Um primeiro encontro a conseguir a vitória que era fundamental para sonhar com a passagem à segunda fase, um segundo jogo a desafiar com sucesso (apesar da derrota) uma das melhores equipas da atualidade, uma terceira partida de total desnorte e desacerto que não deixou boas recordações. Ponto comum a todos? A parte defensiva, que funcionou e bem nos dois primeiros duelos com Rep. Checa e Sérvia mas afundou-se por completo diante da Turquia. Ponto a melhorar em todos? As percentagens de lançamento, ainda baixas para as necessidades da equipa e para dar prolongamento ao que se faz atrás. E era nesta base que chegava agora o quarto desafio de Portugal neste Campeonato da Europa frente à anfitriã Letónia, no jogo teoricamente mais “em aberto” entre todos aqueles em que a Seleção não partia como favorita à vitória.

A defesa cedeu e foi o ataque que mais pagou por isso: Portugal acaba “atropelado” por uma Turquia de nível NBA no Europeu

“É um jogo igual aos outros. A nossa preocupação fundamental não é com o adversário mas connosco próprios. Temos que vir para o jogo de amanhã [segunda-feira] como viemos para os dois primeiros jogos e como não viemos ontem [sábado]. A equipa não estava pronta para jogar com a Turquia, ao contrário do que aconteceu nos dois primeiros jogos, em que a equipa veio em estado de prontidão para aquilo que era preciso fazer. Portanto, preocupa-nos que Portugal é que vamos ter e acredito que vamos voltar ao registo dos dois primeiros jogos”, adiantara Mário Gomes este domingo, antes de olhar para os últimos jogos desta fase.

“A Letónia e a Estónia jogam em casa, o que é mais uma das originalidades deste sorteio, que acaba por não ser um sorteio puro – são outros interesses, que não desportivos. O que é um facto é que vamos terminar o campeonato a jogar contra equipas que vão jogar as duas em casa, o que não devia acontecer, mas são contas de outro rosário. Não é nada de especial. Por exemplo, contra a Estónia, lembro-me de ter jogado duas vezes ao longo da carreira: ganhámos em Talin, perdemos em Sines. Portanto, quem estava na bancada não jogou e é assim que temos que encarar o jogo. Nunca temos 100% de certeza do que vai na cabeça dos jogadores mas julgo que estão preparados. A derrota de magoou, fez mossa mas não temos tempo nem para chorar, nem para ter pena de nós próprios porque viemos aqui com um objetivo”, acrescentara o técnico.

Até aqui, tudo tinha corrido de forma “normal” no grupo A do Europeu. A Turquia ganhou todos os jogos que fez, depois de novo triunfo diante da Estónia por claros 84-64, a Sérvia deve seguir o mesmo caminho sendo clara favorita diante da Rep. Checa no jogo da noite, a Letónia chegava a este encontro com Portugal após bater a Estónia e perder com Sérvia e Turquia. Para a Seleção, os objetivos eram claros: fazer uma vitória nos próximos dois encontros com Letónia e Estónia, conseguindo assim a qualificação para a segunda fase. E a primeira possibilidade chegava agora com o conjunto do antigo companheiro de Neemias Queta nos Boston Celtics, Kristaps Porziņgis, que foi um dos elementos trocados neste verão para os Atlanta Hawks.

Esse seria o duelo mais interessante de seguir ao longo da partida, até pela ligação próxima que ambos ainda hoje mantêm e que ficou bem visível quando se cruzaram entre jogos na segunda jornada, após o encontro de Portugal com a Sérvia. E, neste caso, havia logo uma vantagem para o conjunto letão: as características de Porzingis fazia com que viesse muitas vezes fora, o que retirava Neemias Queta da zona pintada com tudo o que os restantes jogadores poderiam depois beneficiar. Entre isso, bloqueios diretos mal defendidos e os habituais pontos do poste agora dos Hawks, a Seleção começou a perder por 8-0 em três minutos, com esse problema extra de Travante Williams ter feito logo duas faltas. O que começou a equilibrar mais a partida? Mais bola em Neemias, fosse em entradas com assistências, fosse em jogo poste-poste (10-6). Ainda assim, o bom jogo coletivo letão, com Porzingis em destaque, não impediu uma reação nacional que colocou o resultado em 23-21 no final do primeiro período, com 11 pontos de Porzingis contra dez pontos de Neemias.

Com Arturs Zagars a sair lesionado para o balneário, Davis Bertans tentava ser o número 2 da Letónia atrás de Porzingis mas a desenvoltura do jogo ofensivo de Portugal, a par do aumento da eficácia defensiva, fez com que uma partida que chegou a ter sete de diferença voltasse a reabrir. Rafael Lisboa também teve uma entrada positiva no encontro mas a passagem de Neemias Queta pelo banco, a par da quebra da percentagem de lançamento da Seleção, permitiu que a Letónia disparasse de vez no marcador com dois triplos seguidos de muito longe de Porzingis para 15 pontos de avanço (39-24). “Temos de defender a bola, nós temos de defender a bola, porra! As outras coisas vêm depois!”, gritava Mário Gomes no desconto de tempo, visivelmente irritado com esse momento da equipa. Era demasiado tarde: Portugal perdeu por completo o controlo da partida, marcando apenas sete pontos para sair a perder de forma clara ao intervalo por 50-28.

Tudo estava a correr mal num dia em que Porzingis apareceu a nível NBA com 17 pontos, 71% de triplos, seis ressaltos e três assistências em apenas 15 minutos. Era complicado perceber o que poderia trazer a segunda parte, com a desvantagem a parecer demasiado grande mas com 20 minutos para corrigir tudo o que de mal tinha acontecido no segundo período, mas a ideia parecia clara: jogar mais com Neemias Queta, trabalhar o jogo interior e fazer bloqueios diretos que permitissem lançamentos abertos sem oposição, o que estendeu a passadeira para os triplos de Rafael Lisboa. Os números não disparavam, Portugal também sentia algumas dificuldades em reduzir, os minutos iam passando com momentos de qualidade (65-43 no terceiro parcial) e as duas equipas já com o foco a começar a cair na última jornada, com a Letónia a jogar com a Rep. Checa para tentar confirmar o terceiro lugar do grupo A e Portugal a ter uma “final” com a Estónia.

Portugal ainda tentou manter a competitividade no quarto período, com alguns momentos em que reduziu o atraso que tinha no marcador, mas Mário Gomes foi aproveitando para fazer mais rotação na equipa, dando mais minutos de descanso a Neemias Queta (16 pontos e sete ressaltos) e a Rafael Lisboa, o outro grande destaque nacional (17 pontos, três assistências e dois ressaltos). Foi também nessa fase que apareceu Diogo Gameiro e Travante Williams, de novo condicionado por faltas muito cedo, que através de tiros longos ainda deixaram a partida a 12 pontos com 3.10 minutos para jogar (70-58). Luca Banchi, técnico italiano da Letónia, começava a não achar muita piada ao que via, pedindo mais concentração aos seus jogadores nas ações ofensivas, mas a vitória nunca chegou a estar em causa, fechando com o resultado final de 78-62.