“Ser bom ator consiste, antes de tudo, em tentar nunca ser mau e em não ter medo do público”, disse, certa vez, Robert Redford, que morreu esta terça-feira, 16 de setembro, aos 89 anos. E tendo em conta a sua beleza apolínea, a sua masculinidade melancólica e a sua presença serena, monopolizadoras de todas as atenções, e em especial das da câmara de filmar, que lhe votava uma adoração sem limites, Redford nunca teria precisado de ser um ator sobredotado para triunfar no cinema. Mas às capacidades de representação, Redford juntava também essa rara e inefável qualidade de “estrela”, o star power, ou o carisma de voltagem estratosférica, como lhe queiram chamar, que o elevou à categoria dos maiores, mais bem-amados e fervorosamente admirados, e com estatuto de lenda, como Clark Gable, Gary Cooper, John Wayne, Paul Newman, Clint Eastwood ou Jack Nicholson. E que fez que, tal como estes, qualquer que fosse a personagem que interpretasse, era Robert Redford que víamos primeiro, e acima e apesar dela.
Típico exemplar da juventude californiana solar e atlética, um “golden boy” de Santa Monica, Redford perdeu, por causa da bebida, a bolsa de estudo desportiva que lhe iria proporcionar uma carreira no basebol, e desistiu depois de ser pintor por achar que não tinha talento suficiente; e já em Nova Iorque e sem saber bem o que fazer, acabou por ser orientado para a representação, embora com relutância, pela primeira mulher, Lola Van Wagenen, que assim o desviou do álcool e da depressão. Na década de 60, e após vários papéis na televisão, e na Broadway, onde se fez notar na peça Descalços no Parque, de Neil Simon, a sua participação no filme O Estranho Mundo de Daisy Clover, de Robert Mulligan (1965), ao lado de Natalie Wood, deu-lhe o Globo de Ouro de Melhor Revelação, lançou-o de vez no cinema e apresentou-o a Sydney Pollack, que o dirigiria em sete filmes. O primeiro dos quais logo em 1966, A Flor à Beira do Pântano, de novo com Natalie Wood e escrito por Francis Ford Coppola segundo uma peça de Tennessee Williams.
Robert Redford foi também um exemplo destacado de estrela de cinema com forte consciência cívica e preocupações político-sociais, nomeadamente na defesa e proteção do meio ambiente, que projetou em vários dos seus filmes, e interpretando personagens caracterizados pelo idealismo e pela retidão moral e ética. Embora fizesse o retrato chapado da celebridade “liberal” à americana, e fosse apoiante do Partido Democrata, Redford dizia-se “anti-ideológico” e frisava a sua independência. “Acho que são mal interpretado. Não sou uma pessoa de esquerda. Sou apenas uma pessoa interessada na sustentabilidade do meu país”, comentou numa entrevista em 2007. E ao contrário do que acontece com muitos dos seus pares, o ativismo de Robert Redford, muito em especial o ecológico, não era um mero gesto de sinalização de virtude, mas uma convicção sincera e ligada ao seu amor de longa data pelo Oeste americano e pela sua história, paisagem, pessoas e tradições: “É a região do país que eu prefiro, e representa também uma grande parte da minha vida”.
A sua dedicação ao cinema independente levou-o a fundar em 1981, na propriedade do Utah onde tinha um rancho ecologicamente modelar e uma pista de ski (desporto de que era praticante de longa data) o Sundance Institute para jovens aspirantes a realizadores, a que se seguiram o Festival de Cinema de Sundance, que se tornou no maior festival de cinema independente dos EUA e um farol no seu género, os Cinemas Sundance e um canal de televisão, o Sundance Channel. Em 1980, passou para trás das câmaras com o filme Gente Vulgar, que ganhou o Óscar de Melhor Realizador no ano seguinte e foi o primeiro de uma também importante carreira de cineasta, paralela à de produtor. Esta conta com vários títulos dedicados à cultura dos índios norte- americanos, sobre os quais Redford chegou a escrever um livro, Splendid Heritages: Perspectives on American Indian Arts, em colaboração com John e Marva Warnock. Selecionámos, numa escolha muito pessoal, 15 dos melhores e mais representativos filmes de Robert Redford como ator e como realizador. Uma dupla identidade artística que ele comentava com bom humor: “Como ator, não me quereria enquanto realizador. Como realizador, não me quereria enquanto ator”.
