O primeiro de três match points acabou por cair para o lado de Jonas Vingegaard. Na penúltima etapa de montanha da Volta a Espanha, e antes do contrarrelógio de Valladolid, o dinamarquês da Visma-Lease a Bike foi um dos vencedores do dia, apesar de ter terminado na quarta posição. Com chegada no Alto de El Morredero, Giulio Pellizzari (Red Bull-Bora-hansgrohe) atacou nos quilómetros finais e cortou a meta isolado, à frente de Thomas Pidcock (Q36.5) e Jai Hindley (Red Bull), chegando assim à primeira vitória da sua carreira enquanto profissional. Vingegaard e João Almeida (UAE Team Emirates-XRG) admitiram não estar na melhor forma e chegaram logo a seguir, com o duas vezes vencedor da Volta a França a ganhar dois segundos ao principal rival.

Giulio deu a cara ao vento e fez história em terreno hostil: Pellizzari soma primeira vitória da carreira, com Almeida a perder 2 segundos

A etapa desta quarta-feira ficou marcada por mais uma prestação coletiva desastrosa da Emirates que, apesar de não ter colocado ninguém na fuga do dia, deixou a Visma trabalhar durante quase toda a etapa e, no final da etapa, deixou o português sozinho à entrada para a derradeira subida, contra quatro elementos das abelhas. O trabalho — ou a falta dele — de Juan Ayuso, Jay Vine e Marc Soler voltou a ser questionado. Curiosamente, o desnorte da equipa liderada por Matxin estendeu-se para fora da estrada, com a equipa a partilhar, na rede social X, uma publicação após a etapa em que referia que o objetivo do português passava por terminar no pódio e que o objetivo estava perto de ser alcançado. As críticas começaram a surgir, a mensagem foi apagada e substituída por outra, mais genérica: “O corredor português segurou o segundo lugar na geral antes das etapas decisivas”.

Pouco depois, a Emirates aproveitou ainda para dedicar inteiramente uma publicação ao Bota Lume. “No olho do furacão da Vuelta, João recusou-se a pestanejar. Ele é, acima de tudo, um lutador. A lutar contra os seus adversários e contra as inclinações extenuantes, João Almeida deu mais uma demonstração de determinação na etapa 17. A batalha começou e estamos bem posicionados!”, escreveu a equipa, acompanhando a mensagem com quatro imagens do dorsal um.

“Não foi perfeito, mas estes dias passam. Havia vento forte de frente e ninguém queria gastar mais [energia] do que os outros. Foi por isso que ninguém estava a atacar. Estou um pouco chateado, como todos. Estou apenas cansado como todos. A primeira parte [da subida] foi bastante difícil. Foi muito difícil. A segunda parte estava com muito vento. Ninguém queria gastar mais do que os outros. Prefiro não responder aos ataques, mas sim colocar o meu próprio ritmo, porque é mais confortável para mim. Ganhar a Vingegaard? Não tenho uma bola mágica, então não sei. Melhor no contrarrelógio do Tour? O que aconteceu da última vez não nos dá nenhuma garantia. Tenho que ter as pernas fortes amanhã [quinta-feira]”, referiu o atleta de A dos Francos no final da etapa.

“Para ser honesto, acho que sofri mais antes da última subida do que na última. Acho que o ritmo estava muito alto e, sim, foi um dia muito difícil. Tinha a esperança de vencer hoje [quarta-feira], mas não consegui. Ganhar dois segundos na classificação geral é, obviamente, melhor do que nada. Acho que ninguém se conseguiu poupar. Foi um dia difícil para todos e amanhã é o contrarrelógio. Vantagem de 50 segundos? Depende do quão bom eu estiver no contrarrelógio. Se fizer um bom contrarrelógio, acho que 50 segundos devem ser suficientes. Mas sim, se tiver um dia mau amanhã, posso perder mais de 50 segundos”, retorquiu Vingegaard, numa altura em que ainda não sabia o que estava pela frente.

Como tem sido apanágio desta Vuelta, a concentração dos protestos pró-Palestina, contra a participação da Israel-Premier Tech, levou a organização, na véspera, a reduzir o contrarrelógio de 27,2 quilómetros para apenas 12,2, com vista a garantir a segurança dos ciclistas. Ainda assim, os locais de partida e chegada mantiveram-se intocáveis, ainda que a mudança do percurso se tenha revelado desfavorável aos especialistas na luta contra o cronómetro. Essa mudança também complicou a missão de João Almeida que, até esta quinta-feira, tinha ficado à frente de Jonas Vingegaard em quatro dos sete contrarrelógios em que os dois se enfrentaram, o último dos quais na Volta a França, em que o português ganhou sete segundos ao dinamarquês.

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Não foi preciso esperar muito tempo para se ver um dos melhores tempo do contrarrelógio, com o antigo campeão do mundo da especialidade e recordista da hora, Filippo Ganna, a aproximar-se de baixar do minuto 13 (13.00,89), superando Daan Hoole (Lidl-Trek) na primeira posição. Pouco depois, Ivo Oliveira ameaçou o tempo do italiano, apesar de não ter mostrado bons indicadores nos pontos intermédios. Ainda assim, o português da Emirates acabou a apenas dez segundos de Pippo, colocando-se no segundo lugar. O português conseguiu segurar a sua posição perante a ameaça de Stefan Küng (Groupama-FDJ) e Kelland O’Brien (Jayco AlUla), que ficaram a 11 e 14 segundos de Ganna. Jay Vine (Emirates) ainda ameaçou no segundo ponto intermédio, mas acabou a apenas nove décimos de segundo do italiano, tirando o segundo lugar ao seu colega de equipa. Já Bruno Armirail (Decathlon AG2R La Mondiale) fez mais 9,9 segundos e retirou Ivo Oliveira do pódio.

Já com todos os corredores na estrada, João Almeida perdia apenas 58 centésimos para o melhor tempo no ponto intermédio 1, fase em que ganhava pouco menos de dois segundos a Jonas Vingegaard. Ao quilómetro oito, o português perdia sete segundos para Vine, mas continuava a ganhar ao camisola vermelha — três segundos. Na meta, o Bota Lume manteve o nível e terminou na terceira posição, a 7,57 segundos de Filippo Ganna, que garantiu o triunfo com um tempo de exceção. Vingegaard acabou a 18 segundos do italiano, perdendo dez segundos para Almeida. Assim, a Emirates colocou três corredores no top 5 da etapa, com Ivo Oliveira a terminar no quinto lugar. Há dez anos que Portugal não colocava dois ciclistas nos cinco melhores de uma etapa de uma Grande Volta, altura em que Nelson Oliveira (segundo) e Tiago Machado (quinto) estiveram em destaque na 19.ª etapa da Vuelta.

Quanto à geral, a diferença entre Vingegaard e Almeida está agora nos 40 segundos, numa altura em que faltam apenas três etapas para o final da Vuelta. Pidcock teve um dia importante para consolidar o pódio, tendo agora 39 segundos de vantagem para Hindley (2.39 minutos contra 3.18). Pellizzari completa o top 5, a 4.19, com Matthew Riccitello (Israel) a subir ao sexto lugar, por troca com Felix Gall (Decathlon Ag2R La Mondiale). Os dois estão separados por apenas três segundos: 5.17 face a 5.20. Destaque ainda para a classificação da juventude, que continua em aberto, já que o italiano da Red Bull e o norte-americano da Israel estão separados por apenas 58 segundos.