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Mais de 40 empresas de calçado portuguesas expõem em Milão. Governo diz-se otimista mas reconhece momento de incerteza

Este artigo tem mais de 1 ano

Na 100ª MICAM, o secretário de Estado da Economia fala em otimismo apesar do "momento de incerteza". Empresários mostram-se preocupados com o setor e pedem incentivos para a mão de obra.

Armínio Novais trabalha desde os 18 anos na empresa de calçados que o pai fundou, em 1967. Ao lado da filha, Estela, e do sobrinho, José Peixoto, fala com orgulho de como o negócio mantém-se na família, já na terceira geração. De fabrico artesanal e com sapatos clássicos em pele, a Penha tem 100% da produção destinada ao mercado internacional, apostando tanto na marca própria como na manufatura para marcas estrangeiras. “Fazemos sapatos Goodyear completamente flexíveis, macios e que recuperam a forma mesmo depois de o dobrar”, mostra o administrador da empresa, a destacar a qualidade ao manipular um dos sapatos expostos.

É o terceiro ano consecutivo que a Penha vem a Milão para mostrar os seus produtos. “Acreditamos que esta é uma montra no mundo dos sapatos”, assinala Armínio Novais. “Neste momento os mais interessantes são os mercados novos que nos estão a aparecer. África do Sul, Estados Unidos, Dinamarca, Japão, mercados que não tínhamos, fora da nossa zona de conforto, que era a França e a Alemanha.”

A Penha é uma das mais de 40 empresas portuguesas que estão este domingo, 7 de setembro, a expor na 100ª edição da MICAM, a feira de calçados internacional de Milão. O evento tradicional do calendário do setor é também uma das grandes oportunidades para a indústria, que tem focado nas exportações para superar a crise — Portugal é o sexto país com mais expositores, atrás apenas de Itália, Espanha, Turquia, Brasil e Alemanha. A expetativa é que mais de 30 mil compradores vindos de 150 países passem pela feira até terça-feira, dia 9.

▲ A Calçados Penha é uma empresa familiar de terceira geração

Na manhã do arranque da feira, uma comitiva do Governo visitou os espaços ocupados pelas marcas portuguesas. O secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, diz que entra no evento com otimismo, num cenário de dificuldade global. “Do ponto de vista económico, é um momento de incerteza, quer geopolítica ou até na própria alteração de consumo. Aliás, tem sido esse um padrão muito visível naquilo que vou conversando com os empresários, hoje há uma mudança de comportamento dos consumidores a nível global, que pode trazer alguma vantagem competitiva para Portugal”, considera o representante do Governo, assinalando que a tendência tem sido a de comprar “com menor frequência, mas com maior qualidade, e a preocupação com sustentabilidade e responsabilidade social, com uma busca pelo design”.

Paulo Gonçalves, porta-voz da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seu Sucedâneos (APICCAPS), que levou 42 empresas à feira, diz que a expectativa é de que o ano de 2025 seja de consolidação de mercados internacionais, numa altura em que aposta também nas presenças em semanas da moda internacional, como a de Nova Iorque, na próxima semana. “O setor já exporta mais de 90% da sua produção para praticamente todo o mundo, não estamos dependentes de um único mercado e isso, naturalmente, é altamente vantajoso para as nossas empresas”, assinala, destacando que “o mercado internacional está profundamente instável”.

“Os últimos dois anos foram difíceis para a fileira da moda como um todo e, naturalmente, foram difíceis para as empresas portuguesas de calçado. Nós já tivemos um final do ano 2024 muito positivo, as nossas exportações nesse período aumentaram praticamente 15%. Tivemos um bom desempenho no primeiro semestre deste ano, mas, em termos práticos, nós somos incapazes, num momento conjuntural tão adverso como este, de fazer previsões para os próximos meses e para os próximos anos.”

▲ O secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, a visitar o espaço do projeto BioShoes4All, focado no desenvolvimento de soluções sustentáveis para a indústria dos calçados

Governo tem visão otimista, empresas falam em dificuldades

Nas últimas semanas multiplicaram-se as notícias de empresas têxteis e do setor de calçados a fecharem as portas — um cenário que não é novo, mas que contrasta com o discurso positivo do Governo. “Estamos a falar de casos perfeitamente isolados, num universo de 1 .500 empresas, até numa altura em que a taxa de desemprego no setor é muito baixa, ou até mais baixa”, considera João Rui Ferreira, que diz que a secretaria de Estado do Trabalho e o Instituto de Emprego e de Formação Profissional (IEFP) estão a atuar para “garantir que aqueles trabalhadores tenham acesso a todos os direitos que têm consagrados na lei”, e num segundo momento, na “busca ativa de emprego”. “Não é uma situação desejável, mas tem sido possível recolocar. Há uma capilaridade e há uma transversalidade grande, às vezes até a nível de diferentes setores.”

Aos jornalistas, o secretário de Estado diz ainda que está a ser feito “um investimento enorme para que tudo decorra dentro de prazos e timings muito mais rápidos e muito mais diligentes”, com um novo regulamento que tem a intenção de simplificar o acesso aos incentivos públicos para que as associações e as empresas possam participar de feiras internacionais como a MICAM. Aposta assim “na simplificação da parte burocrática e numa confiança maior nas empresas, para darmos antes e fiscalizarmos depois, para que as empresas possam fazer os seus trabalhos com toda a tranquilidade”, disse João Rui Ferreira.

