A empresa que ganhou os dois últimos concursos públicos para a manutenção dos ascensores da Carris, a MNTC, foi contratada para realizar a reparação geral do elevador da Glória em 2018, na sequência de um descarrilamento que aconteceu em maio daquele ano e que não teve consequências. E antes disso já tinha, em 2017, entrado nos ascensores da Carris, quando fez a reparação geral do elevador da Bica.
Isto numa altura em que a Carris tinha um contrato com uma outra empresa, a CME, para a prestação dos serviços de manutenção aos ascensores explorados pela empresa de transportes. Mas o contrato não vinculava o operador à realização das grandes reparações e a Carris podia escolher outro fornecedor para esses serviços. Foi o que fez em 2017 e em 2018.
Em 2018, a reparação no ascensor da Glória aconteceu depois de um incidente que foi, na altura, mantido em segredo.
Fonte oficial da Carris confirma que a MNTC (também conhecida como Main) prestou serviços de reparação geral do ascensor da Glória em maio de 2018. Questionada sobre o primeiro contrato realizado com esta empresa para os ascensores, a Carris indica que a MNTC também fez a reparação geral do elevador da Bica em 2017, ano em que a CME também tinha o contrato de manutenção.
A Carris destaca que os contratos feitos a partir de 2019 com a MNTC (Serviços Técnicos de Engenharia) — os únicos que disponibilizou no seu site — incluem todos os serviços de manutenção com exceção das operações que só ocorrem periodicamente, nomeadamente a reparação geral e a reparação intercalar, que não estão incluídas nesses contratos realizados depois de concurso público.
Não foi possível confirmar, para já, que fornecedor fez a última grande reparação realizada em 2022 antes do acidente no ascensor da Glória na semana passada que provocou a morte a 16 pessoas. Também não há informação sobre quem fez a reparação intermédia de 2024, quando foi instalado o cabo que cedeu no seu ponto de fixação. A cedência neste ponto do cabo que ligava as duas carruagens foi destacada como potencial causa na primeira nota informativa sobre a investigação ao acidente, divulgada pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF).
O que dizem as provas recolhidas sobre as causas do acidente
A política de manutenção da empresa municipal de transportes públicos tem estado debaixo de fogo na sequência do acidente de setembro cujas causas estão a ser investigadas por várias entidades, para além do GPIAAF. A Carris tem contratos com empresas privadas para a manutenção regular dos ascensores, mas estes contratos excluem partes da manutenção. Algumas dessas áreas, como a via férrea e a via aérea, são asseguradas pela própria Carris através dos seus serviços de manutenção, outras são contratadas fora a empresas privadas.
Em 2018, ocorreu um descarrilamento do ascensor da Glória que não provocou danos pessoais ou no equipamento, mas revelou insuficiência na manutenção da via férrea e do rodado dos ascensores, tarefa que estava atribuída à própria Carris (e não à CME, que tinha a manutenção regular). Na sequência desse incidente, a Carris aumentou a exigência interna no padrão de manutenção dos equipamentos, mas decidiu também antecipar a reparação geral do ascensor que estava agendada para o final de 2018. Essa antecipação foi confirmada pela Carris, tendo obrigado à paragem da operação do elevador pouco mais de um mês.
Descarrilamento de 2018 do Elevador da Glória não deu origem a relatório
O Observador confirmou entretanto que a empresa contratada para realizar essa manutenção geral foi a MNTC, não obstante a Carris ter feito até 2019 três contratos de prestação de serviços de manutenção com um outro fornecedor, a CME — Construção e Manutenção Eletromecânica.
Só a partir de 2019, e já depois de realizada esta grande reparação na Glória por um valor que terá sido da ordem dos 76 mil euros, é que a MNTC se apresentou pela primeira vez ao concurso de longo prazo para a prestação de serviços de manutenção dos ascensores. Em 2019, a MNTC concorreu ao lado de mais três fornecedores — a Gásfomento, a GMF e a CME. Esta última acabou excluída por ter apresentado um preço superior ao valor base. Das outras três, a MNTC ganhou por ter o preço mais baixo, de acordo com informação recolhida pelo Observador. O contrato de 2019 foi atribuído por 868.140 euros para três anos (um ano com duas renovações de um ano). Este total representaria uma faturação de quase 300 mil euros por ano, um valor relevante para a MNTC, que em 2024 faturou no total 1,3 milhões de euros.
Até 2019, estes concursos tinham sido dominados pela CME, uma empresa de maior dimensão e mais conhecida no setor. O primeiro contrato foi feito em 2012 e durou três anos. Em 2015, foi lançado um outro concurso ao qual concorreram a ISPT — Industrial Services e a Pinto & Bentes, para além da CME que voltou a ganhar.
Este contrato consultável no portal Base abrangia a prestação de todos os serviços de manutenção (preventiva, sistemática e curativa) dos equipamentos, sistemas elétricos e eletromecânicos constituintes dos ascensores da Bica, Lavra e Glória e o elevador de Santa Justa, incluindo as estruturas e caixas, vem como os cabos de tração. Estavam excluídas as reparações intermédias e gerais das caixas dos ascensores que à data estavam previstas realizarem-se de três em três anos em cada elevador e quando fosse necessário no entender da Carris.
Em 2018, e ao contrário da prática dos anteriores concursos, a Carris optou por entregar a manutenção por apenas um ano e realizou uma consulta junto de três entidades, a CME, a Efacec e a Gasfomento. Voltou a ganhar a CME, mas este contrato durou apenas até ao concurso de 2019 que foi ganho pela MNTC.
Os contratos disponíveis no portal Base entre a Carris e a MNTC começam em 2020 e não incluem o primeiro grande concurso de manutenção ganho em 2019. De acordo com informação recolhida pelo Observador, haverá outros contratos entre esta empresa e Carris até anteriores a 2018, nomeadamente no que toca à manutenção de elétricos. Mas não foram publicados no portal Base porque a empresa de transportes invoca o facto de operar num setor especial, o que a dispensa de divulgar contratos. Esse foi o argumento usado para não divulgar o ajuste direto feito com a MNTC em agosto para a manutenção dos ascensores depois de o último concurso ter ficado deserto, mas entretanto foi publicado no portal Base.
Neste portal que tem os contratos públicos surgem seis negócios da MNTC com a Carris: o ajuste direto deste ano (221,3 mil euros); o contrato para a manutenção dos ascensores de 2022 (995,5 mil euros); a aquisição de serviços para tratamento de expurgo de três elétricos do Museu da Carris (18,95 mil euros); aquisição de revisão de três carros elétricos ao serviço no Natal (11,3 mil euros); revisão de elétricos no Museu (40,26 mil euros); reparação de oito elétricos no Museu (19,5 mil euros). O primeiro contrato que surge no Base é este último de agosto de 2019. Mas a Carris confirma que a relação com a MNTC já vinha de trás.