Tal como todos os miúdos que nasceram na Jamaica nas últimas décadas, Oblique Seville cresceu a idolatrar Usain Bolt. De repente, o homem mais rápido do mundo tinha nascido ali mesmo, no mesmo sítio que ele, rodeado das mesmas ambições e dos mesmos obstáculos. Ainda assim, Oblique nunca escondeu que existia um ídolo maior — o pai.

Numa entrevista aos canais oficiais dos Jogos Olímpicos na semana passada, o jamaicano revelou que tem uma fotografia com mais de 20 anos na capa do telemóvel. Mostra um homem a carregar uma criança ao colo, o pai de Oblique Seville a carregá-lo ao colo, numa recordação constante de quem sempre acreditou que estava a criar um atleta de topo.

“Adoro fotografias. Não interessa quem está lá… Construí um amor pelas câmaras, por tirar fotografias. E há uns anos descobri que o meu pai tinha uma câmara e também adorava tirar fotografias e pensei ‘ok, é daqui que isto vem'”, contou o jamaicano de 24 anos. O que Oblique Seville ainda não sabia, na altura da entrevista, era que estava prestes a ser o protagonista da melhor fotografia que já lhe tiraram.

Este domingo, o atleta jamaicano foi o mais rápido na final dos 100 metros nos Mundiais de Atletismo que estão a decorrer em Tóquio, ao correr a distância em 9.77 segundos, e conquistou a primeira medalha individual da carreira — e desde logo um ouro num dos maiores palcos globais. Oblique Seville bateu o compatriota Kishane ­Thompson, que ficou com a prata, e também o norte-americano Noah Lyles, campeão mundial em título que foi também o vencedor da distância nos Jogos Olímpicos de Paris, que não foi além do bronze. Sem partir sequer ficou Letsile Tebogo, atleta do Botswana que é campeão olímpico nos 200 metros, já que não evitou uma partida falsa e também não protestou assim que viu o consequente cartão vermelho, deixando a pista de imediato sob aplausos.

Aos 24 anos, Oblique Seville conseguiu vingar as duas últimas edições dos Mundiais de Atletismo, onde tinha ficado no quarto lugar nos 100 metros apesar da medalha de ouro na estafeta 4×100 em 2023, e também a prestação nos últimos Jogos Olímpicos, onde foi o mais rápido nas meias-finais mas acabou por ser traído por uma lesão muscular, terminando na última posição da final. Nas bancadas do Estádio Nacional de Tóquio, Usain Bolt não escondeu o entusiasmo com a vitória do compatriota e foi visto a celebrar efusivamente, entre gritos e punhos cerrados.

“Foi um prazer ter o Usain a ver-me. O treinador dele é o meu treinador e sei que ambos estão muito orgulhosos de mim neste momento. Já me tinham dito que ia ser campeão mundial. E eu consegui provar, à frente dele, que sou mesmo. Estou muito orgulhoso disso. Agora, mais medalhas de ouro”, atirou Seville, que trabalha com Glen Mills desde a adolescência, altura em que pediu à mãe para integrar a famosa Racers Track Club na Jamaica para ser treinado por quem moldou Usain Bolt.

“Em Paris lesionei-me na final e não consegui chegar onde queria, mas aprendi com os meus erros. Provei que sou um verdadeiro competidor, que tenho a determinação de um campeão. Ainda assim, estava em pânico. Terminar bem nos últimos 30 ou 40 metros foi algo com que batalhei durante toda a temporada. Mas agora aperfeiçoei. E tinha a confiança de que, se conseguisse fazê-lo na final, ganhava. A velocidade é tanto mental como é física. E, para ser honesto, acho que me tornei mestre na parte mental”, sublinhou, acrescentando que “o ouro voltou para casa”, já que a Jamaica não alcançava uma vitória nos 100 metros desde a última de Usain Bolt, em 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio.

Quanto a Noah Lyles, que nunca tinha perdido uma final dos 100 metros em Mundiais de Atletismo, o norte-americano atribuiu grande parte da responsabilidade a uma lesão. “A diferença entre o ano passado e este ano é a minha lesão. Lesionar-me a meio da temporada não fazia parte dos meus planos. Infelizmente, fez com que tivesse de apressar muita coisa. Cheguei aos Mundiais com apenas quatro corridas de 100 metros de preparação. Ainda assim, consegui fazer o melhor tempo da temporada na final e nunca poderei ficar desiludido com isso”, explicou, garantindo que vai defender o título mundial dos 200 metros.