ROBERT REDFORD, ATOR
“O Estranho Mundo de Daisy Clover”
De Robert Mulligan (1965)
O “estranho mundo” do titulo é a Hollywod dos anos 30, e ela é uma maria-rapaz de 15 anos, interpretada por Natalie Wood, cujo sonho de ser uma estrela de cinema se torna realidade, mas acaba por pagar caro o preço da fama. Robert Redford personifica Wade Lewis, um colega de Daisy e bissexual secreto, com o qual ela se casa. Redford ganhou o Globo de Ouro de Melhor Revelação pela sua interpretação e o papel pô-lo no mapa – da mesma Hollywood tão negativa e acidamente retratada no filme.
“Dois Homens e um Destino”
De George Roy Hill (1969)
Assinado por um dos dois realizadores favoritos de Robert Redford, juntamente com Sydney Pollack, este western de final de género escrito por William Goldman, emparelhou-o pela primeira vez com Paul Newman e permitiu-lhe começar a contrariar o estereótipo de galã louro e ligeiro em que temia ser encerrado pelos estúdios. Newman e Redford divertem-se, e encantam-nos, a interpretar-se a eles mesmos interpretando versões fantasistas dos verdadeiros foras-da-lei Butch Cassidy e Sandance Kid. Anos mais tarde, Robert Redford percorreu o Outlaw Trail em que estes dois cavalgaram nos seus tempos, falando com idosos que ainda se lembravam da era dos pistoleiros, e publicou The Outlaw Trail: A Journey Through Time, um livro ilustrado com muitas fotografias.
“Os Corredores da Montanha”
De Michael Ritchie (1969)
Fanático de ski, Robert Redford assumiu por isso mesmo a produção desta fita em que dá vida a David Chapellett, um esquiador profissional ambicioso, com mau feitio e muito individualista, que chega à equipa olímpica da modalidade graças à lesão de outro atleta, e logo entra em conflito com todo o grupo e em especial com o treinador (Gene Hackman). Redford tem aqui uma das suas interpretações mais exemplarmente reservadas, tirando muito do pouco que mostra, e o filme é também um dos melhores sobre desporto de sempre.
“As Brancas Montanhas da Morte”
De Sydney Pollack (1972)
Rodado no Utah, o estado de adoção de Robert Redford desde a década de 60, As Brancas Montanhas da Morte é em parte baseado na vida do antigo militar e caçador de peles John Jeremiah Johnson, que Robert Redford personifica e lhe ficou associado como um dos seus mais poderosos papéis, num filme a que a realização de Sydney Pollack confere uma respiração épica, e a paisagem magnífica mas também mortífera, uma beleza que fascina e intimida ao mesmo tempo. Redford mantém o seu Jeremiah Johnson sempre tangivelmente humano, insinuando também o estatuto de lenda que a figura atingiu.
“O Candidato”
De Michael Ritchie (1972)
O ator reencontra Michael Ritchie nesta sátira política em que interpreta Bill McKay, um político jovem e idealista, filho de um veterano do Partido Democrata e com poucas esperanças de ganhar o lugar no Senado ao seu experiente rival Republicano. McKay, que não simpatiza com o “sistema”, vê-se constantemente surpreendido, frustrado e ultrapassado pelo funcionamento do aparelho eleitoral que foi posto de pé para a sua campanha, e pelo comportamento daqueles que o dirigem. A comédia nasce do contraste entre a sinceridade ingénua do candidato e o calculismo, o pragmatismo e os interesses de quem o apoia, aconselha e orienta, e Redford mostra-se aqui não cético da atividade política, mas sim dos grandes partidos que a dominam nos EUA, à esquerda e á direita.
