“Israel mata, La Vuelta patrocina”. O cartaz que apareceu na berma de uma das últimas etapas da Vuelta é a explicação rápida e direta para os protestos pró-Palestina que têm sido verdadeiros protagonistas da competição. Com fim agendado para o próximo domingo, dia 14 de setembro, a Vuelta não tem conseguido escapar ao conflito que é tema principal no mundo inteiro há cerca de dois anos.

Se é certo que o ciclismo sempre foi palco de vários protestos ou declarações políticas, pelo facto de as pessoas poderem surgir livremente junto ao percurso ou até esperar durante horas junto à meta, também é certo que a Vuelta que está atualmente a decorrer tem sido o alvo primordial dos ativistas pró-Palestina espanhóis. Podia ser por acaso, pelo simples facto de acreditarem na causa palestiniana e quererem defendê-la publicamente e num local com muita comunicação social presente — mas não é por acaso e está relacionado com uma equipa em específico.

A redenção de Egan num espectáculo que ficou em suspenso: fuga voltou a triunfar e Vingegaard furou em mais uma etapa marcada por protestos

Nas últimas semanas, os protestos que têm agitado a Vuelta estão relacionados com a participação da Israel-Premier Tech. Se é certo que a equipa é privada e não é oficialmente apoiada pelo governo de Israel, também é certo que o dono da equipa é o alvo dos manifestantes: Sylvan Adams, bilionário israelo-canadiano que é um “autoproclamado embaixador de Israel pelo mundo”, é amigo próximo de Benjamin Netanyahu, presidente do Congresso Judaico Mundial, defende a “criação de um Estado judeu na Palestina” e durante a Vuelta já disse que os israelitas estão “a perder a batalha da comunicação” contra o Hamas.

Fundada em 2015 como Israel Cycling Academy, a equipa tinha o objetivo de potenciar os jovens ciclistas israelitas e começou com seis atletas com menos de 25 anos. Cresceu, tornou-se internacional e passou da terceira para a segunda divisão em 2017, chegando ao World Tour já em 2020. Atualmente, com uma década de existência, a Israel-Premier Tech conta com um plantel de 32 ciclistas onde só se incluem três israelitas — e só um está na Vuelta.

A presença da equipa na competição alimentou e potenciou os protestos pró-Palestina. A 11.ª etapa terminou sem vencedor e com os tempos tirados a três quilómetros da meta devido à presença de manifestantes no final; na 13.ª etapa, que João Almeida venceu, um grupo de protestantes travou três ciclistas da fuga no início do Angliru, sendo que nenhum pertencia à Israel-Premier Tech; já esta terça-feira, na 16.ª etapa, Egan Bernal foi consagrado o vencedor mas os tempos foram tirados a oito quilómetros da meta. Pelo meio, Javier Romo, ciclista espanhol da Movistar, teve de abandonar na sequência de uma queda provocada por um protestante.

Uma insegurança que, já na semana passada, levou o diretor técnico da Vuelta a convidar a Israel-Premier Tech a abandonar a competição. “Vamos tentar, todos juntos, forçar… Que as pessoas entendam que a situação não é fácil e que, juntos, possamos encontrar uma solução. Para mim só há uma e todos sabemos qual é, que seja a própria equipa a perceber que estar aqui não facilita a segurança de todos os outros”, disse Kiko García, acrescentando estar a viver “o pior momento” dos 16 anos que leva como responsável pela competição. A resposta da equipa foi imediata e, de forma muito expectável, negativa.

“A Israel-Premier Tech é uma equipa profissional de ciclismo e, como tal, continua comprometida em participar na Vuelta. Qualquer outra alternativa abriria um precedente perigoso no ciclismo, não apenas para a Israel-Premier Tech, mas para todas as equipas. O comportamento dos manifestantes em Bilbao não foi apenas perigoso, mas também contraproducente para a causa e privou os adeptos de ciclismo bascos, que estão entre os melhores do mundo, da chegada que mereciam”, podia ler-se no comunicado.

A equipa tem tido um acompanhamento específico e particular, sendo vigiada de perto pela polícia tanto nas deslocações como nos hotéis em que a comitiva fica hospedada. Apesar de recusar retirar-se da Vuelta, a direção da Israel-Premier Tech acabou mesmo por retirar o nome da equipa do autocarro e também dos próprios equipamentos dos ciclistas, que agora têm apenas um “P” e uma estrela. Já esta quarta-feira, depois de uma reunião entre as equipas e a Associação de Ciclistas Profissionais, o pelotão garantiu que irá neutralizar qualquer etapa se ocorrer um novo incidente, já que “terminar uma corrida numa linha de meta indefinida não é justo”.

Com a Vuelta a aproximar-se do fim e o contrarrelógio desta quinta-feira a ser encurtado para 12,2 quilómetros para “garantir maior proteção”, têm surgido dúvidas e inquietações sobre a última etapa em Madrid. Nas últimas horas, o diretor da Vuelta assegurou a intenção de “levar a corrida até Madrid” e a autarquia da capital espanhola anunciou entretanto que a derradeira tirada, no domingo, vai contar com a presença de 1.500 elementos das forças de segurança — o maior contingente policial na cidade desde a Cimeira da NATO, em 2022.

Com a União Ciclista Internacional a declarar insistentemente que a equipa tem “legitimidade” para participar e a direção da Vuelta a empurrar a responsabilidade para a organização que regula o ciclismo mundial, a Real Federação Espanhola de Ciclismo acabou por tornar-se a primeira entidade a deixar uma palavra aos protestantes, embora com o apelo de que defendam a causa de forma pacífica.

“Queremos expressar o nosso máximo respeito por quem se manifesta de forma pacífica, mas também e especialmente a nossa preocupação pelo risco extremo que acarreta invadir o percurso de uma etapa, já que os ciclistas e os veículos de apoio circulam a grande velocidade e ficam expostos a quedas graves e lesões, como já aconteceu. Por isso, pedimos a todas as pessoas que se manifestam que o façam de forma pacífica e sem criar obstáculos ao decorrer da competição. Com o máximo cuidado em relação aos ciclistas, respeitando o exercício da sua profissão, já que nem os ciclistas nem o ciclismo são responsáveis pelos atos em causa”, pode ler-se no comunicado.

De forma natural, também os ciclistas têm sido questionados sobre os protestos, com João Almeida a dizer que “compreende” os protestantes”, mas “desde que não o façam de forma agressiva e não coloquem ninguém em perigo”, já que “cada um tem o seu direito”. Jonas Vingegaard, porém, teve uma posição mais forte. “Para ser sincero, acho que todos nós sentimos que o que se passa aqui, com todas as pessoas que se têm manifestado, é que procuram uma forma de chegar às notícias. Sentem que não há atenção suficiente, estão muito desesperadas e é por isso que o fazem. É apenas infeliz que os protestos tenham de ocorrer aqui”, defendeu o atual camisola vermelha da prova.