Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. A Volta a Espanha continua a ser dominada pela UAE Team Emirates-XRG que, apesar de não ter a liderança da prova, chegou esta quinta-feira à quinta vitória em etapas. Tudo aconteceu num dia em que uma longa fuga se distanciou no pelotão e acabou por vingar, com Marc Soler e Juan Ayuso a mostrarem que a equipa de João Almeida também pode (e sabe) trabalhar em equipa. No final, o último atacou, teve a companhia de Javier Romo (Movistar) e, ao sprint, garantiu o seu segundo triunfo nesta edição da Vuelta. Antes da chegada aos picos mais altos das Astúrias, a equipa do Médio Oriente deixou, assim, boas indicações, com o team manager Joxean Fernández a assegurar que, daí em diante, o seu bloco ia correr em detrimento do seu líder.

Juan tapou os ouvidos e mostrou que a Emirates também sabe ser uma equipa: Ayuso volta a vencer na Vuelta após grande trabalho de Soler

“Soler conhece, o Juan conhece e o João conhece. Acho que o segredo de subir o Angliru, por mais difícil que seja, é passar o Alto del Cordal na frente, fazer a descida rápido, mas com segurança, e encarar as primeiras subidas. Nos primeiros quilómetros do Angliru não precisas de te esforçar para assumir a liderança. Acho que o Cordal é uma subida difícil mas, acima de tudo, uma descida muito técnica. Acredito que haverá ciclistas a tentar entrar na fuga e, de agora em diante, devemos sempre apoiar João Almeida e trabalhar para João Almeida. Liberdade para Ayuso e Soler? Não. Veremos como está a fuga e quem está na fuga. Obviamente há corredores importantes que se integram e temos que alcançá-los, mas a partir de agora temos que estar com o João Almeida. Acredito que o conceito de equipa está mais do que claro e, mesmo agora, há etapas em que as fugas são protagonistas. Certamente acontecerá hoje [sexta-feira] mas, no final, temos que nos concentrar em João Almeida”, partilhou Matxin.

“Angliru? Tenho uma relação especial com essa subida. Só nos focamos em nós mesmos e, até agora, temos a camisola vermelha e duas vitórias em etapas. Tenho boas recordações. O Angliru é uma subida brutal. É muito, muito difícil. Acho que foi a primeira vez que realmente me mostrei de alguma forma. E sim, amanhã [sexta-feira] é a terceira vez [que faz a subida]. Espero que ter boas pernas. Para mim seria um sonho vencer no Angliru. É uma das subidas mais icónicas da Vuelta. Então, sim, isso seria um feito, um sonho”, antecipou o líder Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike).

Com partida em Cabezón de la Sal e chegada no Alto de L’Angliru, o pelotão teve de percorrer mais de 200 quilómetros esta sexta-feira, numa 13.ª etapa com cerca de quatro mil metros de desnível acumulado. As dificuldades estavam guardadas para os últimos 60 quilómetros, antes da mítica subida da Vuelta. A primeira subida de primeira categoria foi o Alto La Mozqueta, com 6,4 quilómetros a 8,2% de inclinação. Seguiu-se o Alto del Cordal, a tradicional porta de entrada no Angliru, com 5,5 quilómetros a 8,9%, com rampas de 13% e 14%. Por fim, o temível Angliru conta com 12,4 quilómetros a 9,8%, mas as dificuldades só começam depois dos primeiros seis quilómetros. É nessa fase que a subida sobe para uma estonteante média de 13,4%, com rampas acima dos 20% de inclinação.

A etapa começou com um duro revés para a Jayco AlUla, que perdeu Ben O’Connor, o segundo classificado da última edição e atual vice-campeão do mundo de fundo. Como seria de esperar, a etapa voltou a ficar marcada por uma grande fuga, de 25 elementos, que contou com a presença do aniversariante do dia Ivo Oliveira (Emirates), Jefferson Cepeda (Movistar), Antonio Tiberi (Bahrain-Victorious) ou Mads Pedersen (Lidl-Trek). Na antecâmara do Angliru, já sem Pablo Castrillo (Movistar), que caiu, em competição, Cepeda, Bob Jungels (Ineos Grenadiers) e Nicolas Vinokurov (XDS Astana), filho de Alexandr, foram os únicos que conseguiram resistir na frente, depois de Tiberi ter furado, numa fase em que o pelotão aumentou o ritmo através da Emirates. Na descida do Cordal, o italiano da Bahrain caiu e disse o definitivo adeus às aspirações pela etapa.

Com a velocidade média a rondar os 46 quilómetros por hora, um novo protesto pró-Palestina voltou a fazer-se sentir na corrida, com os manifestantes a provocarem a paragem dos ciclistas da fuga ainda durante a fase de descida. A corrida retomou sem incidentes desportivos e, já com Ivo no comando do pelotão, Egan Bernal (Ineos) começou por descolar no início do Angliru, onde o forte apoio português se fez sentir. A seis quilómetros do alto foi a vez de Felix Gall (Decathlon AG2R La Mondiale) e de Thomas Pidcock (Q36.5), terceiro na geral, perderem o contacto com os favoritos. Nessa fase, coube a Almeida assumir o controlo das operações, depois de um grande trabalho da Emirates. Só Vingegaard, Sepp Kuss (Visma) e Jai Hindley (Red Bull-Bora-hansgrohe) conseguiram seguir o ritmo do Bota Lume que, em poucas centenas de metros, alcançou Bob Jungels.

A 4,5 quilómetros do fim, a luta pela etapa ficou a reduzida a mais um duelo entre o português e o dinamarquês. Nas rampas mais inclinadas do inferno das Astúrias, os dois primeiros continuaram taco a taco mas, atrás, Hindley já perdia cerca de 50 segundos. O Bota Lume entrou no último quilómetro na dianteira e consolidou a primeira posição na fase de descida, chegando assim à sua segunda vitória em Grandes Voltas, a primeira na corrida espanhola, que não tinha um vencedor português desde 2023, com Rui Costa. Portugal tem agora 13 vitórias na Volta a Espanha, ao passo que esta edição continua a ser dominada pela Emirates, que tem agora seis triunfos em etapas. Vingegaard chegou colado a Almeida, mas perdeu quatro segundos nas bonificações, e o Angliru continua sem ver um triunfo de um camisola vermelha. Hindley completou o pódio, a 28 segundos.

Feitas as contas, Jonas Vingegaard tem agora 46 segundos de vantagem para João Almeida, que consolidou o segundo lugar, já que Tom Pidcock perdeu 1.16 minutos na estrada e está agora a 2.18 do dinamarquês. Jai Hindley é quarto, a 3.00, ao passo que Felix Gall completa o lote dos cinco primeiros, a 3.15. Noutra perspetiva, Espanha está cada vez mais perto de não colocar um ciclista no top 10 da Vuelta. Por esta altura, o melhor espanhol é Abel Balderstone (Caja Rural-Seguros RGA), que se encontra a cerca de dez minutos do décimo classificado, Sepp Kuss.