“A Golpada”
De George Roy Hill (1973)
Um superior filme de entretenimento e de qualidade industrial como o cinema americano sabia fazer melhor do que qualquer outro, A Golpada voltou a juntar George Roy Hill, Robert Redford e Paul Newman numa história de vigaristas que querem dar a maior golpada das suas vidas, nos EUA de meados dos anos 30, ainda a sofrer com os efeitos da queda da bolsa e da Grande Depressão. Redford e Newman são impecáveis no duo de vigaristas simpáticos que nos põem logo a torcer por eles, até porque vão “depenar” um cruel e arrogante gangster. A Golpada foi um êxito de bilheteira e de crítica, e deu a Redford a sua única nomeação ao Óscar de Melhor Ator. Era o filme de que ele se dizia mais orgulhoso, e que conseguia rever com prazer.
“O Grande Circo”
De George Roy Hill (1975)
Mais um irresistível filme de grande entretenimento assinado por George Roy Hill, passado nos anos 20, tão rigorosamente recriados como a década de 30 em A Golpada, O Grande Circo tem Robert Redford na pele de Waldo Pepper, um veterano aviador da I Guerra Mundial reduzido a dar instrução e a ser piloto de acrobacias para ganhar a vida. Pepper emparceira então com o alemão Axel Olsen (Bo Svenson), seu adversário durante a guerra e agora também piloto de exibição, e metem-se no cinema como “duplos” aéreos em fitas de guerra. Redford irradia simpatia, carisma e ousadia, e as sequências aéreas são do melhor que se fez no cinema.
“Os Três Dias do Condor”
De Sydney Pollack (1975)
Não é por Os Três Dias do Condor ser um típico thriller de espionagem “liberal” do tempo da Guerra Fria (isto é, tão sem ilusões sobre o KGB e o inimigo comunista como sobre os “nossos” e os seus serviços de espionagem) que não podemos deixar de admirar o papelão de Robert Redford na fita. Ele é um homem de secretária, um mero analista de informações da CIA baseado em Nova Iorque, que sai um dia para almoçar, e quando volta, vê que toda a gente da sua secção foi assassinada. Põe-se em fuga e vê-se metido numa intriga que não tem nada a ver nem com quem ele é, nem com o que faz na estrutura, acabando por perceber qual a sua verdadeira natureza.
“Os Homens do Presidente”
De Alan J.Pakula (1976)
Baseado no livro dos jornalistas do Washington Post Bob Woodward e Carl Bernstein sobre o Caso Watergate, que levaria à queda do Presidente Richard Nixon, Os Homens do Presidente tem Robert Redford e Dustin Hoffman nos papéis de Woodward e Bernstein, respetivamente. E é um dos filmes onde aquele transporta para a tela com mais expressão e maior eficácia as suas convicções políticas e o seu desejo de intervenção positiva na sociedade americana. O maior mérito de Os Homens do Presidente, escrito por William Goldman, é evitar a tentação demonstrativa e sentenciosa no argumento e pela boca das personagens principais, e ser, para além de um filme de fundo “político”, um empolgante thriller jornalístico. Que mostra, curiosamente, e como o próprio Redford frisou, como Woodward e Bernstein recorreram, na sua investigação, a métodos semelhantes aos daqueles que estavam a investigar, “só que para uma boa finalidade”.
“Uma Vida Inacabada”
De Lasse Hallström (2005)
Como enfrentar o envelhecimento no ecrã quando nos chamamos Robert Redford? Aparecer em filmes como Uma Vida Inacabada, numa personagem sem qualquer glamour, e que não esconde a idade nem os estragos físicos que ela causa. Redford interpreta um rancheiro de origem nórdica que acolhe, relutantemente, a nora (Jennifer Lopez), a quem culpa do desastre do automóvel em que o filho morreu, e a neta pequena, cuja existência desconhece. Uma Vida Inacabada podia ter sido um dramalhão insofrível, mas é todo o contrário, graças à realização bem modulada de Hallström, e à interpretação “física” e sabiamente económica de Robert Redford, que põe o máximo de expressão no mínimo de expressão. E até faz Lopez parecer boa actriz, por contiguidade.
