“Atenção a Nader, atenção a Nader, atenção a Nader”. Na RTP 2 ou no Eurosport 1, os dois canais que têm os direitos televisivos para Portugal do Campeonato do Mundo de Tóquio, o tom da narração ia mudando de dez em dez metros a partir do momento em que começou a reta final. Aí, Isaac Nader ainda estava em quinto. Uns metros antes, andava em sétimo (e a correr por dentro junto à corda). Queria isso dizer algo? Não. Mais do que nunca, o atleta algarvio estava confiante em si, na sua ponta final e na capacidade de surpreender os que não olhavam para ele como um potencial medalhado. Não ganhou bronze nem prata mas sim o ouro.
Sobrou emoção, sobraram lágrimas, sobraram abraços à namorada Salomé Afonso que na véspera tinha acabado a decisão dos 1.500 metros na 12.ª posição, sobraram cumprimentos a toda a delegação nacional que ia fazendo a festa pelo oitavo título mundial conquistado por Portugal desde que Rosa Mota abriu essa porta na maratona de 1987 em Roma. Isaac Nader acabara de surpreender a concorrência para ganhar um lugar na história do atletismo nacional depois da medalha de bronze nos Europeus em Pista Coberta em Apeldoorn. No entanto, e já depois de todas as questões protocolares já com a medalha ao pescoço (apesar de haver apenas cerimónia oficial com o hino português esta quinta-feira), aquilo que se percebia era que o atleta tinha conseguido “vingar” a medalha que não conseguiu ganhar nos últimos Europeus de Roma.
“Nos últimos 100 metros acho que vinha em sétimo, pensei em dar tudo até final porque ainda podia ser campeão mundial e porque ninguém me tinha de passar. Desta vez, a meta tinha de ser o foco, não podia olhar para trás. Ninguém hoje pode criticar o Isaac por olhar para trás. Foi até ao último metro. Nem sei com quanto [tempo] ganhei, o que importa é que ganhei. No final, faltavam 200 metros, tinha energia, não sabia quanta ainda tinha no tanque… Às vezes, as pessoas não percebem porque olho para trás. Quando não posso passar ninguém, olho ao menos para assegurar o lugar que tenho. Aconteceu nos últimos Mundiais de Pista Curta. Não é por insegurança, foi um tique que ganhei. Se é bom ou mau… é o que é. Nos últimos 40 metros, acreditei bastante e achava que tinha tanta energia que me surpreendi”, assumiu à agência Lusa.
“Ainda não acredito muito no que acabei por fazer. Estou um pouco cansado mas muito feliz. Levo muito tempo a dizer que acreditava muito nisto, que era o meu sonho, ganhar uma medalha. Hoje, sou campeão do mundo. Só há um título maior, que é ser campeão olímpico. A quem dizia que o Nader não podia ganhar, já calei muita gente. Mas essas pessoas não importam, importo eu, a minha família, a Salomé [Afonso], o meu treinador. Nem sempre é fácil. Encaro cada vez mais as corridas como só uma corrida, com menos nervosismo, menos aquela intensidade na corrida, e isso revela-se com a experiência, com fracassos. Ganhámos, com esses resultados menos bons, o aprender a ter calma, paciência no processo”, apontou.
“Faltavam 200 metros, tinha energia, não sabia quanta ainda tinha no tanque. Havia uma pequena fase em que o atleta que vinha nas costas, pela lateral, pedia para que não me complicasse a vida e me fechasse para os últimos 100 metros. Tive espaço para acelerar com tudo o que tinha. Hoje, fui campeão do mundo e fiz história. Os os sonhos alimentam tudo e é preciso, com realismo, viver um dia de cada vez”, concluiu na zona de entrevistas rápidas do Estádio Nacional de Tóquio, que ficara na história do atletismo português pela edição de Tóquio-2020 dos Jogos quando Pichardo e Patrícia Mamona ganharam o ouro e a prata no triplo.