Além disso, o secretário de Estado diz que o Ministério está a reforçar os apoios à internacionalização. “É fundamental em alturas de retração de consumo estarmos cada vez mais presentes no mercado para que o consumidor, se compra menos, continue a optar pelo que é produzido em Portugal.” Em relação aos apoios à tesouraria e capitalização das empresas, João Rui Ferreira cita o Banco de Fomento, “numa dinâmica completamente nova, em milhões e milhões de euros em garantias que chegaram rapidamente às empresas para elas poderem, junto da banca comercial, fazerem os seus empréstimos e terem a liquidez e a tesouraria para trabalhar.”

João Rui Ferreira representou o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, que esteve em Milão um dia antes, a jantar com empresários do setor antes do arranque da MICAM, mas não participou na visita à feira ou falou com os jornalistas. Ao Observador, alguns dos que participaram na reunião confirmam que o Governo esteve disponível para ouvir os desafios que enfrentam, nomeadamente em temas como a falta de mão de obra ou os riscos associados às vendas para o exterior.

“Sim, tivemos oportunidade, e com muita recetividade, o setor tem sido ouvido”, diz Tiago Brandão Rodrigues, antigo ministro da Educação e desde junho CEO do grupo Kyaia, dono de marcas como a Fly London e, mais recentemente, da marca de sandálias de cortiça As Portuguesas. “A conversa é sempre muito aberta e muito honesta das dificuldades, mas também das oportunidades, porque o setor tem tido também a capacidade de se renovar”, considera.

“É preciso tornar esta indústria mais atrativa para as camadas mais novas através da formação. Precisamos de muitos apoios também na parte industrial”, assinala Catarina Véstia, Sales Director da marca Lemon Jelly, especializada em sapatos de plástico reciclado. “A indústria enfrenta bastantes dificuldades, em vários aspetos e não só Portugal. Sempre que nós temos crises, sejam elas de que natureza forem, o setor da moda é sempre o primeiro a ter o embate. Digo que este é o primeiro desafio que temos, e não acho que seja única e exclusivamente dos nossos governantes”, considera. “Tivemos a oportunidade de mostrar ao secretário de Estado que a nossa indústria é muito conceituada, que recebemos clientes do mundo todo e que fazemos aqui muito negócio. Precisamos que o país esteja do lado da nossa indústria porque temos um contributo bastante positivo para o PIB de Portugal”.

▲ A Lemon Jelly, especializada em artigos de plástico reciclado, é uma das marcas a expôr na MICAM

Tarifas dos EUA podem ser “vantagem”

De acordo com Paulo Gonçalves, 90% da produção de calçados portuguesa é para a exportação, destinada a 170 países. Na MICAM, os empresários citam mercados diferentes — há marcas a trabalhar para países como Alemanha, Países, Baixos e Inglaterra; enquanto outras assumem que o foco é no mercado norte-americano. Diante das tarifas de 15% impostas pela administração Trump para produtos europeus importados, e que entraram em vigor há uma semana, algumas das empresas que expõem na MICAM dizem ainda não sentir o impacto.

“Não afetou de todo. Os clientes mantêm as encomendas”, assume Cristiano Carvalho, Managing Director da PC Footwear, que produz calçados para marcas como a Maje Paris ou a norte-americana Rag and Bone. “Acredito que Portugal sempre teve este âmbito de trabalhar private label. O mercado português é um pouco difícil de se trabalhar e por isso temos que apostar no exterior”, diz, afirmando que a qualidade e o luxo é o diferencial para manter as exportações. Maria Manuela Vieira Rodrigues, da Tentoes, marca de calçados profissionais, também diz que a empresa não sente os efeitos da aplicação da tarifa. “Focamos muito na tecnologia e estamos sempre a apostar em algo novo”, considera.

Já o CEO da Kyaia olha para a aplicação dos direitos alfandegários com maior preocupação. “As tarifas são sempre menos boas. Obviamente que elas têm que ser comparadas e avaliadas, e por isso a Comissão Europeia falou de forma positiva destas tarifas, comparativamente a outros mercados. E porque sabemos que outros estão onerados com tarifas muito maiores. Mas as tarifas, por si só, não são boas”, assinala Tiago Brandão Rodrigues. “Se em determinado momento as tarifas forem muito altas, a inevitabilidade é que acabe por repercutir no consumidor final. E isso é muito complexo, porque se são mais caras, necessariamente as pessoas vão se retrair.”

“Conheço muito bem o setor industrial, sei o que é viver períodos de dificuldade, e este é maior“, diz o secretário de Estado da Economia, citando o exemplo das tarifas impostas pelos EUA. “Pode-nos abrir mais um cenário de aumento de competitividade e de posicionamento. O setor e as empresas estão conscientes disto. É uma altura de não desinvestir no mercado americano, pelo contrário, de investir mais, porque Portugal vai ficar melhor que outros.”

O porta-voz da APICCAPS concorda. “Se é verdade que nós pagamos taxas aduaneiras na ordem dos 15%, os grandes players internacionais, como a China, vão pagar 30%. Outro player internacional, a Índia, paga 50%, o Brasil, que é outro produtor de calçado de referência a nível internacional, vai pagar 50%. O México, 25%. Portanto, na cena competitiva internacional, nós até ficamos relativamente bem posicionados.”

Para ultrapassar as dificuldades, as empresas apostam em sustentabilidade e inovação. “Diria que os investimentos que temos vindo a fazer na área da automação, da robótica, da sustentabilidade, criam um novo posicionamento estratégico das nossas empresas na cena competitiva internacional. Nós estamos, de facto, a investir como nunca. No âmbito do PRR são 100 milhões de euros que estamos a terminar de investir. E isso permite que as nossas empresas sejam mais rápidas, que sejam mais ágeis e sejam mais capazes de responder aos desafios que lhes são colocados pelos nossos clientes internacionais.”

O Observador está em Milão a convite da APICCAPS.

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