Cinco de setembro de dois mil e vinte e cinco. É este o dia que vai ficar para a história do ciclismo português. Foi este sábado que João Almeida escreveu mais uma página de ouro na sua carreira e venceu no temível alto do L’Angliru. Na primeira etapa em que contou com o apoio de toda a equipa — como referiu o diretor desportivo Matxin —, o Bota Lume aproveitou o trabalho da UAE Team Emirates-XRG para deixar o seu carimbo nesta Vuelta e, depois de assumir as despesas da corrida a seis quilómetros do fim e de levar Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) ao limite, conquistou o primeiro lugar numa das subidas mais memoráveis do ciclismo. Para além, o português e o dinamarquês igualaram o recorde do Angliru que, pertence a Roberto Heras, desde 2000.

Nem o inferno foi suficiente para apagar o lume do trator: João Almeida vence no Angliru depois de ter trabalhado durante seis quilómetros

“É um dos dias mais marcantes da minha carreira. É uma subida muito longa e muito dura. Foram cinco horas a lutar o dia todo. Estou muito contente e a equipa esteve espetacular. Fizemos o nosso trabalho, demos o nosso máximo, tentámos e acho que merecíamos. Fiz o último quilómetro de forma muito inteligente e conseguiu rematar a vitória. Ainda estou sem palavras. É inacreditável! Queríamos marcar um ritmo alto no final da penúltima subida para fazermos a descida bem posicionados. Fizemos tudo certinho e os rapazes tiveram brutais e excelentes. Deram tudo o que tinham e não podia ter corrido melhor. Demos o nosso melhor e estamos satisfeitos. A vitória foi a cereja no topo do bolo. Temos etapas muito duras pela frente. A vitória dá-nos mais confiança e já começamos a ter a classificação geral bem estipulada e com boas diferenças de tempos. É darmos o nosso melhor e ver como é que conseguimos acabar”, assumiu o português à sua assessoria de imprensa, dando desde logo o mote para o que falta da Vuelta: “Nunca desistir”.

“Gostava de ter vencido hoje [sexta-feira]. Queria muito vencer hoje. Mas, para ser sincero, acho que o João mereceu a vitória. Ele esteve muito forte. Fiz tudo o que pude. Ele merece a vitória, mas, claro, estou um pouco dececionado por não ter vencido. No topo da penúltimo subida comecei a suspeitar, quando ele colocou toda a sua equipa a trabalhar. Dava para ver uma Emirates com intenções diferentes. Esforcei-me muito, principalmente no final. Também sinto um pouco de pena dos meus colegas de equipa, porque não consegui terminar o ótimo trabalho que fizeram. Todos perderam [tempo], à exceção do João. Agora talvez me possa concentrar um pouco mais no João. Gostava de ter vencido, pela minha família, pela minha equipe. É o Angliru, é um dia muito especial, uma subida lendária, e eu estava ansioso por isso”, explicou Vingegaard ao Eurosport.

Assim, o fim de semana começou com o pelotão a passar por mais uma etapa montanhosa nas Astúrias, com partida em Avilés e chegada na mítica La Farrapona, nos Lagos de Somiedo, apenas 136 quilómetros depois. Ainda assim, a 14.ª tirada contou com 3.800 metros de desnível acumulado, com passagens pelo Alto Tenebreo, com 5,8 quilómetros a 6,2% de inclinação média, e pelo Puerto de San Llaurenziu (9,9 km a 8,6%) antes de La Farrapona, que conta com 16,8 km a 6%, mas tem um traçado irregular, já que os primeiros 11 quilómetros têm pendentes baixas e os últimos seis se encontram acima dos 8%. Ainda assim, a etapa começou com mais um protesto pró-Palestina, que obrigou a Guarda Civil a escoltar o pelotão durante a saída neutralizada. A partir deste sábado, a Israel-Premier Tech anunciou que retirou do seu equipamento a palavra “Israel”, depois de já o ter feito nos carros e no autocarro da equipa.

O dia voltou a contar com uma fuga numerosa na dianteira, que contou com as presenças de Mikkel Bjerg e Marc Soler (Emirates), Victor Campenaerts (Visma), Bruno Armirail (Decathlon AG2R La Mondiale) e de Jefferson Cepeda (Movistar). O belga foi precisamente um dos primeiros protagonistas, ao criticar a falta de presença de um carro da Visma na frente, depois de ter sofrido um problema mecânico que podia ter colocado em causa a estratégia da sua equipa. Ainda assim, Campenaerts solucionou-o rapidamente e retomou a fuga de imediato. No pelotão, a Visma impôs um ritmo tranquilo até à parte decisiva da etapa, quando Ivo Oliveira (Emirates) aumentou o ritmo no início do Porto de San Llaurienzu, com a Emirates a partir o grupo logo a seguir.

Ainda assim, as emoções ficaram guardadas para a Farrapona, com Soler a atacar na fase inicial, com a companhia de Johannes Staune-Mittet (Decathlon), que não aguentou muito tempo o ritmo do espanhol. A cinco quilómetros do alto, o dorsal 7 já tinha mais de minuto e meio de vantagem para o norueguês e 2.44 para o grupo principal, que continuava a ser conduzido pela sua equipa. Os ataques ficaram guardados para o último quilómetro, com Vingegaard e Almeida a seguirem Jai Hindley (Red Bull-Bora-hansgrohe). Com a meta à vista, Marc Soler chegou à quarta vitória na Vuelta e deu à Emirates o sétimo triunfo em 14 etapas. Em termos coletivos, o espanhol juntou-se a Juan Ayuso, Jay Vine e João Almeida, que também triunfaram nesta edição da corrida espanhola. O português lançou o sprint final, mas acabou ultrapassado pelo dinamarquês em cima da meta, perdendo dois segundos nas bonificações. Assim, a diferença entre os dois aumentou para 48 segundos.