Também o treinador de Isaac Nader, Pascual Oliva, que antes treinou o espanhol Fermín Cacho (que foi campeão olímpico em 1992 e vice em 1996 entre duas medalhas em Mundiais e um título europeu sempre nos 1.500 mas na década de 90), mostrou toda a satisfação por um título que faltava na carreira do português… e na sua como técnico. “Nos Europeus de Roma, em 2024, devia ter conquistado uma medalha. Tiraram-lhe essa oportunidade, ele não ganhou. Ao fim de 40 anos de carreira de treinador, esta é a cereja no topo do bolo. Gosto de ajudar quem quer ser ajudado, eu ajudo e dedico-me a isso. Sou um reformado e acho que este ano já está feito, com as medalhas do Isaac Nader e da Salomé”, comentou.
“Não chegámos muito bem aos Jogos Olímpicos de Paris porque não houve tempo depois de Roma. Houve outras competições, de clubes e assim, e isso impediu-nos de fazer o trabalho que tinha de ser feito. Era uma ambição e uma oportunidade mas se chegamos mal, não estamos em condições, não acontece. A forma de correr dele, por vezes, tem muitas mudanças de ritmo, muitos arranques, porque quer estar sempre no sítio certo e, por isso, gasta muita energia e ao gastar essa energia acaba por pagar. Foi isso que se passou lá mas também a evolução de um atleta, que tem de amadurecer. Não pode passar de 3.37 para 3.30 minutos e chegar às medalhas, tem de acostumar-se a fazer isso em competição, saber suportar o sofrimento, por isso, raramente acontece à primeira”, explicou ainda Pascual Oliva à agência Lusa.
Por fim, Domingos Castro, que está a liderar a primeira delegação em Mundiais e que foi um dos dois atletas portugueses medalhados na primeira edição com pódios nacionais em 1987, mostrou-se orgulhoso por algo que Isaac Nader perseguia há muito. “O Isaac merecia esta medalha, mais do que ninguém. Pela sua dedicação, porque tem feito coisas extraordinárias. Merecia esta medalha. Isto vai ajudar muito. Que toda a gente tenha os olhos nesta medalha porque temos possibilidade de ganhar mais. Vai ajudar-nos muito e apelo uma vez mais ao Governo para que veja a nossa modalidade. Estamos com uma força, juventude e uma geração fantástica mas precisamos de apoio. Espero que esta medalha desperte tudo e todos para que esses apoios venham. O Isaac é dos melhores do mundo e por isso candidato às medalhas”, salientou.
“É com um enorme orgulho que o Presidente da República congratula Isaac Nader pela conquista da medalha de ouro nos 1.500 metros nos Campeonatos do Mundo de Atletismo, que estão a decorrer em Tóquio, no Japão. Numa emocionante corrida, o atleta português mostrou toda a sua qualidade e determinação, com um final de corrida só ao alcance de grandes atletas. Isaac Nader junta, desta forma brilhante, o seu nome ao de outros compatriotas que alcançaram o lugar mais alto do pódio mundial e marcaram a história do atletismo e do desporto nacional. Em nome de Portugal e dos portugueses, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa agradece ao atleta, à sua equipa técnica e à Federação Portuguesa de Atletismo todo o trabalho e dedicação que nos permite ver a Bandeira Nacional ser elevada, em Tóquio, ao som de ‘A Portuguesa'”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, numa nota oficial.
“Fantástico Isaac Nader, uma demonstração incrível de vontade de vencer e de lutar até ao fim! Mais um campeão do mundo, neste caso nos 1.500 metros, com uma prova notável nos Mundiais de Atletismo no Japão. Parabéns!”, escreveu também Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal. “Isaac Nader é medalha de ouro! O atleta é campeão do mundo dos 1.500 metros masculinos, nos Mundiais de Tóquio. Parabéns Isaac! Um resultado fantástico que honra o desporto nacional. Muito obrigada!”, destacou ainda Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, também na rede X.