“Quando Tudo Está Perdido”
De J.C. Chandor (2013)
Um veleiro é abalroado por um transporte de contentores no alto mar e o único homem à bordo tem que tentar manter o barco à tona e sobreviver. Único intérprete num papel quase mudo e num filme eminentemente visual, que pode ser entendido literal (o combate de um marinheiro experiente e corajoso com o mar em fúria) como metaforicamente (a luta incerta do Homem pela sobrevivência num mundo perigoso e indiferente), Robert Redford convoca todas as suas qualidades dramáticas, todo o capital de carisma acumulado ao longo dos anos, e todo o poder da sua persona cinematográfica, arrancando uma das mais exigentes, completas e arrebatadoras interpretações da sua carreira, num filme verdadeiramente único. Desde os anos 80 que ele não tinha um papel tão à sua altura como este.
“O Cavalheiro com Arma”
De David Lowery (2018)
Robert Redford decidiu pendurar o chapéu e sair de cena interpretando uma personagem real, Forrest Tucker, um idoso e cavalheiresco ladrão de bancos que conseguiu fugir da Penitenciária de San Quentin quando tinha 70 anos, conquistando a simpatia do público, e mesmo de alguns dos polícias que o perseguiam. Redford é positivamente imperial a fazer de Tucker, um good bad boy, habitando-o com aquela (enganadora) naturalidade e ausência de esforço de caracterização e personificação que só as lendas como ele conseguem. David Lowery tem a ideia luminosa de fazer, no final, uma montagem da vida de assaltos de Tucker desde a juventude, recorrendo a excertos de filmes do próprio Redford, naquilo que se torna no recapitular de uma carreira de mais de meio século no cinema.
ROBERT REDFORD, REALIZADOR
“Gente Vulgar”
1980
Uma família da classe média afluente e suburbana é ferida pela morte acidental do filho mais velho, seguida da tentativa de suicídio do mais novo, e as tentativas de regresso à normalidade possível, bem como de resolver as tensões e os conflitos entre os seus membros, mostram-se problemáticas. Elevação dramática, recato cinematográfico, inteligência emocional e muito discernimento, tacto e segurança na escolha e direção de actores (Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton, Judd Hirsch, Elizabeth McGovern), são as qualidades reveladas por Robert Redford no seu filme de estreia como realizador. Esta história de “gente vulgar” a braços com uma tragédia indizível conquistou público e crítica, e ganhou quatro Óscares, incluindo o de Realizador para Redford.
“Duas Vidas e um Rio”
1992
Talvez o melhor filme assinado por Robert Redford, passado no Montana dos anos 20 e refletindo o seu amor pela natureza e pela vida a céu aberto, Duas Vidas e um Rio centra-se em dois irmãos muito diferentes, um rebelde (Brad Pitt), outro introvertido (Craig Sheffer), filhos de um pregador (Tom Skerritt), e no papel da pesca à linha nas suas vidas. É tanto um filme sobre relações fraternais e familiares, e a medida de controlo que temos sobre as nossas vidas, como uma celebração do prazer da existência ao ar livre e da pesca à linha num rio num dia de sol, em que Redford (que também narra) consegue conjugar o retrato das convulsões e dos choques a que os seres humanos estão condenados, e uma visualização serena e gloriosamente pastoral da natureza, que roça mesmo o místico.
“Quiz Show”
1994
Robert Redford recorda e recria em Quiz Show o escândalo de manipulação de perguntas e de concorrentes num popularíssimo concurso televisivo dos anos 50 nos EUA, chamado Twenty-One, que era transmitido pela estação NBC. E usa-o para expressar ceticismo em relação à máquina de entretenimento televisiva, aos seus padrões de funcionamento e aos valores que veicula, bem como a sua desilusão quanto ao resultado do confronto entre a ética e os interesses comerciais. Redford volta aqui a mostrar que é um dos atores que melhor dirige os seus colegas, dando papéis memoráveis a nomes como Rob Morrow, John Turturro, Ralph Fiennes, Paul Scofield, ou David Paymer, e até a Martin Scorsese.