A pressão estava toda sobre si, aquela cara descontraída com o sorriso a esboçar-se por baixo do bigode farto desarmava qualquer tipo de sinal de ansiedade. Campeão mundial e campeão olímpico, Ethan Katzberg era o alvo a abater na final do lançamento do martelo. O húngaro Bence Halász foi o primeiro a lançar, marcou logo 81.51, colocou a pressão do lado do canadiano. A resposta demorou menos de um minuto: primeira tentativa, primeira marca acima dos 82 metros (82.66), primeira liderança. Ainda dentro da primeira ronda, o alemão Merlin Hummel também se quis intrometer na conversa, com um surpreendente registo de 82.77. A resposta durou pouco mais de um minuto: segunda tentativa, primeira marca acima dos 84 metros (84.70), segunda liderança. Cada vez que surge algo que podia ser uma crise, o campeão vê uma oportunidade.

Numa manhã (noite no Japão) marcada pelas qualificações e meias-finais dos 800, dos 400 e dos 110 metros barreiras, os olhos estavam também focados nas finais do martelo e do salto em altura masculinas. Apesar das ameaças iniciais, Katzberg, de apenas 23 anos, fazia sobretudo uma prova contra si. E uma prova que, logo na segunda de seis tentativas, estabeleceu a quinta melhor marca de sempre da disciplina, superado somente por Yuriy Sedykh (URSS, 86.74 em 1986 que permanece como recorde mundial), Sergey Litvinov (URSS, 86.04 em 1986), Vadim Devyatovskiy (Bielorrússia, 84.90 em 2005) e Koji Murofushi (Japão, 84.86 em 2003). Estava deixado aquele que fica como aviso do que poderá “arriscar” em breve.

Com um estilo sempre descontraído e bem disposto que acaba por alargar-se aos próprios adversários contra quem está a competir, o canadiano ainda fez mais dois lançamentos que dariam para medalha de ouro (83.07 e 83.73) mas não superou os 84.70 do início da final. De forma natural conseguiu a vitória numa das finais com melhores resultados de sempre, deixando Merlin Hummel e Bence Halász nas outras posição do pódio (o polaco Pavel Fajdek, que foi cinco vezes campeão mundial, não passou do sétimo lugar aos 36 anos com 77.75, sendo que o ucraniano Mykhaylo Kokhan também não conseguiu ir às medalhas tendo 82.02…). De forma natural é apontado a fazer história no atletismo a breve ou médio prazo.

Tudo começou quase como uma brincadeira. Quando tinha 14 anos e sonhava apenas ser um futuro jogador de basquetebol, o atleta que nasceu em Nanaimo, na Colúmbia Britânica achou piada à forma como o pai estava a treinar a irmã no lançamento do martelo e decidiu também arriscar. Da mera graça passou para algo mais a sério, de algo mais a sério passou para uma aposta de vida. Já com Dylan Armstrong, que foi vice-campeão mundial da disciplina em 2011 e medalha de bronze nos Jogos de Pequim em 2008, como técnico, estava a nascer uma ligação que marcaria a modalidade com resultados em menos de uma década.

“Ele era um jogador de basquetebol muito magrinho quando chegou a mim. Aquilo que mais me causou impressão foi a altura e a velocidade. É uma combinação rara. É mesmo complicado encontrar um rapaz alto, rápido e que possa ter algum interesse no lançamento porque eles vão todos para o basquetebol, para o futebol americano ou para outras modalidades”, explicou Armstrong. O antigo medalhado olímpico tinha um diamante em bruto nas mãos e nem mesmo a participação falhada na primeira grande competição a nível internacional, num Mundial de Sub-20 em Katzberg onde não fez um lançamento válido, impediu que tivesse uma ascensão meteórica que começou com a medalha de prata nos jogos da Commonwealth em 2022.

Nessa fase estava a lançar na casa dos 76/77 metros. No Campeonato do Mundo de Budapeste, logo no ano seguinte, ganhou a medalha de ouro com 81.25, seguindo-se um novo triunfo nos Jogos Pan-Americanos (80.96). Seguia-se o maior dos desafios, na primeira participação de sempre nos Jogos Olímpicos em Paris. Resultado? Fez o primeiro lançamento a 84.12, mais ninguém conseguiu sequer passar a fasquia dos 80 metros e tornou-se também campeão olímpico, alcançando agora novo triunfo com uma marca superior de 84.70 que o aproxima cada vez mais de um dos recordes mundiais mais antigos no atletismo.

“Só queria saber de basquetebol quando estava na escola, o martelo nunca me pareceu uma opção. Depois a minha irmã tentou, tem um ano e meio a mais do que eu. Quis seguir os seus passos. O meu pai estava como nosso treinador e acabou por tornar-se quase um evento familiar, o que tornou tudo especial. Passou a ser uma tradição ir treinar em família e tentar sempre fazer uma marca melhor. Foi assim que tudo começou, foi isso que me ajudou tanto na carreira”, contou em entrevista o gigante de dois metros. “Há muitos aspetos de força no martelo mas não acho que seja tão determinante como as pessoas pensam. É um movimento rápido e agressivo mas é preciso ter equilíbrio e perceber onde está o corpo em relação à bola. É quase uma dança para dar o máximo de energia e eficácia durante quatro voltas”, acrescentou Katzberg.

Próximo objetivo além de prolongar o domínio na disciplina? Bater o recorde mundial. E esta edição dos Campeonatos do Mundo em Tóquio deixaram esse sério aviso, tendo em conta que o canadiano bateu aquele que era o recorde em Mundiais (83.63) e o recorde nacional (84.38). No próximo ano, a marca de 86.74 feita por Yuriy Sedykha há três décadas volta a surgir na órbita do trabalho de desenvolvimento de Katzberg.