Uma noite, mil e um fenómenos estranhos numa noite onde uma lei de Murphy assolou a Luz e fez com que tudo o que pudesse correr mal, corresse ainda pior. A forma como o Benfica conseguiu uma vantagem clara de 2-0 com o Qarabag em 20 minutos foi estranha perante a passividade dos azeris. A forma como o Qarabag conseguiu chegar ao empate logo no arranque da segunda parte foi ainda mais estranha perante o eclipse da equipa do Benfica com o jogo na mão. A forma como o conjunto de Leste consumou a reviravolta com um jogador a fazer um remate certeiro para o 3-2 perante cinco adversários que o rodeavam sem o mínimo de ação para evitar o lance parecia ser o cúmulo das coisas “estranhas”. Afinal, havia mais para contar.

Bruno, o bigode de um Benfica de duas caras que insiste em chumbar na sondagem (a crónica do Benfica-Qarabag)

A forma como Bruno Lage saiu do relvado e a maneira como deixou a porta da saída aberta na conferência de imprensa parecia deixar antever novidades antes do encontro com o AVS. Rui Costa demorou menos de duas horas a decidir aquela que seria para já a melhor solução. E, no ponto mais estranho e inusitado da noite, optou por marcar uma conferência de imprensa para a 1h da manhã, literalmente como se não houvesse um amanhã, para anunciar que, após dois jogos em que não conseguiu ganhar na Luz, Lage foi despedido, numa informação que foi confirmada pelo Observador esta madrugada… tal como uma hipótese de sucessão.

Queria comunicar que chegámos a acordo com Bruno Lage, que deixa de ser treinador do Benfica a partir de hoje. Quero agradecer todo o trabalho e empenho mas infelizmente chegou o momento e entendemos que era o momento de alterar. Relativamente ao futuro, no sábado, na Vila das Aves, contamos ter o novo técnico”, avançou depois Rui Costa em conferência, à 1h20.

“O perfil do treinador do Benfica tem de ser um perfil ganhador. Lamento pelos benfiquistas pelo jogo com o Santa Clara e o de hoje [com o Qarabag], que são totalmente inesperados relativamente aos nossos argumentos. Não hipotecámos nada em relação aos objetivos da temporada. O próximo treinador que vier tem de ser ganhador e que coloque o Benfica nos patamares exigíveis e que nós pretendemos”, frisou o presidente dos encarnados. “Mourinho? O Benfica neste momento está sem treinador, o que se passou foi a conversa com Bruno Lage. Não entrou nenhum treinador hoje. Evidentemente que temos a nossa preparação para que no sábado o Benfica já esteja com o novo treinador no banco”, adiantou ainda Rui Costa.

“Razões para o insucesso? É por essa análise que tivemos de chegar a este momento. É uma semana dura e pesada para todos nós e para todos os benfiquistas. Esta semana deixou-nos aqui uma marca. Temos de levantar imediatamente a cabeça. É difícil até de explicar como é que a equipa virou de um momento para o outro, e lembram-se do meu discurso à equipa após apuramento para a Liga dos Campeões. Esta época é uma época bastante atípica para o nosso clube, o período que tivemos de descanso, de preparação para a Supertaça e para a pré-eliminatória da Champions. Até ao momento, a equipa não parou praticamente duas semanas para trabalhar, a única que parou foi aquela em que os jogadores foram para as seleções. Temos de mudar este rumo agora”, explicou o líder dos encarnados, passando ao lado do atual contexto eleitoral e defendendo os motivos pelos quais rescindiu com um treinador no início pela segunda temporada seguida.

“Muito honestamente, certo ou errado, sou muito apologista da continuidade dos projetos. Não fomos campeões mas a uma semana do fim tínhamos tudo para ganhar o que estava em disputa. Fomos para o Mundial e fomos eliminados pelos campeões do mundo. Considerava uma irresponsabilidade hipotecar a época pelo princípio, entrar numa Supertaça e numa pré-eliminatória da Champions sem uma pré-temporada, com um treinador que não conhecesse os jogadores. Parecia-me e parece-me uma irresponsabilidade. Não esquecer que pelo meio o Benfica tinha jogos do Campeonato. Essa foi a minha decisão e a confiança que tinha em Bruno Lage, porque na última temporada porque tivemos muito perto de ganhar tudo. Nenhuma equipa está em descalabro quando está tão perto de ganhar assim”, salientou.

“Eleições? Não estou aqui para salvar cargos nenhuns. Sou o presidente do Benfica. Ainda nem sequer fiz campanha, não fui aos vossos canais… Quero assegurar o futuro do Benfica. A minha decisão tem a ver com a época desportiva, para não hipotecar a época do Benfica. Estou longe de pensar o quê é que isto me traz em termos de eleições mas estou muito perto de saber o que isso trará ao futuro do Benfica. Nunca pus os meus interesses à frente do Benfica e não é agora que eu o vou fazer”, assegurou Rui Costa, a propósito das próximas eleições do clube já com seis candidatos daqui a cinco semanas, a 25 de outubro.

“A minha responsabilidade é fazer o melhor para o futuro do Benfica. Estamos no início da época, perdemos pontos que não devíamos ter perdido na Liga, perdemos hoje [terça-feira] o jogo da Liga dos Campeões que até é difícil de explicar. O melhor que eu posso fazer para o Benfica neste momento é não hipotecar a época. Ainda não entrámos em contacto com nenhum treinador, a única coisa que fiz foi ter uma conversa com Bruno Lage. Para mim, o importante neste momento é tomar as melhores decisões para o futuro do Benfica e não para o futuro do Rui Costa porque as minhas preocupações sempre foram assegurar o futuro do Benfica”, reforçou o líder dos encarnados, garantindo que a estrutura está preparada para assumir no Seixal a preparação para o encontro do próximo sábado enquanto o sucessor de Bruno Lage não é apresentado.

