consolidado mas Jordan Labrosse (Decathlon AG2R), Stefan Küng (Groupama FDJ), Alec Segaert e Liam Slock (Lotto) lá conseguiram ganhar alguma folga na frente sem grandes efeitos práticos. Sander de Pestel (Decathlon AG2R) também tentou a sua sorte sem sucesso, sendo que só mesmo quando Michal Kwiatkowski (Ineos) e Archie Ryan (EF Education) saíram na frente houve um verdadeiro projeto de fugitivos a que se juntaram mais tarde Michel Hessmann (Movistar), Liam Slock (Lotto) e o já inevitável Kevin Vermaerke (PicnicPostNL), que a 90 quilómetros do final levava 2.40 minutos de vantagem numa fase onde era a Lidl-Trek que pautava o ritmo do pelotão, que deixou de ter de forma momentânea Jonas Vingegaard para resolver pequenos problemas mecânicos.

Aos poucos a diferença ia caindo, com a Lidl-Trek a não pretender correr riscos e a acelerar mais atrás para deixar a fuga mais próxima tendo em vista a preparação do sprint intermédio para o rei dos pontos, Mads Pedersen. A 65 quilómetros do fim, a diferença já era de dois minutos, sendo que a chuva foi aparecendo no céu com algumas zonas com água na estrada que traziam outros perigos aos corredores e fases em que caía de forma intensa, obrigando alguns corredores a protegerem-se com coletes perante a intempérie. Foi essa passagem surpreendente das nuvens mais negras que “travou” a recuperação, com a distância a baixar de forma significativa dos dois minutos apenas a 50 quilómetros da meta. Os favoritos, esses, rolavam de forma tranquila já a preparar os momentos decisivos na etapa que surgiriam apenas na última subida.

O sprint intermédio estava cada vez mais próximo, as hipóteses de Mads Pedersen ir ainda discutir os pontos parecia mais afastada perante uma quebra da desvantagem que não era suficientemente rápida, com essa passagem por Santo Domingo de la Calzada a ser feita com os fugitivos a terem 1.15 minutos de vantagem. A aproximação continuava a ganhar forma, com 40 segundos a 17 quilómetros da meta, altura em que a queda de um corredor ainda assustou o pelotão mas sem mais efeitos. Começava a subida com uma notícia desde logo surpreendente (ou talvez não): bastou começar a inclinação e Juan Ayuso deixou-se ficar. Ou seja, não ia para a etapa nem sequer estaria na frente para ajudar João Almeida, seguindo no seu ritmo até ao fim.

Ayuso estava fora, David Gaudu também abidcou cedo, Vingegaard colou-se na roda de Ciccone. A dúvida era onde andava João Almeida, neste caso começando a subida ligeiramente mais atrás no top 20 com Jay Vine a marcar os elementos da Visma e Marc Soler também por perto, a trazer depois o português pela direita com Lidl-Trek a liderar seguida pela Visma e com Torstein Traeen a manter a boa colocação juntos dos principais candidatos. O ataque, a 11 quilómetros do final, veio da parte de Jorgensen, com Vingegaard a atacar e a levar Ciccone na roda com João Almeida a ficar “cortado” e a necessitar de Jay Vine para minimizar os estragos do ataque. Mais uma vez, era o português que estava à prova com novo teste às suas Almeidadas.

Jay Vine quebrou, Marc Soler ainda tentou manter-se na ajuda, João Almeida assumiu o comando do grupo que estava a perseguir os dois da frente quando Vingegaard voltou a arrancar e deixou de vez Ciccone para trás, com o italiano a olhar para a bicicleta como se tivesse algum problema. A menos de dez quilómetros, o dinamarquês ia com dez segundos sozinho na frente mas com o português não só a ir para cima no “corte” a cilindrar o resto do grupo como a tentar recuperar como fizera na Volta ao Algarve. Só mesmo Pidcock e Felix Gall conseguiram aguentar a Almeidada, com o próprio Vingegaard a chegar à fase final da parte mais dura com apenas sete segundos e com o português a olhar para trás à espera de ajuda. Pidcock não ia, Gall não ia, o português agarrava o guiador com mais ganas entre a chuva para dar nova prova de força.

Vingegaard sabia que podia ganhar segundos preciosos ao mesmo tempo que Pidcock, que entretanto se tornara o grande favorito ao triunfo na etapa, Felix Gall e João Almeida tentavam fechar de vez o “corte” com Gall a olhar para trás perante a incapacidade de continuar na roda de Pidock e João Almeida. O dinamarquês ia jogando com esse impasse enquanto o britânico não começava também a puxar a perseguição, o que fazia com que o chefe de fila da Visma fosse ganhando um avanço ligeiramente maior de 15 segundos quando a subida ainda teria mais uns 15/20 minutos com zonas bem menos íngremes. A vantagem subia para quase meio minuto, as imagens mostravam o português visivelmente agastado com Pidcock quando o britânico finalmente também agarrou na perseguição, quase que a pedir ao corredor da Q36.5 Pro Cycling para perceber que ele tinha tanto ou mais a perder por não puxar também tendo em conta a vitória na etapa.

A vantagem tinha ficado mais consolidada nos 30/35 segundos, com João Almeida a procurar ainda ter uma reserva para encurtar de forma ligeira uma desvantagem que iria sempre colocar a Visma no comando de todas as etapas da Vuelta. No final, a vitória sorriu mesmo ao dinamarquês (com os respetivos dez segundos de bonificação), com João Almeida a entrar atrás de Pidcock a 24 segundos de diferença perdendo na nona etapa meio minuto para Vingegaard já com as bonificações. Uma notícia boa: João Almeida é mesmo o grande rival de Vingegaard nesta Vuelta. Uma notícia má: a desvantagem passava para 38 segundos, sendo que no meio da luta Traeen ainda conseguiu segurar a vermelha perdendo quase dois minutos.

Contas feitas, Vingegaard ganhou com o tempo de 4.32.10, com Thomas Pidcock e João Almeida a entrarem a 24 segundos, Felix Gall a 1.02 e o top 10 a fechar a 1.46 com Raúl Garcia Pierna (Arkéa), Marc Soler (UAE Team Emirates), Giulio Ciccone (Lidl-Trek), Markel Beloki (EF Education), Jai Hindley (Red Bull-Bora) e Lorenzo Fortunato (XDS Astana). Torstein Traeen foi 17.º na nona etapa, mantendo assim com isso a camisola vermelha da liderança com uma diferença bem mais reduzida para Vingegaard, agora de apenas 37 segundos. João Almeida mantém o terceiro da geral agora a 1.15 do norueguês (e 38 segundos de atraso face ao escandinavo), Thomas Pidcock subiu a quarto a 1.35, Felix Gall é quinto a 2.14. Seguem-se Giulio Ciccone, outros dos grandes derrotados do dia (2.42), Lorenzo Fortunato (2.47), Matteo Jorgensen (2.49), Jai Hindley (2.53) e Giulio Pellizzari (2.53), na antecâmara da primeira folga da Vuelta passada em Pamplona.