Desnorte, descalabro, demissão. São muitas as palavras de prefixo “de-” que servem para descrever o que aconteceu esta terça-feira no Estádio da Luz e que deixou mais uma vez agastados os adeptos encarnados. O jogo até parecia destinado à goleada depois de Enzo Barrenechea e Vangelis Pavlidis terem faturado no espaço de dez minutos, ao cabo de apenas 16 minutos de jogo, mas o Benfica voltou a entrar numa espiral de autossabotagem depois da meia-hora e, apesar de ainda ter chegado ao intervalo em vantagem, o resultado já pecava por escasso para o conjunto do Azerbaijão, 57.º no ranking da UEFA — entretanto subiu a 55.º. O intervalo pouco serviu para inverter a tendência do desafio, o Qarabag aproveitou para entrar no início da segunda parte e somou a histórica vitória na reta final (2-3).

Bruno, o bigode de um Benfica de duas caras que insiste em chumbar na sondagem (a crónica do Benfica-Qarabag)

A estreia das águias nesta fase de liga da Liga dos Campeões começou desde logo com um clima de incerteza que se avivou depois do empate frente ao Santa Clara. Ainda antes do pontapé de saída, os adeptos manifestaram-se contra Bruno Lage aquando da apresentação da equipa feita pelo speaker e não se coibiram de assobiar o treinador. A situação manteve-se ao intervalo, apesar do triunfo pela margem mínima, ganhando outros contornos após o apito final, com os espectadores a brindarem Lage com uma grande assobiadela, vários lenços brancos e pedidos de “demissão”. No relvado, as imagens da transmissão televisiva captaram uma conversa entre o técnico e o capitão Nico Otamendi. Para além disso, a equipa não se aproximou das bancadas, permanecendo apenas no centro do relvado. Aquando da saída para o balneário, Lage liderou a comitiva e ouviu mais assobios.

O técnico setubalense precisou de quase uma hora para comparecer na sala de conferências de imprensa do Estádio da Luz, já depois de ter demorado mais de meia-hora para marcar presença zona da flash-interview. Quem também foi escolhido pela comunicação das águias para comparecer ao microfone da SportTV foi Giorgi Sudakov, avançado que se estreou há apenas quatro dias e que, nos últimos tempos, viu a sua casa na Ucrânia destruída por um drone russo. Nas declarações aos jornalistas, Lage deixou o seu futuro nas mãos do presidente Rui Costa e apelidou esta de uma “noite infeliz”.

“Começámos muito bem o jogo. Fizemos 30 minutos muito bons, mas senti que a forma como sofremos o primeiro golo doeu-nos um bocadinho. A equipa foi tendo algumas dificuldades a encontrar-se e a manter-se no jogo. Acho que sofremos dois golos que nos penalizaram imenso. Fica o resultado que não queríamos e uma noite que não foi feliz. O que se viu foram dois lançamentos em profundidade. No primeiro [golo] há um espaço enorme entre o Dedic e o António e a bola entrou entre os dois. Depois foi uma bola nas costas, com a linha a subir e a deixar a gente para trás e a colocar o adversário em jogo. A equipa tem de se saber levantar, fazer a reflexão do que aconteceu, perceber muito bem o momento que vivemos dentro e fora de campo, e responder o mais rapidamente possível”, partilhou o treinador à SportTV.

“Nunca serei um problema para o Benfica. Tenho consciência de que o Benfica já me proporcionou tantas alegrias e uma carreira que considero bonita e nunca serei um problema. Quando o presidente sentir que não tem o apoio dos adeptos e que sou o maior responsável por isso, quando o presidente sentir que a minha mensagem não passa aos jogadores, ou que eles não estão comigo, quando ele sentir que não sou a pessoa ideal para o lugar, o Benfica só me paga até esse dia. Não serei um problema para o Benfica. Não é uma despedida de nada. Não quero ser um problema para o Benfica. Sabíamos para o que vínhamos. Vocês [jornalistas] perceberam muito isso logo no primeiro dia. Futuro? Não sei, porque o que controlamos é o nosso trabalho. Temos de olhar para o que fizemos, para os primeiros 30 minutos e os outros 60 [contra o Santa Clara]. Temos de olhar principalmente para os golos que sofremos, que me deixam muito triste. Não é costume sofrermos golos como sofremos o primeiro e o terceiro”, disse Bruno Lage em conferência de imprensa.

Esta foi a sexta vitória na história que o Benfica perdeu um jogo em casa depois de estar a ganhar por dois golos de diferença, depois do que aconteceu com o Belenenses (1926, 1935 e 1939), o FC Porto (1975) e o Barcelona (2025). Curiosamente, dois desses desaires aconteceram com Bruno Lage, ambos na Liga dos Campeões e em 2025. Para além disso, é a terceira época consecutiva em que as águias não vencem uma partida da prova milionária depois de terem dois golos de vantagem — e todas aconteceram na Luz —: Inter Milão (3-3 em 2023/24) e Barcelona (4-5 em 2024/25). O Qarabag deu ao Azerbaijão a sua primeira vitória de sempre na Champions.