O Benfica tem estrutura suficiente para dar o treino de amanhã [quarta-feira], temos técnicos interinos. O treino de amanhã será de recuperação depois do jogo. Os treinadores estão sempre a prazo, independentemente de eleições ou não. Um treinador está sempre a prazo. Ninguém queria chegar a este momento. Não pude evitar esta decisão, da mesma forma como acredito que tenho de contratar um treinador para o resto da temporada”, explicou o líder das águias.

“A vinda do Mário Branco é para ser diretor geral do futebol do Benfica [que passou pelo Fenerbahçe], não tem a ver com José Mourinho. Neste momento, toda a gente tem quota parte. Ninguém está isento de responsabilidades, a começar por mim. Temos de analisar o que não correu bem, sobretudo esta semana. Os dois últimos jogos souberam a duas derrotas. Os tais dois objetivos que tínhamos [Supertaça e apuramento para a Champions] foram alcançados. Perdemos pontos mas não nos retiram dos objetivos que temos para o resto da época. Não há tempo a perder, como é óbvio”, disse também Rui Costa, desviando o foco sobre uma ligação que é imediata tendo em conta o trabalho de Mário Branco com José Mourinho.

Aliás, aproveitando essa ligação existente entre o diretor geral Mário Branco e José Mourinho, treinador que foi despedido do Fenerbahçe após ser eliminado pelos encarnados no playoff de acesso à Liga dos Campeões, o líder dos encarnados coloca o antigo técnico campeão europeu por FC Porto e Inter como possibilidade para entrar de imediato na Luz, faltando apenas saber o interesse ou não que o treinador poderá ter em assumir o Benfica no atual contexto. De recordar que, ainda com Luís Filipe Vieira na presidência da equipa encarnada, Mourinho chegou a ser ponderado mas não houve capacidade para convencer o técnico a fazer uma viragem na carreira para regressar a Portugal, algo que nesta fase apresenta outro contexto. O cenário de um regresso 25 anos depois ganhou força nas derradeiras horas e pode ainda ser revelado nas próximas horas, sendo que também Rui Costa já tinha ponderado nos últimos tempos o nome do setubalense.

Em relação a Bruno Lage, depois de vários sinais que saíram do encontro com o Qarabag que acabaram por ser uma confirmação de ideias que começavam a surgir entre a estrutura encarnada, a saída era inevitável. Os assobios, os lenços brancos, as reações às mexidas que o técnico ia fazendo na segunda parte e os cânticos de “demissão” foram quase uma sentença do “tribunal” da Luz mas, segundo apurou o Observador, houve mais razões além dos resultados para a saída do treinador que tinha regressado ao clube há pouco mais de um ano, na altura para render Roger Schmidt que tinha acabado de empatar com o Moreirense para o Campeonato em Moreira de Cónegos depois de um desaire logo a abrir a prova diante do Famalicão.

Lenços brancos, “demissão” e um descalabro total: o retrato de mais uma noite negra na Luz (e em que Lage pediu “reflexão”)

A forma como o Benfica não conseguiu “acabar” com o jogo frente ao Santa Clara em vantagem no resultado (e numérica ao longo de uma hora) fez soar alarmes, a maneira como os encarnados se deixaram surpreender em casa com o Qarabag ainda mais e o que aconteceu no final do encontro, dos assobios das bancadas ao que se passou no centro do relvado entre treinador e jogadores, foram argumentos suficientes para, numa conversa com Bruno Lage ocorrida depois do encontro, Rui Costa entender que haveria um problema sem solução no futebol dos encarnados. Aliás, as próprias declarações do técnico após a derrota com os azeris já apontavam para esse cenário, com a nuance de colocar no número 1 do clube o “ónus” da decisão.

“Não foi a noite que queríamos oferecer aos adeptos, mereciam muito mais, mereciam que fosse como os primeiros 30 minutos. Não mereciam esta primeira noite europeia. Depois, recuperar o que disse há uns tempos atrás. Nunca serei um problema para o Benfica. Já me proporcionou tantas alegrias, que não serei problema. Quando o presidente sentir que não tem apoio dos adeptos, sou responsável por isso. Sou causador, quando sentir que a minha mensagem não passa, ou que os jogadores ou o grupo não está comigo, ou quando sentir que não sou a pessoa ideal para o lugar, o Benfica só me paga até esse dia”, tinha referido Bruno Lage na conferência de imprensa após a derrota por 3-2 no Estádio da Luz frente ao Qarabag.

Depois de regressar ao comando da equipa principal do Benfica, onde ganhara um Campeonato e também uma Supertaça antes das passagens por Wolverhampton e Botafogo, Bruno Lage não voltou a ganhar outra Supertaça frente ao Sporting no início da presente temporada, após uma época de 2024/25 em que perdeu o Campeonato e a Taça de Portugal nas decisões finais antes de ficar pelos oitavos do Mundial de Clubes. Em 2025/26, o Benfica leva sete vitórias, dois empates (um no Campeonato, frente ao Santa Clara) e uma derrota, contra o Qarabag, no início da Liga dos Campeões. Antes da recente paragem para as seleções, os encarnados tinham cumprido os dois objetivos naquela que foi a temporada com maior investimento de sempre da Benfica SAD: ganhar a Supertaça e alcançar a entrada na Champions… frente a José Mourinho.